• 6 de junho de 2020

Moral por hábito e a psicopatia do lucro

 Moral por hábito e a psicopatia do lucro

Moral por hábito e a psicopatia do lucro

Com o intuito de defender seus interesses e/ou embasar suas próprias convicções, muitos se utilizarão de todo e qualquer argumento rasteiro, mais ou menos coerente, apresentado e travestido como intelectual, na tentativa desesperada de criar um ar de legitimidade para as mais absurdas falácias que estão sendo propagadas.

A exemplo, um dos argumentos que vimos recentemente em defesa da economia girava em torno do fato de que a sociedade não poderia simplesmente tomar como base a opinião de epidemiologistas, sob risco de cairmos numa teocracia. De fato, a afirmativa pode parecer plausível em um primeiro relance, porém possui por trás toda uma carga enviesada, qual seja, colocar a economia e o granjeio em um patamar superior ao da vida humana. E isto não podemos aceitar.

“Não privatizaram o suficiente!” “Vá trabalhar!” “Seja seu próprio chefe!” “Basta se esforçar para conseguir. Quem falha é porque não se esforçou o bastante.” Estamos fartos de escutar estes bordões que romantizam a pobreza e o trabalho precário, colocando a culpa de todos os problemas sociais no indivíduo que não alcança a prosperidade financeira, sendo que o maior responsável pela desigualdade gritante e em constante crescimento é o próprio Estado, aliado com a classe dominante.

A valer, se as opiniões de especialistas no assunto não devem ser levadas em consideração, qual seria então a alternativa? Continuam acreditando que os sedizentes economistas possuam todas as respostas, impulsionando ainda mais a proposta neoliberal que está implodindo e falhando miseravelmente em todos os lugares do planeta e causando inúmeras consequências nefastas. São estes os efeitos da necropolítica que não dá valor à vida nem à liberdade – o que interessa é apenas o lucro e o enriquecimento constante dos grupos privilegiados.

Sempre fomos militantes em favor da luta contra o poder repressivo do Estado, porém o isolamento social mediante quarentena é até então a única forma eficaz de combate ao COVID-19. Se todos nós tomássemos uma postura mais proativa e solidária, fazendo a parte que incumbe a cada um e observando as formas encontradas para a contenção da pandemia de maneira voluntária, muitas vidas seriam salvas.

Trazemos à baila o conceito de moral por hábito, onde o indivíduo pratica boas ações não por obrigação e/ou medo de sanções, mas de forma espontânea, porque sequer cogita agir de maneira diferente. Fazer o bem naturalmente, sem intenções secundárias. Obviamente devem haver condições favoráveis para que as pessoas cheguem a este nível de solidariedade, mas não obstante, nesta época de crise mundial que estamos vivenciando, é necessário que se busque agir desta forma.

A movimentação de determinados grupos que orientam as pessoas a irem às ruas protestar contra o fim do isolamento – e não obedecê-lo – é populismo por excelência. Vende-se a ideia de que ficar em casa sem fazer nada é um ato de covardia, quando na realidade a covardia maior é justamente incentivar a população incauta e fomentar a propagação do vírus. Nesta loucura frenética pela locupletação a todo custo, a vida do outro não vale nada.

O único meio para amenizar esta situação crítica é a criação de uma mentalidade mais altruísta na sociedade:

É por um pacto do mesmo gênero que deverá começar a revolução social. Um pacto pela vida em comum, não pela morte; de união e não de extermínio mútuo. Um pacto de solidariedade, para considerar toda a herança do passado como posse comum, um pacto para partilhar segundo os princípios da equidade tudo o que pode servir para atravessar a crise: víveres e munições, habitações e forças acumuladas, ferramentas e máquinas, saber e poder; um pacto de solidariedade para o consumo dos produtos bem como para o uso dos meios de produção.

O Estado avoca para si o jus puniendi e o poder de coação, mas ao mesmo tempo também assume a responsabilidade pelo bem-estar da população, conforme determina nossa Carta Constitucional. O povo, mais do que nunca, deve ficar atento à falta de caráter dos governantes.

Aprendamos nós com o exemplo da Itália: o prefeito de Milão admitiu ter errado em sua campanha de não parar as atividades. ”Em 27 de fevereiro, a Itália contabilizava 650 casos do novo coronavírus. Agora são quase 60 mil. Na época, o primeiro-ministro Giuseppe Conte também chegou a dizer que a vida devia “continuar””.

Nosso governo está agindo de maneira leviana e brincando com a saúde do povo, agindo em prol dos interesses daqueles que detém o poder econômico. Desobedecer as orientações genocidas que vão na contramão de toda a razão devem ser ignorados. FIQUE EM CASA!


REFERÊNCIAS

KROPOTKIN, Piotr. O princípio anarquista e outros ensaios. Organização e tradução de Plínio Augusto Coêlho. São Paulo: Hedra, 2007.

PREFEITO admite erro ao apoiar campanha ‘Milão não para’. Portal TERRA. São Paulo/SP: 23.mar.2020. Disponível aqui.


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Murillo Heinrich Centeno