ArtigosCiências Psi

O mundo por trás das parafilias

 O mundo por trás das parafilias

O comportamento humano, em todas as suas áreas, sempre foi objeto de estudo por diversas áreas; da psicologia ao direito. Contudo, o desenvolvimento da vida sexual do individuo se torna a área mais intrigante, no que se refere a análise comportamental, tendo em vista que o ato sexual é uma das formas mais primitivas de expressão do ser humano.

A busca do indivíduo pela satisfação pessoal e sexual são constantes. Dessa maneira, no que se refere à satisfação sexual, o individuo busca, por muitas vezes, meios que o ajude a expressar a sua sexualidade da forma mais primitiva, com o intuito de atender às suas pulsões.

Entretanto, essa primitividade direcionada ao seu comportamento sexual, por muitas vezes, afasta-se do considerado “normal” pela sociedade sendo até classificadas como um comportamento imoral. Essa valoração atribuída pela sociedade faz com que os praticantes dessas determinadas práticas se sintam desconfortáveis, acarretando em muitos casos frustração, sofrimento e angústia.

Nesse sentido, quando estão presentes sentimentos negativos relacionados à determinada prática sexual, estamos diante (ou muito próximos) de uma patologia. As parafilias e transtornos parafílicos possuem significados distintos.

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM – V) a parafilia caracteriza-se por ser todo e qualquer interesse sexual intenso que não aquele voltado para a prática sexual propriamente dita.

O indivíduo consegue obtenção de prazer somente a partir de determinado objeto, situação ou lugar. Entretanto, nesses casos, de acordo com a intensidade do seu comportamento, podem não chegar a caracterizar um transtorno, beirando à normalidade.

Já no caso de um transtorno parafílico a parafilia apresentada causa grande sofrimento ou prejuízo ao indivíduo, podendo causar dano ou risco a ele ou a outrem. Nesse sentido, pode ser dito, em razão disso, que todo transtorno parafílico caracteriza uma parafilia, entretanto, nem toda parafilia caracteriza um transtorno parafílico. (DSM – V, 2015)

Dessa maneira, no campo das pulsões da sexualidade, o indivíduo que apresenta determinado transtorno sexual, por muitas vezes recae na esfera criminal, pois normalmente outras pessoas são constrangidas pela prática de seu ato. Os transtornos da sexualidade são estudados a partir da Sexologia Forense, que integra campo da Medicina Legal.

Oito parafilias (transtornos parafílicos)

Em razão das características nocivas e o dano potencial, causados pelo comportamento sexual dessas pessoas, o DSM elenca oito tipos de transtornos parafílicos consideráveis, que são classificados quase sempre como delitos criminais, sendo eles:

  • Transtorno voyeurista: ato de espionar outras pessoas em suas atividades privadas, sem o seu consentimento. Consiste na obtenção de prazer sexual a partir da visão de pessoas se despindo, nuas ou praticando relações sexuais com terceiros;
  • Transtorno frotteurista: tocar ou esfregar os genitais em outro indivíduo sem a sua aprovação. Geralmente os praticantes desses atos escolhem lugares com grande movimentação e fluxo de pessoas, justamente para facilitar a fuga;
  • Transtorno exibicionista:  trata-se de um desejo de expor os genitais ou partes do corpo para pessoas em público. Nesse caso, o que estimula a excitação do exibicionista é a reação da vítima à exposição, que será atendida se for uma reação negativa;
  • Transtorno do sadismo sexual: o sádico caracteriza-se por submeter outra pessoa a situação de humilhação, submissão ou sofrimento. Os maus tratos, as injúrias e os castigos são as únicas fontes de prazer para esse indivíduo;
  • Transtorno do masoquismo sexual: diferente do sadismo, no masoquismo o prazer sexual somente é obtido através da dor, humilhações e castigos impelidos pelo sádico;
  • Transtorno pedofílico: talvez o transtorno sexual mais grave elencado pelo DSM. Nessa espécie de transtorno o foco sexual está na prática da atividade com a criança, em geral menor de 13 anos;
  • Transtorno fetichista: neste caso o excitamento sexual é provocado por partes do corpo, como pé, mão, cabelos ou de objetos utilizados, como roupa íntima, sapatos, etc. É considerado normal a atração do indivíduo para determinadas partes do corpo ou objetos do parceiro, entretanto, quando passam a ser o foco e única fonte de excitação, adentra-se ao campo patológico (PALOMBA, 2003);
  • Transtorno necrofílico: a excitação e o prazer sexual é obtido nesse caso através atos sexuais realizados com um cadáver.

O atentado violento ao pudor, bem como o estupro também são considerados práticas de um transtorno parafílico (PALOMBA, 2003), pois o prazer sexual apenas é obtido através da repulsa da vítima.

Existem ainda um vasto número de parafilias, que, em regra, não colidem com a esfera criminal, tais como a zoofilia, prática sexual realizada com animais; edipismo, atração sexual específica pela mãe; eletrismo, atração sexual específica pelo pai; gerontofilia, atração sexual por idosos em idade avançada; acrotomofilia: excitação sexual apenas por pessoas que possuem partes do corpo amputadas entre outros.

Dessa maneira, a busca imediata da satisfação dos desejos faz com que algumas parafilias passem a constituir grande risco para o indivíduo e para sociedade, pois, a necessidade e a busca constante de realização sexual em uma fase maníaca da parafilia ou quando se apresenta como transtorno parafílico, poderá ser um gatilho, para que o sujeito passe agir de modo impulsivo, até mesmo irracionalmente frente à realização dos impulsos.

Entretanto, torna-se difícil atribuir ou não a existência de um transtorno parafílico ao indivíduo que apresenta um determinado comportamento sexual, haja vista que é algo extremamente particular do mesmo. Percebe-se o transtorno, como já foi dito, através do incômodo que o comportamento causa ao próprio sujeito, que por muitas vezes é desencadeado em decorrência dos valores morais imputados pela sociedade, igreja e etc…

Contudo, muito além das discussões travadas entre normalidade ou patologia, a problemática maior está relacionada às outras pessoas que são atingidas pelo comportamento sexual desses indivíduos, que, por muitas vezes, dependendo do grau do transtorno e à associação desse a outros transtornos mentais, resultam em crimes devastadores.


REFERÊNCIAS

DSM V – Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais. Artmed: 2015.

PALOMBA, Guido. Tratado de Psiquiatria Forense. Saraiva: São Paulo, 2003.

ASSINE NOSSA NEWSLETTER

Bianca da Silva Fernandes

Advogada.

ARTIGOS RELACIONADOS

Fechar