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Luis Garavito, a besta colombiana


Por Bernardo de Azevedo e Souza e Henrique Saibro


“Apareço como um ser diabólico, impiedoso e malvado, mas não sou assim, sou um ser humano que sofreu terrivelmente e segue sofrendo” (Luis Garavito)

A PERSONALIDADE

Luis Alfredo Garavito nasceu em 25 de janeiro de 1957, em Génova, Quindío, na Colômbia. Vindo de uma grande família, era o mais velho de seus sete irmãos. Cresceu em ambiente bastante pobre, tendo sido criado de modo cruel por seu pai – um tipo violento e alcoólatra. Igualmente, não recebeu nenhum tipo de afeto por parte de sua mãe. Juntamente com a sua família, ainda durante a sua infância, teve que se mudar às pressas para outra cidade, tendo em vista os conflitos sangrentos de guerrilhas armadas proveniente do tráfico de drogas – o que era comum naquela época colombiana.

Entusiasmado no seu novo colégio, iniciou o ano letivo de forma bastante positiva. Entretanto, no decorrer dos dias, passou a sofrer bullying de seus colegas, muito em razão de seu péssimo desempenho escolar, fruto de dificuldades em memorização, fato esse que lhe tornou uma criança extremamente tímida e introspectiva. Alheio ao seu inferno astral na escola, seu ambiente familiar só piorava: o seu pai ultrapassou os limites da violência e passou a agredir, rotineiramente, a sua mãe.

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Garavito na juventude

Um dos maiores traumas de Garavito foi ter presenciado a sua mãe sendo espancada em plena gravidez; Gravito, ainda um menino, tentou intervir e socorrê-la, mas apenas lhe rendeu uma surra. Disse que seu pai sempre gritava à sua mãe: “eu te tirei da lama, sua vagabunda!”. Como se não bastasse, o carrasco do seu pai ainda lhe abusava sexualmente. “Não me lembro do meu pai dormindo com a minha mãe. Apenas me lembro de, à noite, eu ter acordado com ele deitado ao meu lado, acariciando as minhas partes íntimas”.

E as tragédias experimentadas na infância pela “besta” colombiana não possuíam limites. Um amigo do seu pai, dono de uma farmácia perto de sua casa, lhe torturava e abusava sexualmente quando ainda possuía doze anos. Disse que o sujeito mordia o seu pênis e as suas nádegas, além de despejar cera quente em sua pele. Referiu que era amarrado em uma cama e obrigado a práticas sexuais inenarráveis.

O seu novo carrasco passou a ser um abusador audacioso, na medida em que, quando visitava o seu pai à noite, aproveitava um momento de distração e se dirigia até o seu quarto, puxava-o para fora da sala e o levava até o campo de sua pequena fazenda. Ali, ele violava sexualmente Garavito à vontade.

Garavito relatou que sofreu mais episódios de abusos sexuais – um deles praticado, novamente, por outro amigo de seu pai. A partir daí os danos psicológicos provenientes de tais experiências traumáticas já eram definitivos. Passou a sentir atração por pessoas do mesmo sexo e a abusar sexualmente de seus irmãos mais novos. Era o início de uma intensa e extensa carreira criminosa.

A fim de satisfazer a sua lascívia, Garavito encurralou uma criança perto de uma estação rodoviária. Disse que, nesse episódio, não possuía a intenção de abusar sexualmente, de forma grave, o menino. Com a vítima encurralada, passou a tocar nas suas partes íntimas. Ocorre que o menino gritou e chamou a polícia. Foi a primeira detenção de Garavito. Quando entregue ao seu pai, foi novamente reprimido e espancado. Seu pai, segundo Garavito, não permitia que tivesse uma namorada, apesar de, sem coerência nenhuma, criticá-lo por não possuir uma companheira. Decidiu, então, sair de casa e viver de seu próprio sustento.

Durante a sua vida adulta, não manteve emprego fixo. Vagava de ocupação em ocupação, sendo que se dedicou, na maioria das vezes, como vendedor em pequenos comércios. Tornou-se, assim como seu pai, alcoólatra, de modo que se mostrava um indivíduo violento com seus colegas de trabalho e chefes – o que dificultava a estabilidade no ambiente de trabalho.

O ‘MODUS OPERANDI’

Mas foi por volta dos anos 90 que, em tese, começou a torturar, estuprar e matar crianças. Nessa época, vendia imagens do Papa João Paulo II e do Niño del 20 de Julio (imagem infantilizada de Jesus). Seu método criminoso era quase sempre o mesmo: dirigia-se a praças de zonas periféricas, escolhia crianças, em sua visão, sexualmente atraentes – normalmente entre 8 a 16 anos –, iniciava uma conversa com o menor, lhe oferecia dinheiro e o convidava para passear. Quando da caminhada, buscava embriagar-se com bebidas de alto teor alcoólico, para fins de obter coragem para o cometimento de suas atrocidades.

FACES DA BESTA

As diversas faces assumidas por Garavito para executar seus crimes

A partir do momento em que a vítima se cansava de “passear”, a “besta” a levava para um local desocupado, normalmente um matagal, e, ato contínuo, amarrava as suas mãos e a violentava sexualmente. Mas não era o fim do sofrimento da jovem desafortunada vítima. Aliás, já adiantamos que, ao continuar a leitura, você se deparará com relatos indigeríveis. Garavito, provavelmente tomado por um forte sentimento de culpa, acabava transferindo essa sensação à criança, de modo que passava a torturá-la, mediante um forte espancamento: quebrava as mãos do menor mediante pisadas violentas com seus pés e despedaçava, tamanha surra, as costelas.

O ápice do sofrimento era quando, com uma faca, mutilava os dedos, amputava as mãos, arrancava os olhos e as orelhas. Finalmente, e com a criança ainda com vida, degolava-a. Chamava atenção o hábito de Garavito de, após assassinar suas vítimas, realizar anotações sobre a data, hora e local do homicídio. Talvez sentisse prazer, ao consultar posteriormente seus escritos, em relembrar os pesadelos que causava às suas presas – apesar de nunca ter deixado muito o claro o verdadeiro motivo de tais registros.

A crueldade de seu modus operandi foi gradativa. Ou seja, no início não empregava tanta desumanidade nos seus delitos. Todavia, no decorrer de sua senda criminosa, além da terrível descrição anterior, costumava abrir cortes profundos na barriga de suas vítimas a ponto de avistar seu sistema digestivo, sem, entretanto, retirar sua vida – tudo em nome do sofrimento alheio.

A CONDENAÇÃO

Luis Garavito estupro e assassinou 111 crianças entre os anos de 1992 e 1999. O autor Mauricio Aranguren Molina, que escreveu sobre os crimes, indica que o número de meninos mortos foi 192 (tal patamar inclusive leva o título de sua obra publicada no ano de 2002). Estima-se, contudo, que o número de vítimas tenha ultrapassado 300.

confissão

A “besta” confessa seus delitos às autoridades policiais

Por todos os crimes praticados, Garavito foi condenado à pena máxima existente no ordenamento jurídico colombiano: 40 anos de prisão (art. 37, 1, da Ley 599/2000: “la pena de prisión tendrá una duración máxima de cuarenta (40) años”). Muitos foram os que pediram a prisão perpétua e a pena de morte da “Besta”, embora não aplicáveis na Colômbia. Para a indignação e rejeição da opinião pública, a sentença foi posteriormente reduzida para 24 anos, em virtude da colaborado do homem com as autoridades na localização dos corpos de algumas das vítimas.

A PRISÃO

Durante o período em que ficou preso – ainda permanece -, Luis Garavito tentou se matar diversas vezes. Isso levou as superintendências penitenciárias colombianas a removê-lo para mais de um presídio, bem como a deixá-lo sempre em uma cela individual, isolado de outros detentos.

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Garavito concede entrevista para um canal de TV local

Em sua primeira e única entrevista para a TV, veiculada em 11 de junho de 2006 por um canal local, a “Besta” tentou a todo tempo justificar seus crimes, negando ter violado sexualmente as vítimas (por ser detentor de disfunção erétil), embora em nenhum momento tenha negado os homicídios praticados. Questionado sobre o futuro, disse que pretende seguir carreira política e direcionar seus esforços para combater a exploração sexual infantil


REFERÊNCIAS

MOLINA, Mauricio Aranguren. El gran fracaso de la fiscalía: 192 Niños asesinados. Captura y confesión de Garavito: “La bestia”. Bogotá: Oveja Negra, 2002.

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Autor

Advogado. Mestrando em Ciências Criminais. Especialista em Ciências Penais. Especialista em Compliance.
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