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“Luz Vermelha”: uma análise da música da banda Ira!

Canal Ciências Criminais

Por Diorgeres de Assis Victorio


Resolvi escrever esse artigo sobre o João Acácio Pereira da Costa pelos seguintes motivos:

Primeiro, porque pretendo dar continuidade a análise de músicas pela ótica da Criminologia (meu primeiro artigo nessa linha foi o Rap do PCC), tendo em vista que somente eu ainda me propus a enfrentar essa vertente no Canal Ciências Criminais e há uma carência em artigos científicos dessa natureza. Informo ainda, que mais adiante (já me proponho de ante-mão) irei analisar alguns filmes pela ótica da Criminologia, cito alguns: a) O Bandido da Luz Vermelha; b) O prisioneiro da grade de ferro; c) Assalto ao Banco Central; d) 400 contra 1, e) Salve Geral e etc.

Segundo, porque ou fã da banda Ira!;

Terceiro, porque quando eu era zelador do Raio II na Unidade Prisional onde trabalho, acontecia via de regra ingressarem presos oriundo do local aonde nasceu o P.C.C. (Anexo da Casa de Custódia de Taubaté) (por esse fato tive a oportunidade de conhecer bem o P.C.C., pois os membros dessa organização criminosa saiam dessa Unidade e iam primeiramente para aquela onde trabalho).

Em uma dessas vindas de presos do anexo, verifiquei o ingresso de um preso de estatura mais baixa que a minha (tenho 1,75m), de cútis negra usando uma jaqueta preta que aparentava ser de couro. Como via de regra, me dirigi a esse preso até porque eu queria saber quem que estava vindo do “Anexo” (saber qual era esse novo “abacaxi” que o Estado estava me enviando e fui bater um papo com ele. Nisso verifiquei que ele estava muito temeroso, não olhava em meus olhos (sempre de cabeça para baixo), falava muito devagar e muito baixo e ficava sempre com suas mãos para trás (naquela época era comum exigirem esse comportamento dos presos, principalmente daqueles que habitavam o Anexo). Observei  que seu comportamento era bem diferente dos demais, acho que em virtude de ser “vítima” dos psicotrópicos. Ele teria “conseguido” converter sua medida de segurança em pena privativa de liberdade e assim teria posto fim a “pena perpétua” no Anexo da Custódia de Taubaté. Sem maiores delongas, vamos a análise da letra da música.

Uma banda brasileira de rock and roll formada em 1981, na cidade de São Paulo, escreveu uma música em que a letra fazia menção ao ‘Bandido da Luz Vermelha’. Tratava-se da banda Ira!, na qual os membros Edgard Scandurra, André Jung, Ricardo Gaspa e Nasi no ano de 1988 lançaram um álbum de LP (Long Play – denominado de Vinil, Bolachão e etc.) de nome Psicoacústica. O mesmo ocupou a lista da Rolling Stone Brasil, dos 100 maiores discos da música brasileira (ocupou a 81º lugar). Interessante aqui mencionar que o nome da música não é Luz Vermelha ou Bandido da Luz Vermelha e sim Rubro Zorro, mas na mesma cita por diversas vezes algumas partes da biografia desse conhecido criminoso.

Recomendo que os prezados leitores deste Canal acompanhem essa leitura com a audição da música no YouTube que também dispõe da letra, tudo para facilitar o entendimento, assim como já vão se familiarizando com a história do “Luz Vermelha” assistindo o filme que também está disponível no YouTube “O Bandido da Luz Vermelha” (Rogério Sganzerba – 1968), até porque para poder elaborar esse artigo foi necessário assistir ao filme para poder compreender a lógica da letra da música Rubro Zorro. Um outro fato interessante é que os leitores busquem informações sobre a biografia de um outro certo “Luz Vermelha” (Caryl Chessman) condenado na Califórnia à câmara de gás. Ficou acusado de ser “The Red Light Bandit” e sem provas robustas foi condenado a câmara de gás.

“Luz Vermelha do Brasil” (João Acácio) se espelhou nele, por isso ele assumia que praticara crimes sexuais, pois Caryl tinha sido acusado e condenado por esses crimes, mas quanto a João Acácio nunca existiu provas disso, apesar dele sempre dizer sim. Ele assediava as mulheres, acho que por esse fato não havia provas contra ele, até porque em um certo grupo de mulheres “o crime” desperta uma certa paixão, sou testemunha disso até pelo fato de milhares de mulheres que já presenciei em visitas as Unidades nesses mais de 20 anos junto ao cárcere. Vamos aos pontos principais dessa letra, relacionado-a com o filme e biografia do mesmo:

Rubro Zorro

“Trata-se de um faroeste sobre o terceiro mundo…”

No início do filme verificamos que há uma espécie de letreiro (que depois verificamos que passa a noticiar fatos durante o filme todo) citando exatamente essa frase.

“O caminho do crime o atrai
Como a tentação de um doce
Era tido como um bom rapaz
Foi quem foi”

Verificamos na biografia de João Acácio que sempre demonstrou grande atração pelo crime. Outro fato em sua biografia era que o mesmo era conhecido como um bom rapaz, nascido em Joinville (1942) foi morar em Santos (SP). Lá o mesmo se passava por um bom moço, mas na verdade praticava seus crimes em São Paulo e retornava a Santos onde morava sem despertar suspeita dos moradores daquele município, tendo em vista que dizia ser filho de fazendeiros (isso nunca despertava suspeita nas pessoas), pois estava sempre muito bem arrumado e cheio de dinheiro dos crimes que praticava em São Paulo. 

“Ao calar da noite
Anda nessas bandas
Do paraíso é o zorro
Rubro zorro”

Realmente João Acácio utilizava-se das altas horas das madrugadas para praticar crimes. Já, quanto a letra mencionar que do paraíso ele era o Zorro Rubro Zorro, quis os autores dessa letra nos lembrar que o Paraíso seria a cidade de Santos e que Luz Vermelha tinha por hábito “tirar dos ricos e dar aos pobres” uma espécie de “Robin Hood” daquela cidade litorânea. Era conhecido como Rubro Zorro por dois motivos. Primeiramente Rubro pelo fato de usar uma lanterna com luz vermelha para praticar seus crimes e o fato da letra mencionar Zorro, tendo em vista que esse herói utilizava-se via de regra de um lenço preto em sua face para escondê-la. Então entendo que os autores da letra quiseram fazer uma analogia do Luz Vermelha com o Zorro.

“Espertos rondam o homem
Um tipo comum
Tesouro dos jornais
Sem limite algum”

Realmente esse era um fato de sua história. Muitas pessoas queriam se aproveitar do dinheiro de seus crimes. Era tido como uma pessoa que seus crimes davam muito “IBOPE” e assim intensificavam manchetes de jornais e notícias de rádios mencionando os crimes praticados pelo mesmo. Crimes sem limite algum, isso é muito bem demonstrado no filme que leva seu nome.

“Luz Vermelha foi perdido no cais
Do terror
Um inocente na cela de gás
Sem depor”

Nessa parte da letra da música nos causou muita estranheza, pois João Acácio não teria sido morto em cela de gás, até porque conheço e acompanhei bem a sua biografia, acompanhei e acompanho a biografia de vários “moradores” do Anexo de Taubaté. Nisso fui verificar que parte dessa letra está na verdade se referindo a Caryl Chessman o outro Luz Vermelha e não ao “Luz Vermelha Brasileiro”.

Dou por encerrado a primeira parte da análise da letra dessa música e espero que eu tenha conseguido despertar nos leitores e acadêmicos o gosto por escreverem artigos dessa natureza. Fica aqui a minha sugestão àqueles que vivem querendo sugestões de Trabalhos de Conclusão de Curso. Por que não elaborar um trabalho nessa linha em pessoal? Um grande abraço a todos.


NOTA: Na verdade o nome da música é Rubro Zorro. Faz do parte do LP (Long Play) ou conhecido também como “Vinil”, bolachão e etc. lançado no ano de 1988, com o nome de Psicoacústica, música de autoria de Edgard Scandurra, André Jung, Ricardo Gaspar e Nasi. Esse LP entrou na lista dos 100 maiores discos da música brasileira pela Rolling Stone Brasil (81º lugar).

_Colunistas-Diorgeres

Autor
Agente Penitenciário. Penitenciarista. Pesquisador
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