• 24 de setembro de 2020

O matar e morrer do ato homicida: caso Dennis Nilsen

 O matar e morrer do ato homicida: caso Dennis Nilsen

O matar e morrer do ato homicida: caso Dennis Nilsen

Existem muitos mistérios em relação a morte, principalmente quando se trata de um ou vários homícios cometidos por um sujeito. Questionamentos surgem em torno de como é o funcionamento psíquico de um seria killer.

Freud chegou a dizer que certos crimes são na realidade um suicídio disfarçado. Não obstante, isso não deixa de implicar uma outra pessoa no ato, desta forma há um registro particularizado do trabalho inconsciente que o sujeito faz para lidar ou tratar a morte (enquanto esta é concretizada).

Na psicanálise, a agressividade não tem o mesmo sentido que a destruição, ela está a serviço das defesas do sujeito. A agressividade é própria da relação imaginária especular. Para uma maior esclarecimento, esta pode ser representada  pela figura mítica de Narciso.

O mito de Narciso é história de um homem muito bonito, que após uma caçada, sentiu bastante calor e sede, e no percurso, ele se depara com uma fonte, cuja água parecia de prata, nenhum animal a tinha experimentado, nem tinha folhas ou galhos caídos.

Narciso debruçou-se para tomar água e viu sua própria imagem refletida no espelho d´água e pensou que fosse um belo espírito que ali morava. Apaixonou-se por si mesmo. E assim, Narciso ao tentar beijar a própria imagem, cai na fonte e morre afogado. Aí se encontra o paradigma da agressividade mortífera, morre-se por causa desse amor.

Portanto, a destrutividade é representada, segundo Freud, como a própria expressão da pulsão de morte, e é ilustrada quando Narciso atravessa sua imagem, como se fosse direcionado a um outro. Essa destrutividade se inscreve nas expressões de ódio, desde a rejeição do outro até sua destruição.

Essas formulações parecem um tanto estranhas, pois pode dar a entender que o assassino é a própria vítima, já que representa um suicídio camuflado, é importante frisar que essa teoria circunscreve apenas a posição do sujeito enquanto uma passagem ao ato, e não se deve esquecer a existência de uma vítima real.

Nada como um exemplo real, para um melhor entendimento.

Dennis Andrew Nilsen, nasceu na Escócia em 1945 e se encontra vivo até os dias de hoje. Seus pais foram ausentes. Nilsen juntou-se ao exército em 1961, e permaneceu com o uniforme por onze anos. Após sua saída do exército, foi morar em Londres e virou policial, passando por vários empregos do governo.

Nilsen não esteve sozinho todo o tempo de sua vida, teve um companheiro durante 10 anos, 1967 e início de 1977. Embora, eles aparentemente nunca tivessem feito sexo, sua companhia que era bem mais nova, forneceu a Nilsen amizade e alguém para conversar, compartilhando a rotina diária de cozinhar e assim por diante.

Nilsen ficou frustrado com a partida de seu companheiro em 1977, e as pressões de uma vida solitária foram uma bomba prestes a detonar.

Nilsen matou pelo menos 15 homens e garotos homossexuais sem teto, entre 1978 e 1983 em Londres, ou seja, pouco tempo após a saída do companheiro de sua vida. Suas vítimas eram atraídas para sua casa e todas foram assassinadas por estrangulamento, às vezes acompanhadas de afogamento.

Após o assassinato, Nilsen praticava um ritual em que ele dava banho e vestia os corpos das vítimas, que ele retinha por longos períodos de tempo. Antes de desmembrar e descartar os restos mortais pela privada, os queimava ou os lavava. Dennis também cozinhava e comia partes das vítimas.

Acabou sendo capturado quando o corpo de uma de suas vítimas bloqueou a passagem dos canos de esgoto e chamou a atenção da polícia. Dennis foi sentenciado a prisão perpetua.

Nilsen não matou com motivação sexual. Em vez disso, seus crimes parecem ser o produto da pura solidão, junto com uma fascinação mórbida pela morte, mantendo os restos mortais consigo por meses, Nilsen estava “matando por companhia” (parecido com a relação do serial killer Jeffrey Dahmer com suas vítimas).

Nilsen ao confessar seus crimes, descreve claramente o que pensava dos seus assassinatos, em uma mistura de desejos da morte do outro e da sua própria, como se cada ato homicida fosse um “tratamento” da morte:

Eu fiz tudo por mim. Puramente egoísta. Eu adorava a arte e o ato da morte, repetidamente. É simples assim. Depois disso, tudo era confusão sexual, simbolismo, honrando a “queda”. Eu estava me honrando. Eu odiava a decadência e a dissecação. Não houve prazer sádico no assassinato. Eu os matei como gostaria de ser morto, aproveitando ao extremo o ato de morte em si. Se eu fizesse isso para mim, eu só poderia experimentar uma vez. Se eu fizesse isso para os outros, eu poderia experimentar o ato da morte repetidas vezes. – Dennis Nilsen (Newton, 2006)

A complexidade relacionada a morte é extensa, o matar e o morrer muitas vezes podem se confundir. Por meio do caso de Dennis Nilsen, com seus atos homicidas, pode-se analisar as tentativas do serial killer de se livrar do seu “mal interior”, e investindo sua pulsão de morte no outro, fazendo desse outro uma vítima onde se realizava seus desejos suicidas.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BULFINCH, T. O Livro de Ouro da Mitologia: História de Deuses e Heróis. Rio de Janeiro: Ed. Ediouro, 2006.

NEWTON, M. The Encyclopedia of Serial Killer. Second Edition. Ed. Checkmark Books, 2006.

TENDLAZ, S.E.; GARCIA, C.D. A quem o Assassino Mata? O Serial Killer à Luz da Criminologia e da Psicanálise. São Paulo: Ed. Atheneu, 2013.

Clarice Santoro

Especialista em Psicanálise, Saúde Mental e Criminal Profiling. Psicóloga.