ArtigosCriminologia Penitenciária

O dia em que quase virei “churrasquinho” na cadeia


Por Diorgeres de Assis Victorio


Este artigo é “especialmente” destinado a todas as pessoas que tem por costume “levantar a bandeira” da pena de morte, de mais punição, com a “fala” de que: “Você pensa assim, porque isso não aconteceu com você, porque se esse fato acontecesse com você, se você sentisse isso na “pele”, você não seria contrário à pena de morte, e a mais “punições dos criminosos”.

Era um domingo na cadeia, o sistema prisional tremia muito e o PCC estava cada dia mais forte, praticando várias exterminações no cárcere e dominando cada vez mais as Unidades Prisionais. Na sexta-feira eu tinha lido uma notícia no Jornal Agora, onde o líder na época, ao ser transferido da Casa de Detenção de São Paulo para o “Piranhão” (RDD de Taubaté, hoje “Hospital de Custódia”) prometeu “virar” todo o sistema prisional paulista. No domingo de manhã eu comentei esse fato com o pessoal do fundão (agentes que trabalhavam comigo no barril de pólvora, ou seja, no fundo da cadeia, local onde havia o “castigo e os Raios II e III).

A cadeia estava lotada de presos que tinham chegado do Piranhão, pois eles tinham destruído àquele lugar, o PCC tinha cumprido o objetivo do seu primeiro Estatuto. Eu estava atento com a promessa do líder do PCC, mas sabia que nada podia fazer se a ordem chegasse. Nisso um agente que trabalhava comigo, pediu para almoçar primeiro e eu concordei. Durante esse período, a ordem chegou pelo “radinho” (celular). Era para a cadeia “virar” (rebelião). Eis que um preso entra na “gaiola do Raio II”, local onde eu estava. E com a mão sob sua camisa me disse: “ – Já era mestrão!” Não tentei correr nem tentei “pular em cima do preso”, nem nada, pois eu imaginava que se ele já tinha conseguido chegar até mim, tudo mais já estava dominado pelo PCC. Fui rendido por ele e pediu para eu sair daquele lugar e ir para o “castigo” (celular disciplinar (local onde os presos que cometem faltas disciplinares graves permanecem até o cumprimento da sanção disciplinar)).

Eu fui vendo o que estava acontecendo pelos locais por onde eu passava. A gaiola II já tinha sido rendida e já havia um preso ali na função de agente daquele posto, afinal de contas eles tinham que distribuir os presos pelos postos, não é mesmo? E ao continuar o percurso até o “castigo” vi que o Raio III também já estava dominado e para meu espanto os agentes que estavam rendidos estavam todos deitados ao chão, quando cheguei lá, me mandaram deitar também. “Pensei alto” é, agora que eles vão nos matar deitado no chão, quem será o primeiro que vai tomar uma “estiletada” pelas costas e depois será decapitado? Tomara que seja eu, porque se a ordem é para nos matar mesmo, eu não quero é ficar vendo eles matarem os meus amigos na minha frente.

Já pensei matarem um primeiro que eu, vou para cima para morrer logo, porque fugir não vai dar mesmo, eu não vou conseguir passar por todos os presos, por todos os postos da cadeia e aí se eu tentasse isso, certamente eles iriam me torturar ainda mais e isso iria acontecer na frente dos outros agentes. Eu achava que eles iam primeiro cortar nossas orelhas e fazerem os “Jacks” (estupradores) comerem as mesmas. Em um espaço de tempo muito curto eu pensava em várias formas de morte. Nisso nos pediram a chave do “castigo”. Na verdade o Estado deixava junto no “castigo” os presos do “seguro”. Eu sempre dizia que se um dia a cadeia “virasse” aquilo seria uma carnificina. Eles foram informados que não estávamos com as chaves daquele local, aí começaram a arrebentar os cadeados das celas soltando os “irmãos” que estavam no castigo.

Comecei a ouvir gritos, eles tinham chegado nos presos do “seguro”. Achei que eles iam matar os mesmos “na nossa cara”. Foi aí que mandaram a gente se levantar. O destino era o Raio III. Um preso abriu o portão de acesso ao Raio, pensei que ia começar a matança no meio do pátio, pois era assim que via de regra as mortes ocorriam, ali era o local perfeito para que toda a população da cadeia pudesse se deliciar vendo os agentes serem mortos que nem em um abate de animais. Mas isso não ocorrera, nos mandaram ir para uma cela e um preso foi colocado junto conosco. Pensei que agora sim eles iam matá-lo na nossa frente.

Começaram a nos torturar psicologicamente nos dizendo que iam nos matar, que é o PCC que manda no Estado de São Paulo e que estavam dominando também outros Estados. Vinha outro preso e dizia que estavam apenas esperando a ordem para nos matar e que ninguém ia sair vivo dali.

Um de nossos amigos passou mal e eu intercedi dizendo que eles já tinham muitos agentes como reféns e que era melhorar liberar o agente que estava passando mal porque se ele morresse, alguém ia ter que “segurar essa morte”. Eles se reuniram e resolveram liberar esse agente. Um dos líderes da rebelião disse que necessitava de dois agentes para ir conversar lá frente (lá na frente era próximo a muralha).

Eles queriam alguém para ser torturado lá na frente. Pensei comigo, bem eu já tinha sido instruído no quartel com aulas de prisioneiro de guerra, tinha apanhado com tapa na cara e etc. e pensei que eu devia ir, pois se tinha alguém ali que poderia suportar as torturas esse alguém tinha que ser eu. Me prontifiquei a ir ser torturado e talvez até morto. Eles queriam mais um agente. Nisso olhei para um amigo e perguntei ao mesmo: “- Vamos?”. Ele acenou com a cabeça e dizendo que sim. Não tinha outro jeito, muitos agentes reféns já estavam desesperados dizendo que iam morrer e etc., eu tinha que ir. Presos passavam na porta da cela que estava trancada e batiam com o estilete e gritavam: “ – Vai morrer!” Era tortura o tempo todo.

Eis que um preso foi escalado por ficar na “responsa” da chave da cela onde estávamos. A ordem era para que ninguém ali entrasse sem a ordem do “Índio” (líder da rebelião) e que se alguém ali entrasse, ele é que ia “entrar na faca” (ser morto). Realmente a cadeia estava “mil graus”.

Abriram a porta da cela, vi os “ninjas” (presos encapuzados) entrarem na cela, eles não falavam, pois não queriam ser reconhecidos por suas falas. Eram eles que matavam na cadeia. Eu achava que tinha “chegado a minha hora”! Nos mandaram sair da cela. Fomos descendo a galeria e nisso vi que os “ninjas” estavam armados com um estilete em cada mão. Eram armas gigantes, dava tranquilo para atravessar o meu corpo e ainda sobrava uns trinta centímetros, eu já tinha visto umas “bonitonas” dessas na cadeia.

Quando estávamos descendo um preso tentou se aproximar de nós, ele ia nos esculachar (agredir e etc.), nisso um “ninja” riscou a “bicuda” no chão da cadeia e disse para ele “- Vai morrer!” Eu vi que saiu até fogo do chão quando ele riscou a faca intimidando-o para que não se aproximasse. Fomos descendo a galeria, quando chegamos próximo a “Revisora”, começaram a xingar o Estado, a polícia, delegado, juíza e etc.

Eis que um preso disse para trazer a “fitinha”. Eu e meu amigo fomos virados um de costas para o outro. Amarram nossas mãos e nossos corpos, trouxeram um colchão de espuma e nos envolveram nele até próximo ao peito. Trouxeram outro colchão e aí envolveram nossos corpos até a altura do pescoço só deixando nossas cabeças para fora. Começaram a jogar muito álcool nos colchões, pensei que eles iam fazer o “micro-ondas de cadeia” com nós e não concordando só com isso, trouxeram ainda um cilindro de gás industrial e colocaram a válvula do mesmo próximo a minha face.

Pensei que eles iam nos queimar vimos como verdadeiros “churrasquinhos de cadeia”. Um líder estava com um isqueiro em uma de suas mãos. Ele gritou: “Liga a “fitinha!”  Um outro preso “ninja” virou a válvula e o gás atingiu minha face, pensei que ia ficar cego com tanto gás. Ele ameaçava “riscar” o isqueiro. Parei de olhar, pois eu achava que ia ficar cego em razão do gás que atingia meus olhos. Comecei a pensar que esse preso não tinha visão do que ocorria em suas costas e um preso poderia chegar aquele local e acender um fogo para fumar e aí íamos “torrar”.

Os presos estavam tomando todos os tipos de remédios com álcool. Se drogavam de todas as formas imagináveis. Naquela hora eu me senti como se estivesse morto, o tempo parou, o stress era tanto que eu já não ouvia ou sentia nada, parecia que eu não estava mais ali fisicamente. Eis que escuto um “Já era”. Eu não queria acreditar, eles não nos mataram. Cortaram as amarras que envolviam os colchões que estava ao nosso redor. Cortaram as amarradas de nossas mãos e gritaram para os que ali estavam vendo a tortura: “Aqui é o PCC! Se o “Choque” entrar nós vamos matar todos os agentes.

Mandaram que nós voltássemos a cela e foram nos escoltando até a cela onde estavam os outros reféns. Quando entrei na cela todos me olhavam assustados e eu fui direto para uma torneira, enfiei a cabeça embaixo dela e fiquei ali molhando a mesma por um bom tempo, tirei a cabeça de lá e virei para os outros reféns já todo molhado e fui abraçar quem também tinha sido torturado comigo. Não agüentamos e “desmontamos”, choramos muito, “o stress batia no pico”. Os demais gritavam na cela para a gente contar o que aconteceu e outros diziam que iam nos matar e que a gente já sabia. Nós não sabíamos. A tortura permaneceu até o outro dia de manhã quando a megarrebelião terminou e fomos libertados.

Apesar de ter passado por tudo isso não utilizo esses fatos como “muleta” para me apoiar em um argumento covarde de que eu sou a favor da pena de morte e etc. tendo em vista o que sofri nesse dia. Que esse artigo sirva de reflexão para os que levantam essa vergonhosa bandeira (de que não aconteceu contigo, com um filho, parente e etc.).

Mais punição nunca inibiu o crime!

_Colunistas-Diorgeres

Autor

Diorgeres de Assis Victorio

Agente Penitenciário. Penitenciarista. Pesquisador
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