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Nannie Doss, a viúva negra


Por Bernardo de Azevedo e Souza e Henrique Saibro


“Eles me davam nos nervos” (Nannie Doss)

A PERSONALIDADE 

Nascida em 1905 em Blue Mountain, Alabama, Nannie Doss era uma das cinco crianças do casal formado por James Hazel e Nancy Hazel. Com um irmão e três irmãs, passou a infância na pobreza. A situação de miserabilidade acabou dificultando muito seus estudos e, somado ao fato de seu pai obrigá-la a trabalhar na fazenda da família em detrimento das aulas, não teve um rendimento escolar satisfatório – era considerada analfabeta.

Nannie, juntamente com sua mãe, detestava o pai James, pois era um homem autoritário e exageradamente rígido. A austeridade de James era clara: proibia as filhas de se produzir ao sair de casa (maquiagem, penteados, roupas vistosas e bailes entravam na lista de proibição). Essa rispidez era justificada, na cabeça do pai, para evitar abusos sexuais, que, na época, não eram tão raros. Entretanto, sua aspereza não impediu que Nannie fosse molestada por diversos homens durante a sua adolescência.

Embora Nannie tivesse o hobby de folhear revistas de romance, furtadas de sua mãe, imaginando a sua futura vida amorosa, teve, por pressão do pai, de se casar cedo. Aos 16 anos constituiu matrimônio com Charlie Braggs, um sujeito que conheceu em uma fábrica de linho onde ambos trabalhavam. Em quatro anos, tiveram quatro filhas. Com o casamento indo de mal a pior, o marido adquiriu o hábito de beber e fumar rotineiramente. Por vezes desaparecia durante dias de casa.

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Nannie Doss com suas filhas

Em 1927, após o nascituro de sua última filha, duas crianças do casal faleceram por suspeitas de intoxicação alimentar. Muitos acreditam (inclusive o próprio marido) que Nannie teria as matado. Diante das suspeitas, Braggs fugiu de casa e levou consigo a filha mais velha, deixando a recém-nascida em casa. Depois de um ano, voltou para casa e pediu o divórcio. Após a separação, a viúva negra voltou para a casa da mãe, na companhia das filhas. Braggs admitiu posteriormente que se divorciou porque tinha medo de Nannie. Foi a decisão mais sensata de sua vida.

AS VÍTIMAS

Com 24 anos, Nannie casou-se com o operário Robert Harrelson, um sujeito alcoólatra e com antecedentes por roubo. Mesmo assim, o casamento durou 16 anos. Enquanto isso, Melvina, a filha mais velha de Nannie, engravidou e acabou dando à luz uma menina prematura de apenas 7 meses. A sua mãe teria “auxiliado” no parto, mas o bebê não resistiu e acabou falecendo. Melvina, no pós-parto, referiu ter alucinado e visto a mãe enfiando uma agulha na cabeça de sua filha. Florine, a caçula, disse que Nannie teria simplesmente alegado que a sua neta estava morta e, curiosamente, portava uma agulha nas mãos.

Tal fato nunca ficou esclarecido para as filhas, de modo que começaram a manter distância da mãe. Certo dia, Melvina teria deixado o seu outro filho, Robert, aos cuidados de Nannie e foi visitar o seu pai. Quando voltou, misteriosamente a sua mãe lhe deu a triste notícia de que seu filho havia morrido. A autópsia concluiu que o falecimento se deu por asfixia, mas por causas não conhecidas.

Em 1945, após uma noite de boemia em comemoração ao fim da 2ª Guerra Mundial, o seu marido Robert voltou para casa e estuprou Nannie. Mal ele sabia que havia brincado com o perigo. Indignada com a violência sofrida, a viúva negra encheu uma garrafa vazia de whisky com veneno de rato. Como um roedor caindo na ratoeira, Robert tomou uma dose da “bebida”. A sua noite foi de muito sofrimento e seguida de morte.

Não satisfeita, Nannie casou-se pela terceira vez com um sujeito chamado Arlie Lanning, que, diga-se de passagem, era parecido com o seu ex-marido – alcoólatra e boêmio. Depoimentos sustentam que, neste novo matrimônio, a assassina interpretava o papel de dona de casa e de mulher “de bem”. Entretanto, logo após o casamento, o seu esposo faleceu supostamente por insuficiência cardíaca (envenenamento por arsênico). De posse do dinheiro do seguro de vida, a viúva negra, antes de partir de Carolina do Norte, ainda assassinou a mãe idosa de Lanning – utilizando, novamente, arsênico.

Após duas mortes quase simultâneas, Nannie dirigiu-se à casa de sua irmã Dovie. Ao chegar à residência, verificou que Dovie estava dormindo. Ela nunca mais acordou. Passados alguns dias, a assassina conheceu o seu quarto marido em uma boate em Emporia em Kansas: Richard Morton. Ele, ao contrário dos outros, não era alcoólatra, mas, em compensação, também era infiel. Ambos começaram a morar juntos e, quando a mãe de Morton mudou-se para a sua casa em 1953, entendeu por envenená-la. Afinal, a viúva negra gostava de privacidade. Morton lamentou muito a morte de sua querida mãe. Três meses depois era ele quem perderia a sua vida.

O quinto e último marido foi Samuel Doss, que morava em Tulsa em Oklahoma. Casaram-se em 1953. No mesmo ano, Doos foi internado no hospital com sintomas de uma provável gripe. Entretanto, os médicos identificaram uma gravíssima intoxicação em seu aparelho digestivo. Após um mês foi concedida a sua alta. Na noite de sua liberação, Nannie assassinou-o em casa. Ela queria, às pressas, retirar as apólices do seguro de vida.

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A viúva negra com seu quinto marido (Samuel Doss)

Ocorre que, dessa vez, um médico local suspeitou do motivo pelo qual Doss, que havia recentemente recebido alta hospitalar, falecera. Solicitou, então, uma autópsia em seu corpo. Para sua surpresa, foi constatada uma quantidade assustadora de arsênico em seu organismo. Os dias de liberdade da viúva negra haviam chego ao fim.

A CONFISSÃO

Após a morte do quinto marido, Nannie foi presa e interrogada pela polícia sobre o arsênico que havia sido encontrado no corpo. Ao lembrar do ocorrido, inicialmente pôs-se a rir sem parar, o que a levou a ficar também posteriormente conhecida como The Giggling Granny (A Vovó Risonha).

Nannie teve crises de riso ao ser interrogada pelos policiais

Durante o interrogatório policial, confessou ter matado Samuel Doss porque era muito pão-duro. Em seguida, contou ter assassinado Arlie e Richard, alegando que eram idiotas. As confissões não paravam por aí: também relatou ter matado seus filhos e netos. Referiu, finalmente, que tudo que queria era ser amada, encontrar o verdadeiro amor como nos livros (ao dizer isso, Nannie estava lendo uma revista de romance, a qual teve de ser retirada para que prestasse atenção na gravidade de seus crimes).

Os corpos de todas as vítimas envenenadas foram exumados. Em todos eles foram encontradas doses letais de arsênico. Embora Nannie tenha “esclarecido” as razões que a levaram a matar os maridos, nada disse sobre os filhos e netos. A viúva negra tinha matado os maridos porque eles eram chatos e idiotas, mas e as crianças? A autoridades policiais não chegaram a qualquer conclusão a respeito.

O JULGAMENTO

Em maio de 1955, Nannie Doss foi conduzida a julgamento pela morte de Samuel Doss. A sessão ocorreu em Tulsa, Oklahoma. Questionada sobre o motivo que levou a praticar os crimes, a viúva negra explicou que o comportamento criminoso decorreu de um acidente sofrido na infância.

A viúva negra acompanhada de seu advogado

O fato teria ocorrido aos 7 anos de idade, durante uma viagem de trem. Na oportunidade, Nannie teria chocado a cabeça em uma barra de metal do assento que estava à sua frente. Da batida sobrevieram blecautes e sucessivas dores de cabeça que a atormentaram durante toda a vida. Contudo, a explicação não “convenceu” e a viúva negra decidiu se declarar culpada em 17 de maio de 1955.

“Você entende que este tribunal decidirá entre uma sentença de vida ou morte?”, perguntou o magistrado Elmer Adams;

“Sim, senhor”, respondeu Nannie;

“E você quer mesmo se declarar culpada?”, o juiz prosseguiu;

“Eu quero”, ela respondeu.

Nannie Doss foi condenada à prisão perpétua pelo homicídio do quinto marido (Samuel Goss). Ela jamais foi julgada pelos outros assassinatos ocorridos no Alabama, Carolina do Norte e Kansas.

A PRISÃO

Durante todo o tempo em que ficou presa, na Penitenciária Estadual de Oklahoma, em McAlester (OK), nos Estados Unidos, Nannie foi uma prisioneira exemplar, sem jamais se envolver em quaisquer incidentes. Costumava fazer piadas com as agentes penitenciárias e rir excessivamente. Morreu de leucemia em 02 de junho de 1965, exatamente 10 anos após ter sido presa.

Nannie Doss na Penitenciária Estadual de Oklahoma

Em uma de últimas entrevistas que concedeu antes de morrer, “brincou” com a repórter dizendo que durante anos se ofereceu para auxiliar na cozinha da prisão e preparar as refeições para as demais detentas. “Mas infelizmente”, lamentou Nannie, “eles nunca me deixaram ajudar”.


REFERÊNCIAS

CARLSON, T. J. Nannie Doss: serial killers unauthorized & uncensored. Serial Killers Colection, 2014.

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_Colunistas-henriquesaibro

 

Autor

Advogado. Mestrando em Ciências Criminais. Especialista em Ciências Penais. Especialista em Compliance.
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