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A Missão: doutrina para a servidão e morte

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A Missão: doutrina para a servidão e morte

Com direção de Rolland Joffé, o filme A Missão, de 1986, que conta com um elenco recheado de estrelas e, entre elas, Robert De Niro, Jeremy Irons e Liam Neeson, reflete o ímpeto do sistema que se erguia acima de todos numa época de consolidação de determinados padrões.

Arquétipos estes que se definem pela descoberta das riquezas fincadas em terras recém conquistadas, e pela brutalidade o homem europeu conduziu seu cavalo de guerra contra os donos da terra. Donos esses que nem possuíam a aspereza do desejo de posse, vivendo em um sistema comunal e livre de qualquer dependência de exultações patrimoniais.

Os Sete Povos das Missões, doutrinados pelos padres jesuítas, que em meados da colonização e da ocupação passaram a se estabelecer como catequizadores das ideias europeias estruturais do século XVIII, e preponderantemente do conceito da religião católica, são retratados com maestria.

Em 1700, as Missões não apenas traziam um povo apaziguado e pronto para o contato com seu espoliador, como também servil aos apupos de um deus desconhecido, que se mostra a partir dos jesuítas.

Casas e igrejas foram edificadas para uma população que não entendia seus conceitos, vestidos com roupas que o homem branco trouxe do além-mares, para aqueles que delas não precisavam. Toda forma de violência evidenciou-se por uma questão de remarcação e reinvenção do território e do espirito livre do homem.

Sua cultura, sua história e seus deuses experienciaram o lento e incontestável extermínio de toda sua representação no desenvolvimento natural dos índios, que não mais retratavam suas raízes, mas sim, aquilo que as Missões os haviam transformado.

Se por um lado era a partir das Missões Jesuíticas que as tribos sobreviviam frente ao domínio do conquistador, que necessitava de sua mão de obra escrava para arrancar de suas próprias terras riquezas em prol da Coroa, seja ela Portuguesa ou Espanhola, por outro lado, os doutrinavam para a servidão e para a própria morte.

E essa pregação aniquilava sua forma de vida, a formação de seus filhos e a cultura própria, ensinando-lhes, pela catequização a obediência aos ditames de um deus que se revestia em enormes basílicas europeias, pelas ideias dos mais fortes e mais cobiçosos.

E foi assim que o tratado de Madrid, em 1750, pôs fim às Missões em nome das riquezas que deveriam ser exploradas e em necessidade da mão de obra daquele bicho índio que era protegido pelo Jesuíta.

O acordo que dava aos portugueses direito de posse dos territórios das Missões, também pregava que os indígenas deveriam ser realocados, substituindo o Tratado das Tordesilhas, que já ficava ultrapassado.

Ao fincar os pés e dizer não ao reposicionamento, o índio torna-se não apenas o inimigo a ser aniquilado, mas um embaraçante fardo para a Coroa.

Tanto as tribos que as Missões abrigavam, quanto seus jesuítas que abandonaram os mandamentos da igreja que os obrigavam a retornar às abadias, ficando junto dos aborígenes, morreram pelas armas e canhões do europeu.

O Tratado, que obrigava mais de 30 mil índios Guaranis abandonarem as reduções e partirem das terras do Rio Grande do Sul direto para território castelhano, em pradarias uruguaias, criou também suas lendas que despertaram para a batalha em prol da dignidade de seu povo.

O índio Sepé Tiaraju foi o caso mais famoso da insurreição contra os ditames de Deuses e Reis, comandando sua própria resistência em uma carta endereçada à Coroa onde dizia que “esta terra tem dono, e não são vocês visitantes. ”

A Missão

Sepé idealizou uma campanha contra as tropas bem treinadas de Portugal utilizando das técnicas de guerrilha, evitando o confronto aberto, na chamada Guerra Guaranítica que durou de 1753 a 1756, retratada no filme A Missão.

Erico Verissimo trata em sua grandiosa obra O Tempo e o Vento, volume primeiro do Continente, da aventura deste que é um icônico personagem da vida real contra a tirania e o desprezo por um povo, trazendo a carta que apaixonadamente o índio Sepé havia desenvolvido, que soou como uma provocação de guerra.

Assassinado em uma emboscada em 1756, sua morte pôs em risco toda a resistência indígena, massacrada por completo, como demonstrado na película de Rolland Joffé.

De toda forma, a invasão europeia em terras latino americanas somente veio a demonstrar os padrões que se consolidavam no ambiente civilizado europeu; se perfazendo pela busca do lucro e da minimização dos valores do homem, que considera barganhar a vida por um par de terras ou por um punhado de prata.

Autor

Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.
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