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O medo em forma de Tubarão Branco

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O medo em forma de Tubarão Branco

É de Slavoj Zizek a comparação dos medos presentes na sociedade norte-americana do final dos anos 70 e início de uma nova revolução de sentidos, com o filme Tubarão (1975), de Steven Spielberg.

E o interessante nessa analogia é acompanhar, factualmente, como os medos se apossaram de uma estrutura social a partir de suas mais distintas constituições: o apetite econômico e o poderio militar.

Findadas as grandes guerras, a partir de uma civilidade que tenta encontrar espaços em meio aos escombros vorazes que perpetuam o imaginário europeu de consagração e vitória frente a um inimigo temido, o retorno a uma normalidade de rotina e circunstâncias seria lento e doloroso.

Como a vitória passou a ser saboreada com maior veemência na América, até motivada pelas perdas econômicas terem sido pequenas, por situar-se em continente distante, e, pela vitória massacrante que comprou a maioria dos medos de todos, ao demonstrar poder em forma de cogumelo, os EUA triunfaram.

Só que com toda a pompa, também surgem circunstâncias.

A divulgação de seu sucesso a partir de uma violenta arma fez com que espectros passassem a rondar corações soviéticos, japoneses, chineses, entre outros. Assim, esses “outros” criaram suas próprias armas para lutar contra um possível inimigo, bem maior e mais preparado.

Mas dentro de suas próprias bordas, o inimigo norte americano se reagrupava, como um exército combalido que busca agora por reconhecimento daqueles horrores que em guerra teve de experienciar.

A marcha tecnológica, as corridas em benefício da propaganda mais produtiva, demonstrações de poder, a mitigação da verdade. Ainda corria o medo de um até outrora aliado, mas que se tratado levianamente pode se tornar um pesadelo constante: a economia cobrou seus juros, como em um retorno do tormento de 1929, começando a quebrar o mármore das grandes empresas bancárias.

O medo das inúmeras incorporações que migravam de países europeus para a América, que se consolidava como país acolhedor de grandes empresas estrangeiras, mas que na verdade, precisava de seu suporte para continuar sua guerra particular contra um mundo de medo, escondido atrás de cortinas de fumaça, era constante.

O pavor da perda de empregos, antes tidos como seguros, para os novos ares e novas empresas que chegavam em terra yankee, era uma realidade.

O medo de uma nova guerra aos moldes de um panorama nuclear nunca antes visto, era iminente.

O medo e o pavor de um Estado que desenvolvia sua noção mais pura de neoliberalismo perante aos massacrados retornados de guerras passadas, já era um prenúncio do que viria a ser o País mais rico do mundo.

Todos esses medos, Zizek diz que Spielberg colocou na figura do grande tubarão branco.

Um inimigo que poderia ser visto, tocado e o que é melhor: poderia ser morto.

Um inimigo ao invés de inúmeros tantos. Apenas um grande tubarão branco era o que desolava os corações assustados norte-americanos, não mais estrangeiros, bombas, desemprego ou o fantasma de 1929.

O inimigo de Spielberg até que não era tão feio e nem tão voraz. Nesse tipo de inimigo, se pode confiar, segundo Zizek, pois ele reúne todas as tendências que afligiriam uma nação inteira, mas ainda assim, pode ser medido e devastado.

Da mesma forma que Tubarão, a ideologia alemã criou o seu inimigo em sua época de crise.

Quando tudo está indo errado, o bode expiatório surge como o grande salvador da pátria, por isso então; deve ser esfolado e demonstrado a todos que tubarão branco e judeus não são tão poderosos quanto a ideologia escrita a partir de um lugar privilegiado, entre árvores, vinhos, pratos caros e claro, muita pipoca.


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Autor
Mestre em Direito. Professor. Advogado.
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