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O alimento da criminalidade

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Por Paulo Vinícius Feijó


Neste mês uma sequência de crimes chamou mais uma vez a atenção da população: a disputa entre facções nas vilas cruzeiro e bairro Bom Jesus resultou em inocentes tendo suas vidas ceifadas. Infelizmente, uma notícia que se torna cada vez mais corriqueira.

Um fato que também é corriqueiro, porém velado, veio à tona na entrevista que o secretário de segurança do nosso estado concedeu para uma emissora de televisão. Questionado se ele sentiria seguro caso tivesse que ir aos locais onde ocorrem as disputas entre facções, ele prontamente disse: “Não costumo frequentar este tipo de lugar. Os lugares onde frequento não ocorre este tipo de crime. ”

A cada dia que passa ficamos preocupados com a insegurança que toma conta das pequenas e grandes cidades. O que não percebemos é que ela sempre esteve ali, encubada, tomando forma e volume, até que chegou numa proporção que despertou aos nossos olhos. E tomou uma proporção gigantesca que chegou ao núcleo, ao grande centro, lugar que as pessoas mais intocáveis podem ser tocadas.

Nunca foi novidade que os crimes mais bárbaros sempre ocorreram nas periferias. Como o nome já diz, são locais periféricos, ficam longe dos grandes centros e geralmente são frequentados somente pela população local. Não estou dizendo que moradores de periferias são bandidos ou algo do gênero, muito pelo contrário, 99% são tão vítimas quanto os moradores dos grandes centros. Ocorre que, por serem locais não frequentados por pessoas que possuem a mesma linha de pensamento do secretário de segurança, caem no esquecimento logo após o término da notícia de mais um crime cometido.

O fato é que muitas pessoas ainda vivem numa redoma de vidro. Enquanto os crimes acontecem nas periferias da cidade, sentimos pelos moradores que lá estão, porém, a vida segue. Quando percebemos que a criminalidade está incontrolável e chegou em nosso quintal, aí algo precisa ser feito, pois é inadmissível que tenhamos que conviver com essas barbáries que os moradores da periferia já sofrem há muito tempo.

A linha de pensamento do secretário de segurança não é única e exclusiva dele. Ela é compartilhada por muitos cidadãos, porém eles não têm espaço na mídia local para externa-la.

Vivenciamos um período turbulento, onde temos medo de ir até a esquina, mas isso é decorrente de um efeito dominó que parte da população não queria enxergar ou simplesmente enxergava mas apagava de suas memórias, pois como diz o ditado: cada um com seus problemas. Agora o problema evoluiu, atingiu tanto quem mora na vila quanto o morador do bairro nobre. O que vamos fazer? Continuar compartimentando o problema ou resolvê-lo de forma global, independentemente de onde mora a vítima da violência?

Sempre que temos um problema, procuramos a causa para encontrarmos a solução. Geralmente o motivo sempre está nos outros e nunca em nós. Fazemos isso naturalmente, muitas vezes sem perceber. Ocorre que, a violência, não é um problema individual. A violência que atinge João é a mesma que pode atingir Pedro, Maria, José e independentemente da localização onde residem.

Os moradores da “vila” são pessoas que sofrem com a violência a muito mais tempo que os moradores de regiões centrais da cidade. A diferença é que os problemas da periferia geralmente não são compartilhados com o restante da cidade, até porque nos outros bairros não existia violência declarada como está ocorrendo hoje. Entretanto, agora ela está instalada também nos grandes centros. Se tivéssemos dado atenção lá no início, quando nosso problema (isso, nosso problema) tivesse surgido nos locais periféricos da cidade, talvez tanto o morador da vila quanto o da zona nobre não estariam convivendo com toda esta situação caótica que estamos vivenciando atualmente.

Muitas vezes reclamamos que as leis são muito brandas, que no Brasil a legislação não é eficaz (por vezes ela realmente pode ser falha) mas e a nossa parte? Enquanto algumas pessoas continuarem individualizando os contextos e achando que a lei existe somente em benefício do indivíduo e não do coletivo, que a violência só atinge um e não outros, estaremos alimentando o caos (e o caos é um monstro faminto. Para ele, não importa se o morador é da vila ou da zona nobre, pois todos têm gosto de frango).


Paulo Vinícius Feijó – Graduando em Direito pela Uniritter

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