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Manicômios, prisões e conventos (parte 1, de 3)

Manicômios, prisões e conventos (parte 1, de 3)

Entre 1954 e 1957, o sociólogo Erving Goffman realizou pesquisa de campo no Laboratório de Estudos Sócio-Ambientais do Instituto Nacional de Saúde em Bethesda, Maryland, incluindo aí as enfermarias nos Institutos Nacionais do Centro Clínico de Saúde e no Hospital St. Elizabeths, Washington, D.C. Seu objetivo:

… tentar conhecer o mundo social do internado em hospital.

Sua premissa:

… acreditava, e continuo a acreditar, que qualquer grupo de pessoas – prisioneiros, primitivos, pilotos ou pacientes – desenvolve uma vida própria que se torna significativa, razoável, e normal, desde que você se aproxime dela… (p. 8).

E uma das primeiras e mais relevantes definições aparece antes mesmo da introdução do primeiro capítulo, quase como um pressuposto. É a de instituição total:

… um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrada. (p. 11).

A exemplo: prisões, hospitais para doentes mentais, escolas internas, conventos e mosteiros.

As características primeiramente aparentes das instituições totais são as suas barreiras, ou seja, a sistemática de “fechamento” à sociedade, seja por qual motivo for. O simbolismo do “fechamento” é peculiar e deveras necessário, e nele é incluído todo um esquema físico como portas cerradas, paredes e muros altos, arames farpados, fossos, florestas etc.

O autor, ainda preliminarmente, destaca cinco “agrupamentos” de instituições totais – mais como um ponto de partida da pesquisa, e não para uma “classificação” completa e definitiva. São eles:

  1. para pessoas incapazes e inofensivas (casas para deficientes, idosos, órfãos, indigentes);
  2. para pessoas incapazes de cuidar de si mesmas e que são uma ameaça [não-intencional] à comunidade (sanatórios para tuberculosos, leprosários, hospitais psiquiátricos);
  3. para perigosos intencionais (cadeias, penitenciárias, campos de guerra, campos de concentração);
  4. para tarefas de trabalho (quartéis, navios, escolas internas, campos de trabalho, colônias, grandes mansões – [para empregados residentes]);
  5. para refúgio do mundo (abadias, mosteiros, conventos).

Seja onde for, a partir desse primeiro “agrupamento”, o ponto nevrálgico é que todos os aspectos de uma vida comum e social (ou sociável) são realizados no mesmo local e sob um único comando (o diretor, o abade, o comandante). Ademais, cada fase da atividade diária é realizada em comum com um grupo de outras pessoas inseridas nas mesmas condições. Ainda, todas as atividades cotidianas são estabelecidas “pelo alto”, em horários e padrões hierárquica e temporalmente definidos. Finalmente, as atividades são reunidas num ordenamento planejado para atender aos objetivos da instituição (e não exatamente do interno).

A instituição total é, assim,

um híbrido social, parcialmente comunidade residencial, parcialmente organização formal; (…) são as estufas para mudar pessoas; cada uma é um experimento natural sobre o que se pode fazer ao eu. (p. 22)

É isso que conduz o autor a investigar os efeitos da psiqué tanto do interno quanto dos dirigentes das instituições totais.

Imagino que essa pesquisa, ainda que de meados do século XX, possa servir de contributo crítico ao sistema carcerário atual, que persiste em sua lógica pré-moderna e punitiva, e que urge ser ultrapassada.

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André Peixoto de Souza

Doutor em Direito. Professor. Advogado.

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