• 9 de abril de 2020

Máquina de fazer vilão

 Máquina de fazer vilão

Por Jean de Menezes Severo

Mais uma coluna no ar! Que baita alegria estar próximo dos meus leitores. Mais uma vez, como é bom dividir conhecimento, trocar novas experiências profissionais, compartilhar com os amigos sonhos e angústias. Confesso que fico todo “bobo” quando recebo mensagens de leitores satisfeitos com a coluna. É sinal que toda a luta e, principalmente, as terríveis dificuldades que passei na vida valeram a pena. Eu só tenho agradecimentos a fazer a todos vocês, amigos leitores. Não adianta: agora viciei em escrever e o culpado são vocês!

Sempre me perguntei na vida e, na condição de advogado criminalista: o que leva um ser humano a cometer um delito? O que faz com que alguém se torne um criminoso e tenha sua liberdade privada por muitos anos? Acredito que tais questionamentos sejam aquelas típicas perguntas retóricas, quase impossíveis de serem respondidas, tendo em vista os mais diversos motivos que levam uma pessoa a se tornar um criminoso ou uma criminosa.

Entretanto, nestes mais de 12 anos de advocacia criminal, percebi que existe uma fórmula quase que infalível para fazer de alguém um “bandido”. Não sou um acadêmico da Criminologia, mas sim um aluno da vida e vivi o bastante para chegar às mesmas conclusões dos teóricos, já que que devemos acabar com essa falácia de pensar que o sistema penal é um anjo; que apenas pune os maus e deixa os bons de lado; apenas os vilões são alvo da máquina punitiva e “quem não deve, não teme”.

Logo nos primeiros estudos de Criminologia, o aluno irá se deparar com a teoria do etiquetamento, ou labeling approach. Em rápidas linhas, ela termina com aquela história de faz-de-conta que as condutas típicas são universais; na verdade, o Estado escolhe a dedo quem quer transformar em criminoso ou, em outras palavras, quem quer etiquetar de bandido. Quantos já viram alguém que não seja “puta, pobre ou preto” na cadeia? Os famosos 3P’s. E não é por menos. Muitas dessas pessoas são o resultado de uma fórmula que nem mesmo o “master of crime” de Breaking Bad seria capaz de compreender. Vamos aos elementos ou ingredientes:

Famílias destruídas; finais de semanas trágicos

É meu amigo… É fácil julgar aquele que, quando deveria ganhar um beijo ou um abraço em seu aniversário, recebeu um tapa em contrapartida. Como é fácil julgar aquele que não ganhou nada; que conhece apenas a indiferença de pais relapsos, despreparados e que não tinham condições de gerir a própria vida.

De como é humilhante ir pra escola com a roupa dada de esmola

Sociedade de consumo; o que aparece na televisão você quer: compre mais, compre mais! Supere seu adversário! Não deve ser nada fácil olhar para a mesa ao lado e ver o coleguinha de sala de aula com a roupa lavada e cheirosa. Não estou nem ao menos mencionando roupas novas; estou falando de carinho da mãe que cuida do filho com amor; estou falando em estrutura familiar; estou falando de marcas profundas que nascem na infância e que jamais são apagadas e, pior, são realçadas na vida adulta.

De ter um pai inútil, digno de dó. Mais um bêbado, filha da p*** e só:

Um pai. Como é importante ter um pai presente, um pai zeloso, protetor, que está ao lado do filho quando ele mais precisa. E o filho precisa do pai sempre, mas na infância é ESSENCIAL. Como eu admiro as mães que são pai e mãe, ou os avós que, por muitas vezes, substituem o pai, no entanto, esta figura é insubstituível e uma tristeza se abre no coração daquele pequenino transformando-se mais tarde em revolta.

Essa p**** é um campo minado; quantas vezes que eu pensei em me jogar daqui

O Estado… Vou falar uma coisa pra vocês: o Estado é muito bom quando na figura do Promotor de Justiça acusa sem pena e sem dó. Contudo, o Estado não cumpre com absolutamente nada do que se propõe a fazer. Como está a escola pública onde moras? A saúde? Segurança? Quais são as oportunidades que o Estado cria para os menos favorecidos? NENHUMA. O Estado só serve para arrecadar impostos e favorecer políticos que só pensam em multiplicar seus ganhos, para deixar suas futuras gerações mais abastadas ainda.

Eu fico pensando quantos atletas nosso país perde por não termos uma política social-esportiva adequada, quantos cientistas,  quantos “linha de frente” perdemos por má gestão, talentos que se perdem diariamente em nosso país e na maioria das vezes são adotados pelo tráfico que lota nosso sistema carcerário com mais de 60% dos presos. Criançada sem futuro. Eu já consigo ver: só vão para a escola para comer e nada mais. Essa molecada sem oportunidades espelha-se em quem está mais perto. E quem está perto não é o Estado. Pode ter certeza disso!

Quero deixar bem claro que não estou tentando justificar a criminalidade com tudo o que foi aqui escrito. Até agora, eu sei que muitas pessoas passam por estas mesmas dificuldades e vencem na vida sem cometer nenhum ilícito penal, o que é louvável. Mas apenas quero informar aos senhores que em mais de 90% dos casos em que atuei, vislumbrei a falta da família dando suporte ao indivíduo, bem como a ausência do Estado em criar oportunidades, principalmente para os mais humildes, para que esses não vivam à margem da sociedade, sem oportunidades vivendo os sonhos dos outros.

Falta de pai, mãe, família, escola, oportunidades, carinho, respeito, educação etc, são a fórmula perfeita, ou melhor, misture bem esta química e pronto: fiz um novo detento! Não vamos tapar o sol com a peneira.

Infelizmente, na grande maioria das vezes, o criminoso é feito dentro de casa…

JeanSevero

Jean Severo

Mestre em Ciências Criminais. Professor de Direito. Advogado.