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Negligência alimentar e uso de caixa de gato como banheiro: a sequência de abusos em escola infantil de São Paulo

A escola particular Pequiá, localizada no bairro do Cambuci, na Zona Sul de São Paulo, foi palco de uma rotina de maus-tratos, tendo a prisão temporária dos proprietários decretada pela Justiça na última segunda-feira. Professores e pais que denunciaram os casos de maus-tratos e humilhações na instituição relataram episódios de privação de comida, constrangimento e tortura.

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Os denunciantes, conforme descrito no boletim de ocorrência obtido pelo jornal O GLOBO, testemunharam repetidamente os investigados gritando com as crianças e aplicando punições, como impedir que elas se alimentassem, trancá-las em salas escuras e até tirar suas roupas para constrangê-las no pátio. Uma das professoras relatou a uma mãe que seu filho foi colocado sentado na caixa de areia do gato, utilizado para o animal fazer suas necessidades. Há também um vídeo gravado por uma professora que mostra uma criança com menos de dois anos chorando incessantemente, enquanto uma das proprietárias da escola a segurava agressivamente pelos braços, forçando seu joelho a dobrar com força no chão, enquanto grita: “Você vai guardar os brinquedos, sim“.

Em outra imagem mostrada a uma das mães, um dos proprietários tira a lancheira de um aluno de seis anos, levando-o para uma sala chamada de “sala escura” como forma de punição. De acordo com o boletim de ocorrência, o menino informou aos pais que a escola não lhe fornecia café da manhã, deixando-o em jejum até as 11h, e que ele precisava comer rapidamente, caso contrário seu lanche seria confiscado.

A estagiária Anny Garcia Junqueira, de 18 anos,foi a primeira a denunciar o caso, alegando que o comportamento dos donos da escola Pequiá piorou após a perda de clientes. A instituição, com mais de 40 anos de tradição, atende crianças de 1 a 11 anos.

Anny, que trabalhou na escola por um ano, decidiu denunciar os abusos, gravando as agressões como prova

Anny, que trabalhou na escola por um ano, afirma que os donos sempre foram agressivos, mas antes direcionavam os maus-tratos a crianças específicas. Neste ano, porém, passaram a humilhar todas as crianças.

Ela decidiu deixar a escola no início de junho e denunciar os abusos, gravando as agressões como prova. No dia 16 do mesmo mês, Anny pediu demissão e informou alguns pais sobre a situação. Uma das fotos que ela tirou mostra um menino de sete anos amarrado a um poste. Anny relata que, depois de amarrá-lo, um dos proprietários zombou da criança.

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Fonte: Correio Braziliense

A revelação chocou os pais, que ficaram enfurecidos e muito emocionados. Eles não tinham conhecimento do que ocorria na escola, muitos deles sendo amigos dos proprietários há muito tempo. Eles estavam confiando a vida de seus filhos aos donos da instituição. Uma professora revelou que as agressões na escola eram principalmente direcionadas às crianças mais novas. A razão para isso era o medo dos proprietários de que as crianças mais velhas podiam contar aos pais sobre os incidentes.

Segundo essa professora, algumas crianças estavam passando pelo processo de desfralde e ocasionalmente faziam xixi ou cocô nas roupas, o que é algo comum nessa fase. No entanto, cada vez que isso acontecia, elas eram vítimas de tortura psicológica. A professora relatou um episódio em que duas crianças foram colocadas de castigo em pé dentro de uma bacia por horas, enquanto o proprietário gritava com elas, para que aprendessem a pedir para ir ao banheiro. Elas só podiam sair quando repetissem a frase olhando nos olhos dele, e passavam o dia inteiro sem comer.

Além disso, a professora mencionou que a equipe docente não tinha permissão para ficar sozinha com os pais. Os proprietários sempre estavam por perto durante os horários de entrada e saída dos alunos. Provavelmente, eles tinham medo de que existisse algum tipo de comunicação ou troca de números de celular com os pais. A única forma permitida de comunicação era através de anotações na agenda, mas mesmo assim, eles sempre verificavam o que estava sendo escrito.

A professora também afirmou que o proprietário fazia questão de mencionar que sabia onde as professoras moravam e quem eram seus familiares. O delegado Fabio Daré informou que outras professoras e pais procuraram a polícia após uma denúncia feita por Anny. Foram emitidos dois mandados de busca e apreensão e dois mandados de prisão temporária, com validade de 30 dias. No entanto, ambos os proprietários estão foragidos. Daré afirmou que os proprietários da escola criavam os castigos por conta própria e que estão escondidos em algum lugar, mas serão encontrados pelas autoridades.

Fonte: O GLOBO

Daniele Kopp

Daniele Kopp é formada em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) e Pós-graduada em Direito e Processo Penal pela mesma Universidade. Seu interesse e gosto pelo Direito Criminal vem desde o ingresso no curso de Direito. Por essa razão se especializou na área, através da Pós-Graduação e pesquisas na área das condenações pela Corte Interamericana de Direitos Humanos ao Sistema Carcerário Brasileiro, frente aos Direitos Humanos dos condenados. Atua como servidora na Defensoria Pública do RS.

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