• 24 de setembro de 2020

A Máfia e a deslegitimação do sistema vigente

 A Máfia e a deslegitimação do sistema vigente

A Máfia e a deslegitimação do sistema vigente

A trilogia[1] de Mario Puzo, que levou aos cinemas a inteligência e visão de Francis Ford Coppola, acendeu um fascínio ao tratar os assuntos da Máfia italiana de forma tão pitoresca e inusitada.

Até então os escritos sobre temas similares eram reservados apenas em histórias policiais reais e dramas envolvendo a maneira latina de ser; efusiva e apaixonada para com seus assuntos; ou sua “própria cosa nostra”.

A obra de Puzo completou-se em 2000 quando, postumamente, fora lançado Omertá, que não apenas tem o significado de um código de ética entre as famílias, que mesmo sendo inimigas deveriam preservar, mas também, intenciona ditar algumas normas que devem ser seguidas pelo homem de famiglia.

Nesse universo, bem vivo ainda hoje em algumas regiões do mundo, a obra demonstra a morte e vida de empreendedores que encontraram à sua maneira, uma forma de obter ganho fácil.

Seja extorquindo ou contrabandeando produtos considerados ilegais, cada qual a sua época, toda a essência controlada pelos chefes que adquirem e mantêm o poder possui a mesma propriedade: o medo.

A vingança ou “a busca de uma justiça” é realizada da forma mais brutal possível, mas ainda assim, legalizada entre os Dons e perante as famílias. Dessa forma, a retaliação contra membro de clãs inimigos sugere uma guerra entre os grupos, não envolvendo de forma alguma a justiça habitual dos civilizados.

Todavia, tanto livros quanto filmes possuem uma mágica que prende leitor e expectador, passando a ideia de busca de uma proteção que não pode ser encontrada nas instituições americanas legais, tratadas sempre com ironia pelos latinos nas obras.

A impressão clara é de que não há justiça senão aquela tradicional que somente a máfia poderia prover. Enquanto o sistema jurídico legitimo tratava os novos cidadãos ou seus descendentes com frieza, a máfia os acolhia em troca de sua aceitação e discrição.

Todos os assuntos que envolvessem ítalo americanos não deveriam ser tratados fora dos domínios dos Dons, que prezavam cada qual por seu território.

Dessa forma, qualquer palavra dita contra os chefões em tribunal por um de seus protegidos e em oposição às ações que consideravam legais em busca de seu direito, era uma afronta a lei da Omertá.

Mas essa mágica que livros e filmes contêm e que trazem tamanha violência mostra algo interessante. Define que as instituições não possuem mais o poder uno na concepção do cidadão, esse não mais acredita na força dessas instituições e muito menos ainda em integridade.

O sistema de justiça legalizado, zombado por Puzo, também é escarnecido pelas pessoas mundo afora. Seja por sua demora, pelo seu colapso diante ao corruptivo sistema político, pela sua flacidez e fragilidade perante às altas cifras que desencaminham seus atos; ou até mesmo, pela falta de fé do cidadão no real propósito do sistema de justiça.

Nesse ponto, Mario Puzo inicia sua última obra da trilogia intitulada Omertá: “Você não pode mandar seis bilionários para a prisão. Não numa democracia.”

Essa visão cínica das instituições, presente em todas as obras, tanto em filmes da máfia, realça o sentido de caça aos menores pelo poder judiciário, deixando os bandidos dos milhões fora de sua malha.

Nesse sentido, Alessandro Baratta afirma ser o recrudescimento contra a corrupção, criminalizando e penalizando as condutas da classe política dominante, um passo para se utilizar do direito penal somente naquilo que precise dele de fato.

Todavia, a magia e encanto das máfias revelam ainda mais: a máfia funcionando como distribuidora da justiça, numa visão romantizada da honra mafiosa que deve ser lavada com sangue, também os seus seguidores e protegidos receberão dessa mesma dádiva se necessitarem.

Entretanto, transparece que a figura do justiceiro particular resiste, buscando justiça pelas próprias mãos: e é isso que chama atenção aos contos mafiosos; cada pessoa gostaria, de alguma forma, de não precisar passar pelos tribunais e pelas conversas com advogados, grandes audiências ou investigações, para que possa obter justiça. Para isso, é ao Padrinho que se deve buscar.

Demonstram, de toda forma, que o direito, a justiça legal e as instituições legalizadas sofrem há muito tempo um tremendo descredito pela mesma população que deveria servir. Esse povo não mais acredita em seus mármores, em suas gravatas e becas e em suas promessas, da mesma forma que não crê mais em seu julgamento.

A decepção com o sistema e a falta de crença em seu propósito leva a um perigoso caminho: a trilha da deslegitimação, que conduz, por sua vez, aos julgamentos prévios, à vingança e à justiça com as próprias.


NOTAS

[1] A trilogia de Mario Puzo referente às famiglias: O Poderoso Chefão (1969); O último Chefão (1996); Omertá (2000).


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Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.