• 15 de dezembro de 2019

Monstros: uma análise social antropológica de sua posição na Arte e no Direito

 Monstros: uma análise social antropológica de sua posição na Arte e no Direito

Monstros: uma análise social antropológica de sua posição na Arte e no Direito

É profícuo o campo de estudos das metamorfoses e reviravoltas do pensamento enquanto confirmador das experiências vividas, num determinado tempo.

Tome-se, como exemplo, os monstros dentro da ficção científica, da literatura e cinema, quando estes seres abomináveis significam a evolução não só da consciência de uma época, mas também, das manifestações mais essenciais da vida em sociedade.

E por consequência do medo aterrorizante que esses seres especiais causam, ainda que de forma ficcional, a aspereza de seu rudimentar e simbólico aspecto causa aversão a tudo o que representam.

Em 1862 o monstro era o indigente, descrito nas páginas dos Miseráveis de Victor Hugo, que deveria ser massacrado em prol da ordem vigente; aquele que não deveria ser tolerado; e que vinha representado na imagem de um ex-condenado pela justiça, vagando em busca de uma absolvição que nunca viria.

Monstros

Entretanto, essa foi uma mudança de paradigma, quando os monstros passaram a ser palpáveis, a vagar entre nós e a sentar-se nas mesmas fileiras e andar pelas mesmas calçadas.

Mas foi com Mary Shelley, em 1823, que essa mudança ocorre de fato. 

Antes do Prometeu Moderno, ou Frankenstein, as criaturas assombrosas tinham uma outra conotação. Elas nasciam no interior da luta entre o bem e o mal, seduzidas pelas luzes da civilização, forçadas a deixar seu lugar de segurança e a vagar na terra dos homens. John Milton (1608/1674) trouxe esse inferno anômalo em seu Paraíso Perdido de 1667, ao expulsar o monstro de seu cume para a terra dos mortais. 

Assim, Dante Alighieri (1265/1321) já havia descrito sobre as mazelas do profano e do mal que vive encarcerado em seu inferno particular, trazido à terra dos homens por Milton. Dessa forma, o tinhoso monstruoso anda entre nós desde então. 

E é por esse caminho que se trilha o medo dos homens, e pode-se demonstrar o quão esse pavor imaginário toma suas conexões com o mundo real, em determinadas épocas. 

Aos tempos “dantescos e miltonianos” o mal se caracterizava pelo demônio. Era esse o ser que deveria ser expulso, ou melhor, devorado. Era o pior estereótipo de nossos medos, a idiossincrasia da natureza maléfica.

Essa ruindade triunfava com o crescimento da igreja católica no mundo, desde as colonizações/invasões do novo mundo que era concretizado pelo velho continente. O mostrengo tinha então que ser catequizado, não trazido à terra dos justos, mas sim, doutrinado. Por via das dúvidas, a extirpação era o antidoto. Atacava-se não apenas o anjo caído em si, mas sua cultura, para que nunca mais consiga (tente ao menos) ressurgir.  

Os medos e pavores, receios e tabus, todos na figura do morador da terra conquistada, que precisava ser educado aos moldes da civilização dominante.

Kramer e Sprenger fizeram, em nome da santidade, a formação do monstro, muito bem.

Com seu Malleus Malleficarum foram exitosos, de todas as formas, em demonstrar como uma instituição bem fincada aos moldes da cultura e crença de um povo consegue exteriorizar a pior face do monstro que deve ser extirpado do convívio. Ao mesmo tempo em que eram aceitos pelo poder e controle de sua época, engendraram no povo o medo do monstruoso, caçado e queimado em nome dos bons.

Com o passar dos tempos, esse velho conhecido foi mudando de figura.

Seu rosto ficaria conhecido, não mais por um demônio de capa que suga sangue alheio, como quis Bram Stoker em seu bem elaborado Drácula. O mal não era mais apenas sobrenatural, advindo de peraltas demônios possuidores de almas ou de feitiços que somente poderiam ser desfeitos com bala de prata. A ruindade passa a ser mais palpável.

E foi a partir de Mary Shelley que a ficção cientifica entra nesse debate. Com seus 19 anos, foi a primeira a escrever de forma técnica, como se cria o monstro. A partir daí a crítica passa a ser reconhecida não pelo sobrenatural, mas pelo que o homem pode fazer por suas próprias mãos e vontades.

E se esse homem “está destinado (ou fadado) a ser livre”, é por sua única vontade que as situações ocorrem.

Tome-se por exemplo, o clássico Godzilla.

O monstro japonês que apareceu em primeira mão em 1954, tem muita coisa para contar. De início, um devastador ser ameaçador da cultura japonesa, surgido unicamente para a destruição. Todavia, a adaptação de Godzilla (gorila/baleia, numa tradução livre) demonstra a cultura japonesa combatendo e enfrentando o seu medo.

Despertado por uma bomba com energia radioativa lançada por treinamento nos mares orientais pelos Estados Unidos, Godzilla, surge como aquele que deveria proteger os japoneses da invasão atômica norte americana. Após a guerra, com o país subserviente aos americanos, essa foi a maneira de demonstrar que o inimigo ocidental estava próximo, e deveria ser expulso.

Hiroshima e Nagasaki seriam culturalmente vingadas, por um ser produzido pela energia atômica, ódio e ressentimentos engendrados pelos seus próprios criadores. O medo então, morava distante e cultuava bombas em seus aviões da morte.

Com o fim das guerras, mas continuação da guerra fria, esse monstro passou a ser modificado pelas experiências cientificas.

Moldados pela engenharia genética, pela radioatividade e pela irresponsabilidade, o tinhoso agora nascia em tubos de ensaio nos grandes laboratórios. Tome por exemplo, o filme americano Alligator de 1980. O crocodilo gigante que aterrorizou os medos não advinha de experimentos de laboratórios, mas sim, por seu lixo genético despejado nos arredores de onde vivia o crocodilo. 

Após Chernobyl, o mundo tornou-se um recipiente de pólvora prestes a explodir. Os monstros então viriam como resposta às ameaças da guerra fria, que movimentava armas bélicas com poder radioativo, pelos experimentos atestados na cidade ucraniana. A Mosca, de 1986, é inicialmente essa crítica; o que o homem consegue criar e fazer quando não há responsabilidade cientifica, mas apenas uma corrida por sucesso e ganhos econômicos. 

A Mosca e seu monstro (Jeff Goldblum) são esse pavor e retoma o medo de todos: no que a guerra atômica pode nos transformar? Pode o homem mexer com o desconhecido, e como Victor criar impiedosa e inadvertidamente Frankenstein? 

Com o “esfriamento da guerra fria”, outros seres passaram a ocupar o imaginário de forma mais sofisticada. É certo que Alien de 1979 já servia como uma mudança ou o chamamento para outra forma de imaginar e ver o monstro. Mas seria mais do mesmo. Bem como, Tropas Estrelares de 1998, de Paul Verhoeven.

O interessante nessas duas obras é a fidelidade com os acontecimentos históricos na vida palpável e real. O Terceiro Reich e seu domínio podem ser destacados no filme de Verhoeven (e livro de Robert Heinlein), quando a propaganda para adentrar os planetas dos insetos e dizimá-los, passa a colocar o exército como forma de vida aceita, bem como, o melhor governante entre todos, por sua força e aspiração.

A divulgação do domínio, em Alien, também requer o conceito de dominação inóspita, por uma raça considerada superior. Da mesma forma, Sinais (2002) de Nigh Shyamalan; que demonstra essa raça considerada superior e toda a sua certeza e necessidade de predomínio e subjugação. Assim na história, se deu a dominação dos povos indígenas do novo continente, em uma colonização/extermínio.

Agora, os alienígenas seriam os invasores do habitual, do correto e justo. Esses deveriam ser dizimados. E é com Independence Day (1996) que a imaginação aflora numa união de todos contra a invasão, arquitetada pelos injustos. As duas grandes guerras vividas tiveram exatamente esse enredo em seu início, bem como, em seu final.

Os monstros hodiernos mudaram mais uma vez de figura. Agora o medo é outro. Após o ataque às Torres Gêmeas, em 2001, não apenas o diferente era o temor, mas também, o estranho. E o estranho e o diferente podem ser qualquer um, onde todos podem ser o temido terrorista. Isso é o que demonstra A soma de todos os medos (2002) e o Preço da Coragem (2007). 

O monstro não mais usa tridente, capuz ou máscara, mas está em todos os lugares. Tanto que Cidade de Deus (2002), Tropa de Elite (2007) e Cidade dos Homens (2002) configuram esse medo no monstro mais estarrecedor que existe em nosso solo: o traficante. 

E o pavor desse modelo de tinhoso atual atravessa as telonas e os livros logrando os objetivos de qualquer monstro; assustar. E atemoriza de tamanha razão que o usuário, o doente ou o viciado pela droga vendida pelo grande monstro passa a ser reconhecido como a própria deformidade, aquele que deve ser destruído, trucidado.

E esse ser assustador, na vida real, quando interpretado pelos seus protagonistas, é caçado com tanta força que determinados direitos que até o belzebu teria em nosso sistema, são desprezados e passam a ser determinantes ao auferir a sua não humanidade. São monstros, coisas, objetos muitas vezes, e como Kramler e Sprengler afirmavam em sua inquisição, devem ser queimados para purificação, não sendo possuidores de quaisquer direitos. 

O receio e pavor de que o direito entenda a caça aos monstros que aparecem, vez ou outra com sua mesquinhes (hoje, os políticos corruptos), como um empreendimento moral dos bons e justos, uma cruzada contra o mal e o medo hodierno, esquecendo dessa forma de seus mandamentos e princípios mais abrangentes, como a imparcialidade.


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Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.