• 26 de setembro de 2020

Na prisão, conheci o João

 Na prisão, conheci o João

Na prisão, conheci o João

No parlatório, apenas alguns centímetros nos distanciavam, além de um denso vidro que ali havia.

Seu olhar lacrimejava; a voz ao telefone, embargada, balbuciava algumas palavras.

Na noite anterior, meu telefone tocara, era Maria, a esposa que chorava. Ela narrava o que havia acontecido na penitenciária de segurança máxima.

Colocaram por autoria do João um celular que encontraram no chão. Ele estava na cozinha, compartilhando a alegria de poder ver sua família todos os dias.

Quando recebeu o aviso do agente penitenciário, que com sorriso no nos lábios, dizia: “a gente vai se ver todos os dias!”. Para João, aquilo foi um ultimato: todo seu progresso seria retardado. Posto que João, depois de um longo tempo na prisão, já havia escutado sobre esse tal atestado de comportamento carcerário.

Expliquei a Maria o que a lei dizia, sem omissão, sobre a progressão. De fato, existia o que o João já previa. Sua progressão só ocorreria com a emissão de uma certidão pelo diretor do estabelecimento, que comprovaria o seu bom comportamento.

Fui até João escutar sua versão sobre o notificado, depois que o mesmo fora escutado sem a presença de um advogado. Nos documentos, tudo parecia seguir o devido processo legal, havia portaria para instauração da comissão, ofício para o órgão responsável, sindicância com todos os dados, assinaturas para todo lado, mas faltava a do advogado.

João relatou que há uns dias havia denunciado todo um esquema de crime organizado. Disse que, enquanto dormia, sua consciência repetia, todos os dias, que não podia se esquivar do que ali havia presenciado.

João estava na prisão, lugar da solidão, há tantos anos, que nem a sua melhor imaginação mostraria que as más companhias o levariam àquela condição. Seus cabelos grisalhos, quase sempre assanhados, não sabiam mais a beleza de serem penteados. Sua pele cansada trazia várias marcas, não só das que a vida lhe dera, mas principalmente de quem delatava.

Expliquei a situação: “mas João, delatar na prisão?”.

Naquele mesmo dia, recorremos ao Judiciário, pedindo a nulidade do procedimento exarado. Se alguém do outro lado já conseguiu absolvição por um procedimento que viola a Constituição, peço que levante a mão. Parece-nos sempre que estamos na contramão de um Sistema que se diz ter sempre a razão.

Esse é o João, um grande homem que conheci na prisão.

Mas quem se importará com sua trajetória?

Será que um dia ele sairá por aquele portão?

Sobreviverá para contar sua história?

Ou morrerá na escuridão?

Não considerem o transcorrido como mais uma entre muitas histórias sinônimas. Não se deixem ser introjetados nessa paisagem prisional, com o intuito de torná-la natural.  Já dizia Angela Davis em sua célebre obra estarão as prisões obsoletas?: “De modo geral, as pessoas tendem a considerá-las algo natural”. (DAVIS, 1994, pag. 16).


REFERÊNCIA

DAVIS, Angela. Estarão as prisões obsoletas? 5ed. Rio de Janeiro: Difel, 2020.

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Anna Tereza Santiago