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Maju e o racismo nas redes sociais: até quando?

Por Yuri Felix

“As bôcas passaram a abrir-se sozinhas; as vozes amarelas e negras falavam ainda do nosso humanismo, mas para censurar a nossa desumanidade. Escutávamos sem desagrado essas corteses manifestações de amargura. De início houve um espanto orgulhoso: Quê! Êles falam por êles mesmos! Vejam só o que fizemos dêles!”[1]

Nesta semana, em pleno século XXI no país da “democracia e alegria”, fomos brindados com um show de preconceito e horror. A vítima da vez foi a jornalista do tempo, funcionária da Rede Globo de Televisão, Maria Júlia Coutinho – MaJu – na medida em que sofreu estarrecedoras ofensas por conta, unicamente e em primeiro momento, da cor de sua pele. Isso me faz lembrar algumas coisas.

Não tenho como não recordar todas as vezes que vi o ex-jogador e grande homem de marketing da habilidade e ginga brasileira “Rei Pelé” falar em alto e bom som que o Brasil não é um país preconceituoso e que o brasileiro é alegre, hospitaleiro e feliz. Mas será isso mesmo?? Será que somos tão amáveis e vivemos em um país de igualdade e democracia? Por óbvio que não!

Recordo-me das estatísticas onde é possível observar, segundo o IPEA, que 70% das vítimas de assassinato no Brasil são negros[2], ou seja, um jovem negro, mesmo tendo escolaridade similar e sendo da mesma classe social de um jovem branco – e esta é para aqueles que gostam de deslegitimar a questão racial dizendo que se trata apenas de uma desigualdade social – carregam uma maior vulnerabilidade com relação aos brancos. Assim, segundo o próprio Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicada, a possibilidade de um “adolescente negro ser assassinado é 3,7 vezes maior em comparação com os brancos”. Estamos diante do extermínio da jovem população negra e este é o país do mito da democracia racial.

Isso sem falar no fato de que quantos Presidentes negros tivemos em nosso país? Nilo Peçanha… faz tempo. E o gravíssimo fato da taxa de analfabetismo ser o dobro entre a população negra o que significa? Pior, a renda de um trabalhador negro é 40% menor que a de um branco que exerce a mesma atividade[3], a mulher negra então nem se fala, ocupa o local mais desprivilegiado dos dados estatísticos do nosso país, esta é a alegria do povo brasileiro? Imaginem a tristeza.

O fato é que o negro na história do nosso país foi identificado como “coisa”, como um instrumento de trabalho ou como objeto de prazer, forjado para o deleite dos detentores do monopólio do poder. Assim, serve exclusivamente para futebol, samba, serviços gerais e sexo, enfim, nada que de acordo com uma visão bem pequena e preconceituosa exija muita reflexão e conhecimento, afinal é de espantar qualquer reacionário enrustido o fato de que “Êles falam por êles mesmos!”. Esta é a construção histórica da exclusão e da indiferença[4], muitas vezes de forma bem engendrada, alegre, irreverente e sutil, mas bem estereotipada.

Mas voltando a MaJu e a Rede Globo de Televisão, não posso me esquecer da “obra literária” – com muitas aspas – de Ali Kamel, diretor de jornalismo da Globo, denominada “Não Somos Racistas – Uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor” e me pergunto, mas e agora Kamel? Convida a MaJu para escrever o prefácio da próxima edição do seu livro. O que acha da ideia?

Ainda, se prestarmos a mínima atenção nas novelas e seriados produzidos e televisionados pela grande mídia, observaremos que considerável parcela de seus atores negros, historicamente, interpretavam e ainda interpretam papeis bem característicos, tais como,  empregadas, serviçais, motoristas, os que como bem disse Nilo Batista integrantes da classe dos “Punidos e Mal Pagos”[5].

Enfim, como destacou Paulo Henrique Amorim, o fato é que se o Brasil não fosse um país racista “Roberto Marinho não passaria pó de arroz para embranquecer a pele morena, conforme conta Pedro Bial na biografia que escreveu sobre o dono da Globo”[6].

__________

[1] (Prefácio de Jean-Paul Sartre In.: FANON, Frantz. Os Condenados da Terra. Trad. José Laurênio de Melo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968).

[2] Disponível aqui. Acesso em: 4 jul 2015.

[3] Disponível aqui. Acesso em: 4 jul 2015.

[4] Ver: CUNHA, Olívia Maria Gomes da. Intenção e gesto: pessoa, cor e a produção cotidiana da (in)diferença no Rio de Janeiro, 1927-1942. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2002.

[5] BATISTA, Nilo. Punidos e mal pagos: violência, justiça, segurança pública e direitos humanos no Brasil de hoje. Rio de Janeiro: Revan, 1990.

[6] Disponível aqui. Acesso em: 4 jul 2015.

_Colunistas-YuriFelix

Imagem do post: Divulgação/Globo/Zé Paulo Cardeal

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