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O Brasil nas águas do Jordão

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O Brasil nas águas do Jordão

Por Henrique Nelson Calandra e Sergio Ricardo do Amaral Gurgel

Nos últimos dias de 2018, quando o Primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu pisou em solo brasileiro, o mundo voltou os olhos com mais atenção para o próximo governo que anunciava uma diferente postura do Brasil frente ao cenário internacional. A oposição ao Presidente Jair Bolsonaro, que havia se iniciado de forma voraz muito antes de sua posse, não poupou críticas à histórica reaproximação entre os dois países, a despeito dos benefícios esperados pela combinação de múltiplos interesses bilaterais.

Nas redes sociais não faltou quem lançasse argumentos em desfavor do aperto de mão entre os dois chefes de Estado, sob o fundamento de que a nova aliança provocaria retaliações por parte do mundo árabe, como se uma parceria comercial pudesse significar algum tipo de posicionamento em relação às desavenças existentes no Oriente Médio.

Após ter sobrevivido às tragédias genocidas da diáspora e da escravidão, o povo judeu finalmente constitui-se em Estado quase três anos após a Segunda Grande Guerra. O que parecia ser o fim de um sofrimento milenar era apenas o início de uma série de outras dificuldades atreladas ao campo político e econômico.

Além de precisar reviver tão precocemente o pesadelo do conflito armado, com o envolvimento na Guerra dos Seis Dias, o novo país teve ainda de enfrentar uma forte depressão econômica deflagrada pela crise do petróleo de 1973. Se a desvalorização da moeda israelense despertava preocupação nos anos que antecederam aos embargos promovidos pela OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), conjectura ainda pior estava por vir na década de oitenta, quando a hiperinflação alcançaria o seu ápice.

E como efeito da política monetária restritiva, na qual as elevadas taxas de juros constituem a sua espinha dorsal, a população israelense iria experimentar o dissabor da recessão que perdurou até a retomada do crescimento da economia mundial em 2003.

Como se não bastassem os problemas de ordem financeira, Israel vem enfrentando incessantes ataques terroristas desde a sua formação, não havendo aviso prévio para que qualquer ambiente se transforme em um verdadeiro campo de batalha, em razão do inconformismo de inúmeros grupos políticos contrários à partilha da Palestina.

O atentado ocorrido nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, que culminou no brutal assassinato de todos os atletas israelenses, talvez tenha sido o fato mais emblemático para o mundo, que assistia ao bárbaro massacre pela televisão. Novamente a história contemporânea era escrita com sangue judeu derramado sobre o território alemão, e justamente na cidade onde o nazismo havia sido concebido no período entreguerras.

Obviamente, a instabilidade sedimentada às margens do Rio Jordão sempre foi mais um empecilho ao desenvolvimento dos negócios e um inegável entrave para os investimentos.

Contudo, não obstante tantas adversidades presentes na região, Israel ocupa o vigésimo segundo lugar lugar no ranking dos países com os melhores índices de desenvolvimento humano do planeta, figurando entre as principais economias do mundo. O governo israelense, ao contrário de alguns dos seus vizinhos, usou a riqueza nacional para propiciar o bem-estar de sua população, que, atualmente, desfruta de um alto padrão de vida, comparável ao que se vê em parte da Europa. 

Antes visto apenas como a terra do leite e do mel, atualmente Israel se destaca em diversos setores produtivos, a exemplo do que ocorre em relação às indústrias de softwares e artigos farmacêuticos. Israel também é reconhecido pela técnica da lapidação e exportação de diamante, e ainda pela engenharia de circuitos integrados, bem como pela captação de energia solar (Usina de Ashalim), ou seja, por ser detentora de tecnologia de ponta. Entretanto, o que mais impressiona diz respeito ao seu potencial no agronegócio.

Mediante o uso de um sistema bastante avançado, a atividade agrícola é desenvolvida de forma extraordinária em uma região desértica, que compreende mais da metade do seu território, onde se produz grande quantidade de grãos em meio a tantos outros gêneros alimentícios. 

No Brasil, o espanto causado pelo estreitamento dos laços com Israel só se justifica pela ignorância a respeito história harmônica entre os dois países. O governo brasileiro foi um dos primeiros a reconhecer a legitimidade do Estado de Israel, na ocasião em que o diplomata Oswaldo Aranha presidia a Assembleia Geral das Nações Unidas, deliberando sobre as novas linhas fronteiriças em território palestino. Desde o início, Brasil e Israel seguem estendendo o intercâmbio no campo técnico e científico. Fora esse aspecto, a recepectividade do povo israelense no âmbito cultural também é bastante significativa, a exemplo das obras de Oscar Niemeyer edificadas na Terra Santa.

Em 2007, Israel passou a integrar, na condição de parceiro extra-regional, o acordo de livre comércio com o Mercosul, abrangendo não apenas a abertura de mercados, mas também uma séria de medidas de cooperação mútua. Entretanto, a nova aliança assinada com Israel tem como destaque a importação de tecnologia capaz de resolver o problema de irrigação para a agricultura desenvolvida no nordeste brasileiro, do mesmo modo em que foram solucionadas questões ainda mais complexas presentes nos campos israelenses. Aliás, faz tempo que os produtores brasileiros utilizam no plantio os fertilizantes produzidos em Israel. Em contrapartida, o Brasil poderá diversificar a exportação para Israel, o que até então era muito limitada à venda de alimentos, e, com certa timidez, calçados, metais e celulose.

Diante de tantos aspectos positivos vindos dos mais variados setores, não há espaço para previsões pessimistas, calcadas em supertições disfarçadas de prognóticos políticos, e esporadicamente disseminadas por algum profeta do fracasso. O Brasil precisa de muitos parceiros como Israel que sirvam de inspiração para a saída da enorme crise econômica que o assola.

O método da vitimização já não repercute positivamente em canto algum, exceto para aqueles que parecem ter adormecido em meados da década de sessenta. Não se trata de uma questão de inclinação para esquerda ou direita, mas sim do propósito de estar do lado certo, compreendido como tudo aquilo que favoreça o crescimento do povo brasileiro em todos os seus aspectos materiais e imateriais, sem prejuízo do seu papel disseminador da paz e da fraternidade entre os povos.

Há muitos anos o Brasil vem se destacando na Organização das Nações Unidas como o país que sempre sai em defesa das soluções pacíficas, por mais complexos que sejam os incidentes diplomáticos em tela. Devemos, inclusive, admitir que a benevolência do governo brasileiro no campo do Direito Internacional por vezes tenha extrapolado os limites do razoável, como nos casos em que foi concedido asilo político a criminosos comuns travestidos de perseguidos por motivos ideológicos, negando-se indevidamente a extradição, sem apresentar argumentos justificáveis.

Fora essa mácula em nossa história das relações internacionais, o que se espera do atual governo é a manutenção do ímpeto pacifista do povo brasileiro dentro e fora do território nacional.

As linhas que separam as fronteiras são imaginárias, e cumprem perfeitamente a tarefa de delimitar a soberania sobre as riquezas naturais e o alcance dos exércitos. Todavia, o ser humano que sobre as quais caminha é real, de carne e osso, e seu natural desejo de se relacionar, independentemente das diferenças étnicas e religiosas, é intenso, indomável, e ultrapassa sobremaneira todas as barreiras que possam ser criadas pela conveniência.


 

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Autor
Professor de Direito Penal e Processual Penal. Advogado.
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