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Marinésio, o serial killer do DF

Marinésio

Marinésio, o serial killer do DF

Foi em uma segunda-feira, final de agosto de 2019, que Marinésio dos Santos Olinto, com 41 anos, esposa e uma filha, foi finalmente descoberto por seus crimes. Foi necessária a morte da advogada Letícia Curado para um serial killer em Brasília ser preso.

Letícia havia desaparecido na sexta-feira anterior. Houve uma enorme mobilização nas redes sociais de diversos advogados para encontrá-la e até a OAB/DF se envolveu no caso, mobilizando a polícia para procurá-la. Foi quando que, na segunda-feira, acharam os pertences de Letícia no carro de Marinésio. Ainda havia esperança para muitos, mas, além do tempo passado, encontrarem os pertences em posse de alguém era um triste indicativo de que ela não seria mais encontrada com vida.

Como se não bastasse, além de confessar ter estrangulado Letícia, o assassino também confessou ter matado Genir Pereira poucos meses antes. A partir daí deu início à desconfiança de que a polícia do DF estava lidando com um serial killer. Após vítimas que sobreviveram conseguirem identificá-lo, a delegada resolveu analisar todas as denúncias parecidas para descobrir quantas outras vítimas ele havia feito.

Duas semanas depois temos conhecimento de, pelo menos, 19 vítimas, 17 vivas e duas mortas. Mas outros casos estão sendo reabertos, como o da morte da amiga da filha do assassino. Esses casos voltam até 2013. Ainda não sabemos quando ele começou a agir e quando começou a matar, mas esse é o momento crucial para conseguir essas informações com ele e com as evidências. O que se pode aferir é que, pelas informações divulgadas, se trata sim de um serial killer que começou como estuprador em série, podendo analisar algumas características importantes:

Modus operandi

De acordo com a confissão de Marinésio e do relato das vítimas, ele abordava mulheres em pontos de ônibus oferecendo carona como se fosse uma lotação pirata. No caminho ele as assediava e tentava estuprá-las. Em alguns casos ele conseguiu, em outros elas fugiram ou ele as matou. Existia um padrão de comportamento no momento da caça e da captura. E também foi possível perceber o aprimoramento do comportamento com o passar do tempo.

Vítimas aleatórias

Ele as escolhia de forma aleatória de acordo com a oportunidade. Normalmente ele estava passando de carro por um local, avistada a mulher e decidia retornar para oferecer carona.

Duas ou mais vítimas

Sabemos que ele matou pelo menos duas mulheres de uma forma semelhante, desde o momento da abordagem até o final, e as duas foram estranguladas. Isso demonstra sérios indícios de que ele é um serial killer, até porque fez diversas outras vítimas, mesmo que felizmente tenham sobrevivido.

É importante ressaltar que havia um espaço de tempo entre as vítimas, mas não existem ainda informações suficientes. Em um caso, aparentemente ele agiu no dia seguinte, então não tem como falar sobre isso detalhadamente e entender como funcionava o intervalo de tempo pra ele. Além disso, não sabemos qual era a motivação principal, o estupro ou o assassinato. Para compreender melhor, indico a leitura sobre o serial killer e suas características principais nesse texto.

Ademais, é bom lembrar que essa é uma análise bem superficial dos fatos, de acordo com as informações liberadas pela mídia. Achei importante falar sobre isso, não só pelas vítimas que, com certeza, foram muitas, mas pela importância do método de Criminal Profiling para perceber certos tipos de comportamento para desvendar casos e evitar mais vítimas. Muitas outras análises podem ser feitas se o profiler participar da investigação policial. É de suma importância o aproveitamento desse profissional, principalmente, nesse tipo de situação envolvendo crimes seriais.

Infelizmente, nesse caso, muitas mulheres sofreram antes do assassino ser pego. Não existe um incentivo nessa área, pois as autoridades acham que são casos muito raros, quando na verdade, vemos que ao menos os casos de estupradores em série estão cada vez mais recorrentes e o Distrito Federal sofre muito disso.

De acordo com um estudo feito pelo Mapa da Violência de Gênero da Gênero e Número, em parceria com a ALTEC em 2017, o DF possui o maior número de estupros de mulheres negras do país. São mais de mil mulheres negras sendo atacadas por ano a cada 100 mil. E esses são os dados daquelas de denunciaram. A média do país é de 247 registros a cada 100 mil para as negras e 175 para as não negras. Sem dúvidas, são números alarmantes.

Outro dado importante é que normalmente estupradores não agem somente uma vez. Ou existem vítimas recorrentes, como em casos de familiares, ou várias vítimas aleatórias, em casos de estupradores em série. Não é um ato isolado e precisa ser analisado no momento da denúncia.

Casos assim criam repercussão, muitos questionamentos e nos mostram a importância das pesquisas e dos trabalhos de investigação. Esses tipos de criminosos precisam ser parados o quanto antes, e cada vez mais analisados para que seja possível evitar e diminuir casos futuros.


REFERÊNCIAS

Gênero e Número. Mapa da violência de gênero. Disponível aqui.

Metrópoles. Quem é o serial killer do DF que confessou ter matado Letícia e Genir. Disponível aqui.

Correio Braziliense. Polícia levanta mais provas que podem atribuir Marinésio a novos crimes. Disponível aqui.

SANTORO, Clarice. Serial killers, um breve histórico. Disponível aqui.

FERNANDES, Bianca da Silva. Quem são os serial killers? Disponível aqui.


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Autor

Especialista em Criminal Profiling. Advogada.
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