• 8 de abril de 2020

O conto da aia

 O conto da aia

O conto da aia

Obra-prima da canadense Margaret Atwood, lançado pela primeira vez em 1985, “O conto da aia” segue como um best seller e conta com uma aclamada adaptação para a televisão norte-americana.

O livro mantém a narrativa em primeira pessoa de uma aia que conseguiu fugir da opressiva República de Gilead. Se na série ela se identifica desde o início como June, no livro permanece o mistério sobre seu nome verdadeiro.

A estória da República de Gilead é a história de boa parte das revoluções. Em tempos de crise, um grupo de fanáticos religiosos conhecido como os Filhos de Jacó assassinou o presidente dos Estados Unidos e começou um regime de fanatismo religioso. 

Nesse mundo distópico, a maioria das pessoas se tornou infértil por variados motivos: catástrofes ambientais, radiação. As taxas de natalidade caíram drasticamente. Muitos animais entraram em extinção. Carne é artigo de luxo. 

As poucas mulheres férteis são propriedade do Governo, sem domínio nenhum por seu próprio corpo. 

Nesse regime de fanatismo religioso, a virtude feminina é a exigência número um. As mulheres passam a usar vestidos compridos, cujas cores significam sua casta social. As aias se vestem de vermelho, cor da fertilidade. Jeans, camisetas, revistas, livros, tudo se tornou proibido pelo Governo, passível de prisão e execução.

A Bíblia é seguida ao pé da letra. Feministas, judeus, católicos, ateus, homossexuais, budistas, toda e qualquer pessoa que não se alinhe aos rígidos padrões impostos pelos radicais que tomaram o poder serão perseguidos, presos e mortos. Em alguns casos, os dissidentes eram mantidos vivos para trabalhar em campos de concentração.

Os julgamentos e execuções eram públicos, como na Idade Média. A ideia era gerar terror na escassa população da República de Gilead. 

Indo e voltando no tempo, a aia tenta entender como seu país passou de uma democracia na qual todas as pessoas, especialmente mulheres, tinham total liberdade, para a ditadura religiosa em que viviam:

Foi depois da catástrofe, quando mataram a tiros o presidente e metralharam o Congresso, e o exército declarou um estado de emergência. Na época, atribuíram a culpa aos fanáticos islâmicos. 

(…) Foi então que suspenderam a Constituição. Disseram que seria temporário. (ATWOOD, 1985, pg. 208).

Nada é de repente. Em meio aos tumultos políticos, a aia/June tem a notícia de que fora demitida. As contas bancárias de todas as mulheres são congeladas e elas são legalmente proibidas de trabalhar e de ter bens em nome próprio:

Estamos sendo demitidas?, perguntei. Eu me levantei. Mas por quê? Não demitidas, disse ele. Dispensadas. Não podem trabalhar mais aqui, é a lei. (Idem, pg. 211).

A mãe da protagonista, uma militante feminista, desaparece misteriosamente. A futura aia e seu marido, a quem ela chama de Luke, encontram o apartamento da mãe vazio e revirado.

É hora de fugir. Com identidades falsas, a futura aia, Luke e a filha do casal tentam fugir para o Canadá. Não dá certo. São interrogados na barreira policial. Fogem pela floresta. Na fuga, ouvem-se tiros. A aia/June não sabe se Luke está vivo ou morto.

Sua filhinha é tirada dela. Como mulher fértil e jovem, a mulher é levada ao Centro Vermelho, onde serão treinadas por fanáticas religiosas como a cruel Tia Lydia para se tornarem as submissas aias. Mulheres não férteis podem virar simples empregadas, desobrigadas da função estatal de gerar filhos. Dissidentes, ateias, feministas, são mortas ou levadas para as Colônias, como eram chamados os campos de concentração.

No Centro Vermelho, a futura aia reencontra sua grande amiga Moira. Moira tenta fugir várias vezes, e cada vez que é recapturada sofre espancamentos cruéis. Numa dessas fugas, ela não volta mais. Sem saber se Moira, sua mãe e Luke, estão vivos ou mortos, a protagonista só tenta sobreviver. Sua passividade e obediência àquele cruel sistema são espantosas e angustiantes, mas ela quer sobreviver para reencontrar sua filha, a única de seus entes queridos que ela tem certeza absoluta de que está viva. 

Mesmo assim, em alguns momentos a aia se deixa levar por pensamentos suicidas. Tudo o que as aias poderiam usar para suicídio é retirado delas: elas não tem acesso a facas, giletes, cordas, nada que pudessem usar como último recurso para escapar do pesadelo em que viviam. 

Então a mulher é designada para ser a aia do Comandante Fred Waterford e de sua esposa Serena Joy. Recebe o nome de Offred, literalmente, de Fred.

Offred não demora a perceber a falsidade do moralismo religioso da República de Gilead. O Comandante pede para manter encontros secretos com ela. Produtos do mercado negro, como cigarros e cosméticos femininos, circulam pela casa às escondidas.

O médico responsável pelo seu atendimento a assedia sexualmente. Bordéis continuam a existir: em um desses, chamado de a Casa de Jezebel, Offred reencontra Moira. Depois de mais uma fuga mal sucedida, Moira fora torturada de maneira cruel e mandada para ser garota de programa na Casa de Jezebel. Drogas lícitas e ilícitas circulavam à vontade.

A protagonista perde o rumo. Ao mesmo tempo em que se aproxima demais de uma aia com ligações a grupos dissidentes, gerando riscos para sua própria segurança, ela se apaixona pelo motorista da casa, a quem chama de Nick. Serena Joy sabe e encoraja os encontros. Sua esperança é que a aia engravide, e assim deixe sua casa.

Nesse sistema, quando a aia engravidava, o bebê era entregue à família e a aia mudava de posto. Atwood já declarou em dezenas de entrevistas que se inspirou na ditadura argentina e nos bebês tirados de prisioneiras e entregues a famílias dos militares.

Numa ditadura, nada é o que parece. Nick é um “Olho”, um espião. O final da estória é um mistério: a aia/June é levada como traidora do sistema. Nick dá a entender que ele arranjou a situação para que ela pudesse fugir:

– Está tudo bem. É Mayday. Vá com eles. – Ele me chama por meu nome verdadeiro. Por que isso deveria significar alguma coisa?

– Eles? – digo. Vejo dois homens parados atrás dele, a luz acima no corredor transformando as cabeças em caveiras. – Você deve estar louco. –  Minha suspeita para no ar acima dele, um anjo sombrio advertindo-me para não acreditar. Posso quase vê-lo. Por que ele não deveria saber da existência de Mayday? Todos os Olhos devem saber de sua existência; eles a terão arrancado à força, espremendo, esmagando, retorcendo um número suficiente de corpos, um número suficiente de bocas a esta altura.

– Confia em mim – diz ele; o que por si só nunca foi um talismã, não traz nenhuma garantia.

Mas eu a agarro, essa oferta. É tudo que ainda me resta. (Idem, pg. 346).

Então a aia entra na misteriosa camionete preta. Anos e anos depois, seu relato é encontrado gravado em trinta fitas cassete, compondo o que seria chamado por estudiosos de “o conto da aia”. 

Lendo o Conto da Aia nos dias de hoje, é impossível não pensar na Revolução do Irã de 1979 e no regime Talibã de fins dos anos 90 e início dos anos 2000, ambos regimes totalitários que transformaram a vida de todos, mas principalmente das mulheres, em um verdadeiro caos. Atwood já disse que se inspirou em vários regimes ao redor do mundo, mas principalmente no fanatismo religioso dos próprios Estados Unidos, que permanece incólume debaixo da pretensa liberdade que os E.U.A. apregoam aos quatro ventos. 


REFERÊNCIAS

ATWOOD, Margaret. O conto da aia. Publicado pela primeira vez em 1985. Rio de Janeiro: Rocco, 2017. 


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Maria Carolina de Jesus Ramos

Especialista em Ciências Penais. Advogada.