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Manhunt: Unabomber e a Linguística Forense

Manhunt: Unabomber e a Linguística Forense

James Fitzgerald foi um agente do FBI e Criminal Profiler, um dos pioneiros a aplicar Linguística Forense nos Estados Unidos e personagem fundamental da série Manhunt: Unabomber, sendo um dos agentes responsáveis pela prisão Ted Kaczynski, indivíduo que foi condenado por plantar 16 bombas nos Estados Unidos e que ficou impune por 17 anos, se tornando um dos criminosos mais conhecidos e notórios de sua época.

É início de abril de 1996. Estou em frente à cabana do Unabomber em Lincoln, Montana. Estou prestes a entrar. Sou um agente do FBI de quase nove anos e um criador de perfis criminais novo em folha. Esta é minha primeira tarefa oficial de criação de perfil. Um bom começo para um policial experiente, mas novato como profiler. Ou seja, sendo parte integrante da força-tarefa de agentes federais que finalmente identificou e prendeu esse serial bomber/serial killer que já faz isso há 17 anos. (tradução livre)


Leia também:

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É assim que James Fitzgerald inicia a sua descrição em seu site. Um de seus casos mais notórios foi o primeiro em que trabalhou e utilizou a Linguística Forense, área do conhecimento que analisa a linguagem escrita e falada por meio de métodos científicos como meio para auxiliar em investigações.

Por meio de um manifesto escrito pelo Unabomber, Fitzgerald conseguiu transformar as palavras dele em pistas para revelar quem o serial bomber era. Essas palavras possibilitaram a compreensão, entre outras coisas, do nível de escolaridade, os pontos de vista e trejeitos linguísticos que Ted Kaczynski tinha e que foram identificados graças à sua carreira acadêmica e o irmão dele que conhecia o trabalho de Kaczynski e suas ideologias nada convencionais.

Assim como no caso do Unabomber, o uso da linguagem para fins investigativos também pode ser usado para analisar ligações telefônicas, gravações de interrogatório, cartas de suicídio e até cartas anônimas de ameaça, por exemplo. Por meio dessas evidências é possível observar, entre outras coisas, contradições, maneirismos e até as emoções relacionadas ao que está sendo dito ou escrito, inclusive nos casos em que exista ligação prévia a alguém para algo que foi escrito e dito e é preciso verificar se foi ela ou outra pessoa que o fez.

Para entender melhor como isso funciona é preciso compreender que cada indivíduo possui diferenças na linguagem, pois, dependendo de quem estamos direcionando a fala ou a escrita, modificamos a linguagem de formal para informal e usamos palavras diferentes para cada tipo de pessoa que estamos nos direcionando, como na hora de mandar um currículo a um empregador, ou para dizer algo para a mãe.

Cada situação demandará um comprimento, um tom de voz, a quantidade de palavras, o tipo de despedida, tudo que envolva a linguagem e não percebemos normalmente.

Todos temos formas individuais de nos direcionar aos outros e isso nos identifica em diversas áreas de nossa vida. Um policial possui uma linguagem própria e os adolescentes utilizam gírias específicas, por exemplo.

Temos também o regionalismo brasileiro que modifica expressões e até usa palavras diferentes com um mesmo significado, sem contar o característico “r” que muda dependendo da região e até dentro de um mesmo estado. Tudo isso influencia na identificação de um indivíduo.

A linguagem escrita e falada é muito mais complexa do que se imagina. É preciso levar em consideração muito mais do que somente o que está claro naquilo que estamos analisando, por isso é de grande ajuda ter esse tipo de evidência em uma investigação e alguém qualificado para trabalhar nela e tirar informações cruciais.

Com isso, a Linguística Forense possibilita a análise e compreensão de diversas formas de expressão linguística que estejam relacionadas a um crime, podendo ser uma peça que ajude em algum ponto da investigação, como também pode ser fundamental, inclusive para identificar o autor de um crime, ponto em que agrega aos conhecimentos do Criminal Profiling.

Para o profiler, a Linguística Forense é uma excelente ferramenta, pois pode servir de complemento na identificação de um indivíduo, ou indivíduos, seja direta ou indiretamente, e por isso, é de extrema relevância entender como essa ciência forense funciona e o que pode ser aprendido com ela de forma a aumentar o campo de estudo e as chances de sucesso na elaboração de um perfil criminal.

Quanto mais ferramentas forem utilizadas, mais preciso será o resultado.


REFERÊNCIAS

URQUHART-WHITE, ALAINA. How Accurate Is Fitz In ‘Manhunt: Unabomber’? Here’s What The Real James Fitzgerald Thinks Of His Fictionalized Self. Disponível aqui.

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Verônyca Veras

Especialista em Criminal Profiling. Advogada.

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