• 30 de setembro de 2020

Entre o literato e o político: literatura, política e ideologia em Orwell

 Entre o literato e o político: literatura, política e ideologia em Orwell

Entre o literato e o político: literatura, política e ideologia em Orwell

O que se escreve sobre a relação entre a postura literária e a postura política e ideológica de determinados autores não é discussão nova. Tal questão se situa no interior de um debate no qual há disputa entre se saber o que é verdadeiro: se há um eu lírico essencial ou se esse eu lírico nada mais é do que uma resposta consciente e/ou inconsciente às contingencias das relações sociais, da vida. Em Notas sobre literatura, especialmente o capítulo “Palestra sobre lírica e sociedade”, Adorno (2003, p. 73) dirá que:

Não se trata de deduzir a lírica da sociedade;; seu teor social é justamente o espontâneo, aquilo que não é simples consequência das relações vigentes em determinado momento. […] Ora, isso quer dizer que também a resistência contra a pressão social não é nada de absolutamente individual nessa resistência agem artisticamente, através do indivíduo e de sua espontaneidade, as forças objetivas que impelem para além de uma situação social limitada e limitante, na direção de uma situação social digna do homem; forças, portanto, que fazem parte de uma constituição do todo, não meramente da individualidade inflexível, que se opõe a sociedade.

Entre os mecanismos para se agir artisticamente em prol dessa dignidade do homem, Adorno colocará em primeiro lugar a linguagem. É por meio da linguagem que nos expressamos e nos posicionamos.

Pensado na relação entre o que se escreve e o que faz, entre o artista /escritor e sua ação política, pode-se colocar George Orwell, como um desses grandes autores que mais sintetizou sua linguagem em seus romances e ensaios com sua posição política. Escrita do artista e sua posição ideológica que articulam claramente em prol disso que Adorno chamou de a dignidade à humanidade.

Quanto a Orwell, essas articulações podem ser vistas, inclusive de maneira reducionista, entre outras coisas, por que muitos leitores interpretam textos como 1984 e Revolução dos bichos única e exclusivamente contra um combate ao socialismo e ao comunismo.

Há um equívoco em pensar que o autor ataca o comunismo enquanto sistema de governo. O que há é justamente a postura de Orwell contra todas as formas de totalitarismo, inclusive na sua versão soviética, mas que poderiam e ainda podem ser facilmente contextualizadas a partir de casos do século XXI.

Nesse sentido, não há incoerência entre os textos literários do autor em relação aos seus ensaios e textos jornalísticos. O que está em voga, para Orwell, é, ao mesmo tempo, mostrar as racionalidades que existem no interior de regimes totalitários e fascistas, que se instalaram e que ainda poderiam se instalar pelo mundo à fora.

Nesse contexto, Adriana Alves de Paula Martins destaca a impossibilidade de, ao ler Orwell, desvincular o romancista do ativista político. Fazendo a análise de Animal Farm em relação a outros escritos contemporâneos dessa obra, Martins mostra a perfeita sintonia entre os textos. Sobre o posicionamento de Orwell nas linhas de Animal Farm, de Adriana Martins (2004, p. 2):

[…] numa era totalitária, em que os escritores eram levados a assumir posições político-partidárias perante um público leitor, muitas vezes, alienado e mesmo apolítico, Orwell tirou partido do registo alegórico da fábula para conciliar o seu engajamento político (enquanto cidadão preocupado com os destinos do bem-estar da humanidade) com a necessidade de desmascarar o totalitarismo soviético, encarado por muitos intelectuais, de forma mítica e equivocada, como a solução redentora da esquerda para o caos de um mundo em ebulição.

Segundo a análise de Adriana Martins (2004) o traço de fundamental que é encontrado em Animal Farm é encontrado também nos ensaios contemporâneos que apontam a unidade discursiva no interior de gêneros literários diversificados. Nesse sentido a autora mostra como o escritor trata temas que, ainda hoje são atuais, como o nacionalismo: “segundo Orwell, as notas sobre o nacionalismo poderiam ser aplicadas a qualquer “-ismo” (Comunismo, Anti-Semitismo, Pacifismo, dentre outros), o que me permite aplicá-las ao “Animalismo” postulado pelos animais revoltosos em Animal Farm” (MARTINS, 2004, p. 6).

Ora, o que está em jogo no interior do nacionalismo é o modo etnocêntrico de percepção das coisas, que leva sistematicamente ao autoritarismo e ao totalitarismo. Nas sociedades democráticas, esses aspectos estão visceralmente ligados a eleição de pessoas com claras propostas totalitárias, levando àquilo que Agambem chamou de estado de exceção permanente.

Nesse tipo de estado, seja ele totalitário ou travestido de democrático há constantes investidas contra a memória, seu apagamento e a tentativa de reinventar os fatos, a partir de supostas períodos que teriam sido áureos e harmoniosos. Bem como, há a tentativa de se produzir um espectro mítica em torno de símbolos, hinos e outras coisas que podem levar a representar esse ímpeto nacionalista (para uma leitura interessante da formação e santificação dos símbolos no Brasil, ver: CARVALHO, José Murilo. A formação das almas).

Há, nessa perspectiva, um desejo imperioso de superioridade e de pureza populacional. A tal ponto que

A obsessão pela superioridade (que atinge o seu expoente máximo com os porcos) está intimamente relacionada com a segunda característica do pensamento nacionalista. A instabilidade diz respeito à transferência de lealdades nacionalistas, na medida em que tudo aquilo que foi valorizado pode, para os nacionalistas, passar a ser detestado (MARTINS, 2004, p. 7).

Os textos de Orwell se estabelecem limite ideológico entre o pensamento político a criação literária, ao contrário, elas se complementam em prol da defesa dos direitos mais fundamentais. Isso não precisa está dito claramente, basta entender que, ao denunciar os horrores de uma sociedade regida por mecanismos totalitários, o que está a fazer é justamente requerer o estado de direito. Uma organização que se estabeleça na constitucionalidade, e não na reformulação das diretrizes legais ao bel-prazer.


REFERÊNCIAS

MARTINS, Adriana Alves de Paula. A resistência à (des-)ordem do mundo ou a dimensão ético-política da escrita de George Orwell. Máthesis, v. 13, p. 1-9, 2004.

ADORNO, Theodor. Palestra sobre lítica e sociedade. In. ______. Notas sobre literatura. Trad. Jorge M. B. de Almeida. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2003.

AGAMBEM, Giorgio. Estado de exceção. Taad. Iraci D. Poleti. São Paulo: Boitempo, 2004.


Nota: Na coluna da Comissão de Estudos Direcionados em Direito & Literatura do Canal Ciências Criminais, apresentamos aos leitores um pouco daquilo que vem sendo desenvolvido pela comissão nessa terceira fase do grupo. Além da obra que será produzida, a comissão se dedica a pesquisa e ao debate sobre questões presentes na temática “Direito & Literatura”. Em 2019, passamos a realizar abordagens mais direcionadas nos estudos. Daí que contamos dois grupos distintos que funcionam concomitantemente: um focado na literatura de Franz Kafka e outro na de George Orwell. Assim sendo, alguns artigos foram selecionados e são estudados pelos membros, propiciando uma salutar discussão entre todos. Disso se resultam as ‘relatorias’ (notas, resumos, resenhas, textos novos e afins), uma vez que cada membro fica responsável por “relatar” determinado texto por meio de um resumo com seus comentários, inclusive indo além. É o que aqui apresentamos nessa coluna, almejando compartilhar com todos um pouco do trabalho da comissão. O texto da vez, formulado pelo colega Ronivaldo De Oliveira Rego Santos, foi feito com base no artigo “A resistência à (des-) ordem do mundo ou a dimensão ético-política da escrita de George Orwell”, de Adriana Alves de Paula Martins – publicado na Máthesis. Vale conferir! (Paulo Silas Filho – Coordenador das Comissões de Estudos Direcionados de Direito & Literatura – Orwell e Kafka – do Canal Ciências Criminais)


Quer estar por dentro de todos os conteúdos do Canal Ciências Criminais?

Siga-nos no Facebook e no Instagram.

Disponibilizamos conteúdos diários para atualizar estudantes, juristas e atores judiciários.

Ronivaldo de Oliveira Rego Santos

Mestre em História, Especialista em Ensino de Filosofia. Pedagogo e Docente