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Música e Guerra: Woodstock, Vietnã e rebeldia

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Música e Guerra: Woodstock, Vietnã e rebeldia  

Mais uma vez as formações de agrupamentos por afinidade e que se distinguem de uma parte da sociedade considerada estabelecida ou o grupo maior, dominante em suas tradições e prevalecente em carregar as suas opiniões aos outros é o objeto de estudo nesse pequeno texto, onde música e guerra caminham em passos contrários quando a rebeldia nem sempre possui em seu amago um interesse de desordem. 

Para tanto, ousamos utilizar dos estudos de Howard Becker e Eric Hobsbawn com intuito de demonstrar que as excentricidades com as quais se rotula determinados personagens também são utilizadas de maneira inversa pelos rotulados em primeira mão e que há possibilidades de união, mesmo entre os rotulados. 

Como ilustrado em estudo anterior, as formações da música norte-americana reconhecida como folk, jazz e blues, tiveram em berço uma grande colaboração das dores da segregação, da escravidão e da ilegalidade.  

Por esse viés entende-se o profissionalismo que alguns músicos consideram em sua arte, não a enredando a locais considerados apócrifos ao ritual da boa música, que eles consideram como sua arte não apenas pelo dom de poder toca-las, mas também pelas estruturas históricas que os balizam desde o princípio deste tipo de arte. 

Os músicos de jazz e de blues se reconhecem em mutuo respeito que dura apenas até que um colega passe a entornar em seus shows músicas não consideradas pelo arquétipo do estilo reconhecido como espirito de vida que deve ser respeitado, que é o do jazz e do blues. 

Por esse prisma, todos aqueles que consideram tocar os pedidos espúrios da plateia devem ser deixados de lado do grupo, expurgados por um bem maior. 

Da mesma forma com a qual são rejeitados pelo público quando reconhecidos como artistas de jazz nas ruas da cidade e assim, rotulados pejorativamente pela caraterística que suas vidas particulares tomam distinguindo-se da maioria, esses, por sua vez, também rotulam e negam os estabelecidos.  

Encontram no termo “quadrados” a maneira de identificar aqueles que não são músicos de jazz e que não possuem o dom da música. Os “quadrados” são aqueles que ficam na plateia achando que entendem algo de música e solicitando aos músicos que toquem aquilo que eles querem ouvir.  

Do mesmo jeito que não entendem música, não devem ter o direito de pedir nada aos músicos profissionais e era esse o pensamento dos grupos de jazz que os unia contra os apócrifos da considerada boa música. 

Essa distinção tinha outros intuitos ou planos, mesmo que não fossem todos reconhecidos por seus atores e personagens, mas que se inseriam muito mais profundamente do que poderiam imaginar. 

Enquanto agiam em uma etiquetação de duas frentes, haviam algumas situações na época em que bandas de blues, jazz rock n´roll se consolidavam no cenário mundial e que se uniriam para demonstrar as vozes dos “quadrados” e de todos aqueles que os rotulavam: a guerra e a destruição das famílias norte americanas foi uma delas.  

E foi nas décadas de 60 e 70 que o conflito do Vietnã tomava uma solidificada maneira de ação e reação: enquanto famílias eram dizimadas tendo seus jovens mortos em um conflito que ao certo não entendiam os seus reais motivos, a crescente taxa do uso de narcóticos e a gigante evasão escolar fizeram deste período uma idade das trevas que demonstra seus reflexos até os dias de hoje.  

O sistema de pacificação social, realizado pelas polícias e pelas correntes patrióticas norte americanas fizeram dos cantos reconhecidamente moradias dos “anarquistas”, dos “infiéis” e dos “anti tradicionalistas americanos” um recanto para a caça e para a prisão daqueles que não compactuavam com as demandas bélicas no Oriente.  

E lá estavam os músicos de blues e jazz que nunca se fizeram parte deste mundo dos infiéis e dos “quadrados”, sendo punidos por uma polícia pacificadora que entendia suas letras de música um disparate ao real patriotismo norte americano. 

Lutando assim, de certa forma lado a lado com as tradicionais famílias dos bairros pobres das regiões que mais organizavam protestos estavam os músicos, os rappers de final de semana, os hippies da geração paz e amor, Lennon “and imagine” todos juntos das famílias que mandavam seus jovens pobres a morrer numa terra erma e distante. 

Rotulados e rotuladores pregando juntos. 

Quando se ouve uma guitarra tocando o blues ou o trompete forte do jazz naquelas regiões, a causa deveria ser questionar as motivações e as necessidades da guerra.  

Hobsbawn concretiza o pensamento dizendo que nunca antes um movimento havia se unido tanto em um país que se solidificava como potência mundial por seus aparatos bélicos, por aqueles que não queriam nada de bélico nem de guerra. 

Destarte, o festival Woodstock, realizado em 1969, reuniu inúmeras bandas e músicos, que em quatro dias protagonizaram um dos maiores atos de contrariedade ao sistema bélico norte americano, que enviava cada vez mais tropas de soldados recém-formados a uma guerra pouco explicada e que lá perdiam tudo o que tinham.  

De um lado, Jimmy Hendrix colocava fogo em sua guitarra aos berros de “parem a guerra” e, de outro lado, Creedence Clearwater Revival questionava quem iria parar a chuva. Janis Joplin, com seu super vocal, gritava aos quatro cantos a necessidade de um milagre e Joe Cocker mandava seus rifles aos seus “amigos no Vietnã”.  

Talvez, motivados pelas suas raízes de dores humanas, as músicas de blues jazz ecoavam aos quatro cantos manifestando sua contrariedade perante a luta armada.  

Inúmeros espectadores reuniram-se em prol da liberdade de expressão, da luta por ter a capacidade de dizer o quão contrário eram às atrocidades de uma guerra que surtia efeitos apenas no número crescente de mortos, pediam a liberdade de poder dizer que não concordavam e que essa posição não os tornava menos patrióticos ou menos americanos que os outros.  

Eles queriam ter voz. 

Os grupos podiam distinguir-se entre si, como uns “drogados” tocadores de música “sem ter mais o que fazer” e outros “quadrados”, “ateus da boa arte e desconhecedores da música”, mas uma coisa é certa: nada uniu mais os dessemelhantes que a injustiça da guerra. 

Autor
Mestre em Direito. Professor. Advogado.
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