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“O abutre”: e as vítimas que valem a pena

Por Maurício Sant’Anna dos Reis

Recentemente assisti “O abutre” (Nightcrawler, 2014) de Dan Gilroye e desde já o recomendo. O filme narra a ascensão de Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) no mundo do “jornalismo investigativo”, a partir de seus objetivos, seus métodos e as consequências daí advindas. Bloom é um ambicioso sobrevivente dos nossos dias: misto de bajulador (cínico e dissimulado) e idiota (simplório e obcecado) – em resumo, um abutre, um coiote – preparado pelo e para o discurso do sucesso do mundo coorporativo muito bem retratado por Gylleenhaal. A personagem traça metas e não mede esforço para atingí-las, o que fica muito claro já nas cenas iniciais quando ao oferecer a um ferro-velho sucata que ele mesmo furtou (fios de cobre, cercas de metal e tampas de bueiro) e aceita receber abaixo do valor da tabela no intuito de estabelecer um bom relacionamento com o gerente do “estabelecimento” e aí galgar um posto de trabalho – talvez uma tentativa de trabalho formal – o que lhe é negado categoricamente. Ele não se abate; é um sobrevivente, mas também (principalmente) ambicioso. Guiando seu Toyota de volta para casa (dá para comparar o carro com um uno, modelo 1996 dos nossos) Bloom presencia trabalho heroico de policiais no socorro a um acidente e a cobertura jornalística desse evento; surge sua nova ambição: ter uma grande empresa produtora de imagens para jornais.

Em seu primeiro trabalho, ainda sozinho, com equipamento amador e sem nenhuma noção de procedimento, Bloom acompanha, e filma, o atendimento a uma vítima fatal de assalto (latrocínio); na sequência leva seu material a um canal de televisão – que descobriremos no transcorrer do filme ser o de pior audiência de Los Angeles, cidade em que a trama se desenvolve – recebido pela diretora de jornalismo da madrugada, Nina Romina (Rene Russo), em um misto de espanto e admiração não só compra as imagens de Bloom (abaixo do preço de mercado de novo) como lhe dá uma sugestão: busque crimes/acidentes que tenham por vítimas pessoas brancas em bairros ricos 9afinal, ninguém dá bola para o resto), conselho entusiasticamente seguido por Bloom. Nesse ponto cenas trágicas da vida urbana são matéria prima para imagens, mercadoria da sociedade do espetáculo[1]. A imagem é aqui a transcendência da tragédia, o que fica claro em uma cena de acidente (em um bairro rico, envolvendo pessoas brancas) no qual, chegando antes do socorro, Bloom manipula a cena do acidente, movimentado o corpo da vítima para próximo dos faróis ainda acesos do carro acidentado, para uma filmagem melhor e a captura de imagens ainda mais criativas. A tragédia, ao final, importa mais que o socorro. É a tragédia a mercadoria, o socorro não é mais do que mero elemento contingente dessa narrativa. Enfim, para que haja imagens é preciso que haja corpos.

Os fatos, contudo, mera matéria prima, para que se tornem imagens – e posteriormente narrativa – devem ser depurados, (re)contados. Inicialmente se seleciona exatamente aquilo que o público do noticiário quer ver (o mesmo público dos anunciantes), ou seja, a violência contra brancos ricos, seus iguais, ou quem se deseja ser. Escolhem-se as vítimas dignas de tornarem notícia, a par dos fatos, afinal mais importante do que relatar um acontecimento é ter uma história boa (e fácil!) o suficiente para se contar logo pela manhã no trabalho – sobre os absurdos da violência urbana, como nos aprisionamos para que bandidos perambulem soltos ou sobre a vida da nova (sub)celebridade da semana. Não só isso, se o fato não é por si só interessante o suficiente ele deve ser maquiado, tergiversado para que se encaixe naquele standard que se deseja transmitir. Manipuladas, portanto, são as notícias, para que estejam de acordo com as expectativas dos consumidores; o objetivo não é informar, mas vender a informação.

A partir do momento em que as imagens são produtos, cabe comercializá-las. Para tanto Bloom se vale de um “conhecimento autodidata” do mundo dos negócios (já evidente desde o início do filme, embora, neste primeiro momento, seja totalmente inexitoso), uma espécie de manual de autoajuda do senso comum dos negócios, misturado com marketing pessoal e negociação, tudo isso pescado na rede de computadores. Sua visão objetiva do seu negócio faz com que já na segunda noite de trabalho contrate um auxiliar para criar as imagens que a televisão espera vender para os telespectadores. Na sequência, começas a adquirir mais equipamento, não trabalha mais só com uma câmera amadora, mas com duas profissionais, não utiliza mais só um rádio da polícia, mas uma série de dispositivos, não dirige mais um Toyota, mas sim um Dodge Challenger vermelho. Seu sucesso é o triunfo do individualismo; Bloom nega oportunidades para trabalhar com Joe Loder (Bill Paxton), experiente cinegrafista; faz questão de manter Rick (Riz Ahmed), seu assistente, submisso (até as últimas consequências); enfim, representa o estereótipo do homem que se faz por si, e tem grande êxito (nessa perspectiva) em seu empreendimento. Ao repetir para si e para outros os clichês corporativos, sistematicamente Bloom acaba os introjetando e confirmando suas teses, despido, contudo, de qualquer valor ético, para atingir a qualquer custo o seu planejado sucesso.

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[1] Enquanto janta com Nina, Bloom explica a dinâmica da tragédia nos telejornais matinais e como esse produto ganha destaque com relação às demais “informações”.

MauricioReis

Imagem do post – Extraída do site <http://bit.ly/1JSvbpu>

Autor

Maurício Sant'Anna dos Reis

Professor
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