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“Luz Vermelha”: uma análise da música da banda Ira! (Parte 2)

Canal Ciências Criminais

Por Diorgeres de Assis Victorio


“Eu adoro matar pessoas. Eu adoro vê-las morrer. Eu atiro em suas cabeças, e elas se balançam e se contorcem por todo o lugar, e depois simplesmente param. Ou corto-as com uma faca e vejo seus rostos ficarem muito brancos. Eu amo todo aquele sangue. Eu falei para uma mulher me dar todo seu dinheiro. Ela disse não, então eu a cortei e arranquei seus olhos. (Richard Ramírez)

Dando continuidade ao artigo da semana passada (leia aqui), continuarei a análise da música que em sua letra faz menção ao criminoso que ficou muito famoso, inclusive sendo objeto de filme em nosso país: “João Acácio Pereira da Costa, o Bandido da Luz Vermelha”.

Luz Vermelha foi perdido no cais
Dos sem nome
Era tido como um bom rapaz
Tal qual o “Golem

Muito interessante o fato da letra da música mencionar que Luz Vermelha era “tido” (conhecido) como um bom rapaz, tal qual o “Golem”. Mister se faz entrarmos um pouco na mitologia judaica e também na língua hebraica para que assim possamos esclarecer o que vem a ser o Golem, vejamos:

“No judaísmo, o golem (גולם) é um ser animado que é feito de material inanimado, muitas vezes visto como um gigante de pedra, ou de barro. No hebraico moderno a palavra golem significa “tolo”, “imbecil”, ou “estúpido”. O nome é uma derivação da palavra gelem(גלם), que significa “matéria prima”.

A biografia de Luz Vermelha realmente tem muita relação com o fato da Banda mencionar que ele é tal qual o Golem, simplesmente porque Luz Vermelha realmente era tido como um tolo, imbecil e estúpido e também apresenta nexo com palavra gelem (matéria-prima), até porque ele era tido como um “grosso” uma pessoa que necessitava ter sua personalidade moldada, e não é à toa que o mesmo teve que por muitos anos habitar o Anexo da Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté (C.C.T.T) (local de fundação do P.C.C.) hoje Hospital de Custódia e Tratamento Penitenciário (H.C.T.P) submetido a medida de segurança. Luz Vermelha era um caso que exemplifica bem o quanto estamos atrasados no Estudo do Crime, poderíamos dizer que estamos tão avançados nos estudos desse fenômeno quanto nos estudos da Gripe H1N1 e outras que assolam o mundo atualmente.

Sou o inimigo público número um
Queira isso ou não
Por ser tão personal
Personal, personal

Os jornais na época o faziam ser o inimigo público número um, o filme do Bandido da Luz Vermelha o qual mencionei no artigo anterior, demonstra isso claramente.

O caminho do crime o atrai
Como a tentação de um doce
Foi calado na cela de gás
O bom homem mau

Uma outra fala que explica de forma precisa essa parte da letra da música é uma que ouvimos no filme supra citado, vejamos o que Luz Vermelha diz:

“– Que é que você quer da vida?

– Da vida eu não quero nada. Antigamente eu queria ser grande.

– Grande pra quê?

– Grande, sei lá pra quê. Queria ser famoso, ser o bacana, por bem ou por mal. Mas hoje eu sei que sou um coitado, não sou nada.”

Quanto à menção de que foi calado na cela de gás, esclareço mais uma vez, até porque já alertei no artigo anterior, que não há relação com o João Acácio e sim com Caryl Chessman.

No asfalto quente
O crime é o que arde
Bandidos estão vindo
De toda parte

O filme nos mostra que o crime também assolava a sociedade naquela época, não podemos pensar que somente agora a taxa de criminalidade é maior, na verdade acredito que naquela época já éramos vítimas das “cifras” (Cifras Negras, Cifras Douradas, Cifras Cinzas, Cifras Amarelas e Cifras Verdes) (recomendo a leitura de obras sobre Criminologia que versem sobre as cifras para que os leitores possam se aprofundar mais no assunto).

O caminho do crime o atrai…
É na cabeça…
Seu poder racional…
É na cabeça…
Personal, personal

Essa parte da letra da música me faz lembrar de uma frase do Luz Vermelha, na qual o mesmo dissera em 1995, que quando saísse da cadeia ele ia comprar um Simca Chambord “zero”, sendo que esse veículo deixou de ser construído em 1967. Luz Vermelha, assim como vários presos que cumprem penas por muitos anos, deixam de ter condições psicológicas de habitar a sociedade em virtude das mazelas e isolamento no cárcere, mesmo tendo acesso aos meios de comunicação, não há como readaptá-los novamente.

“Outro dia foi solto um preso de Presidente Wenceslau: ele não conhecia a nota de 500 cruzeiros; não tinha nenhum senso de realidade; ele não queria receber o dinheiro porque ele achava que aquilo era papel pintado; que não era dinheiro-e queria as notas do tempo que ele conhecia dinheiro.” (PIMENTEL, Manoel Pedro. Visão do Sistema Penitenciário Paulista à luz da Penologia moderna. Revista Jurídica, 1953, Porto Alegre, p.118) (g.n.)

Volto a mencionar mais uma vez[1] (agora dessa vez ao final do artigo), por ser imprescindível para compreensão desse artigo, que os leitores assistam o filme do Bandido da Luz Vermelha (veja aqui), pois ajudará os mesmos a compreender com mais facilidade o texto, tendo em vista que a letra dessa música foi analisada também pelo filme, fora a análise de sua biografia e a de Caryl Chessman.


NOTAS

[1] Mencionado a primeira vez aqui: “Recomendo que os prezados leitores deste Canal acompanhem essa leitura com a audição da música no YouTube que também dispõe da letra, tudo para facilitar o entendimento, assim como já vão se familiarizando com a história do “Luz Vermelha” assistindo ao filme que também está disponível no YouTube “O Bandido da Luz Vermelha” (Rogério Sganzerba – 1968), até porque para poder elaborar esse artigo foi necessário assistir ao filme para poder compreender a lógica da letra da música Rubro Zorro.” (Veja aqui).

_Colunistas-Diorgeres

Autor
Agente Penitenciário. Penitenciarista. Pesquisador
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