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Manicômios, prisões e conventos (parte 3, de 3)

Manicômios, prisões e conventos (parte 3, de 3)

O mundo da equipe dirigente

“ALEGRE, PRÁTICO! AGASALHO RAPIDAMENTE AJUSTÁVEL AO CORPO. Vestido de uma só peça, planejado e experimentado em instituições para pacientes retardados ou doentes mentais. Inibe os impulsos de exibicionismo, resiste aos esforços para rasgá-lo. Veste-se pela cabeça. Não exige peças íntimas. O colchete de pressão ajuda a criar hábitos de higiene. Padrões agradáveis ou com dois tons lisos, decote em V ou fechado no pescoço. Não precisa passar.”

Esse é um anúncio de roupa oferecida a instituições totais de caráter psiquiátrico, daquelas voltadas especialmente a doentes mentais, cuja estrutura (da roupa, e mesmo do anúncio) pode ser determinada pela sua eficiência, em detrimento de qualquer conotação psicológica da subjetividade (“acentuação do eu”).


Leia também:

  • Manicômios, prisões e conventos (parte 1, de 3) – clique aqui
  • Manicômios, prisões e conventos (parte 2, de 3) – clique aqui

A equipe dirigente das instituições totais se depara a todo instante com uma administração contraditória: entre o que devem fazer e o que realmente fazem. E esse limite se volta o tempo todo à administração das regras da instituição – com suas diretrizes de punição e premiação – e do cotidiano real de uma “carreira” de cada internado – “desde [sua] admissão até seu túmulo”.

Perpassa a essa administração, igualmente, toda a sistemática burocrática da instituição, desde os aspectos internos até as relações governamentais a ela implicadas (por exemplo, com o sistema de justiça criminal e execuções penais, no caso das prisões).

Ainda é cabível observar algum “padrão humanitário” das instituições totais, uma espécie de senso de “responsabilidade” da instituição. O autor (Goffman) cita criterioso e infame exemplo: o dos “campos de concentração da Alemanha, onde os internados às vezes recebiam cuidados médicos, embora logo depois fossem enviados para a câmara de gás.”

Então, quando se atrela a obrigação da equipe dirigente à manutenção de padrões humanos ou humanitários e a efetiva subjetividade dos internos – ou seja, a percepção de que realmente são seres humanos –, cria-se uma razoabilidade ou responsabilidade aos internados (“criaturas responsáveis”), a quem se destinam regras que merecem obediência ou cumprimento. Sendo assim, qualquer transgressão (o autor dá exemplos: pacientes que bebem água suja, que batem a cabeça na parede, que arrancam pontos cirúrgicos, que jogam dentaduras nas privadas etc.) é passível de sanção (às vezes corporal, física mesmo), o que decorre para uma imagem de autoridade desmedida àquele “humanismo” logo antes percebido.

Isso requer, da equipe dirigente, um exacerbado controle emocional. Pois necessitam enfrentar “a hostilidade e as exigências dos internados”, e, na medida do possível, oferecer uma “perspectiva racional” do ocorrido, sob a ótica da instituição, seja qual for o seu objetivo – e de acordo com ele: perspectiva econômica; perspectiva religiosa; educação ou instrução; tratamento médico ou psiquiátrico; proteção da comunidade (as prisões, p. ex.) etc.

A obediência, pois, se torna elemento de preciosa ligação entre internos e dirigentes, em qualquer modalidade de instituição total. Veja-se intrigante depoimento de uma freira, enclausurada em convento:

Eis outra maravilha do fato de viver obedientemente. Se você obedecer, ninguém estará fazendo nada mais importante do que você. Uma vassoura, uma caneta e uma agulha são iguais para Deus. A obediência da mão que as controla e o amor no coração da freira que as sustenta é que fazem uma diferença eterna para Deus, para as freiras e para todo o mundo.

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André Peixoto de Souza

Doutor em Direito. Professor. Advogado.

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