• 5 de dezembro de 2020

O futuro das fake news: entre verdade, cinismo e desejo

 O futuro das fake news: entre verdade, cinismo e desejo

O futuro das fake news: entre verdade, cinismo e desejo

Vladimir de Carvalho Luz

Em 2018, a BBC Trending veiculou uma matéria com o seguinte título “Como o termo ‘fake news’ virou arma nos dois lados da batalha política mundial”. Naquele momento, o que já passava a chamar atenção de alguns veículos de imprensa internacional era a força expansiva desse fenômeno em escala global, bem como sua capacidade de influenciar grupos reacionários na arena política de alguns Estados.

Desde então, a expressão fake news passou a ser de uso corrente, integrando-se ao jargão jornalístico e político da atualidade. Essa tecnologia midiática de disseminação de inverdades em massa, sob a aparência de notícia jornalística, foi fortalecida pelo uso técnicas cada vez mais eficazes de vigilância e controle das populações.

Nessa perspectiva, por meio de dispositivos de rastreamento de opinião via algoritmos, as fake news “viralizaram” nas redes sociais e no WhatsApp, mostrando-se como forte instrumento de formação de opinião pública em processos de disputas políticas internas de vários países, sendo fator decisivo nas eleições presidenciais dos EUA e do Brasil.

Observando as experiências eleitorais mencionadas, é possível, ainda que sinteticamente, estabelecer certos elementos das fake news como arma no campo das disputas eleitorais majoritárias.

Primeiro, escolhe-se um tema moral controvertido, geralmente vinculado à moralidade sexual; segundo, atribui-se ao adversário político uma mácula moral, colocando-o na posição de inimigo; terceiro, fomenta-se o medo caso o inimigo tenha sucesso eleitoral; quarto, veicula-se o conteúdo das fake news em auditórios conservadores específicos em diversos estratos sociais, com linguagem simples, expressa por vezes em mensagens de cunho pictórico (memes) ou vídeos; quinto, dissemina-se  esse conteúdo nas diversas redes sociais interconectadas, e listas de WhatsApp, mediante disparos automáticos em massa feito por bots.

Os bots são aplicações autônomas que rodam na Internet enquanto desempenham algum tipo de tarefa pré-determinada. Eles podem ser úteis e inofensivos para os usuários em geral, mas também podem ser usados de forma abusiva por criminosos. Segundo pesquisa da Imperva, em 2016 os bots corresponderam a mais de 50% do tráfego total da Internet.

A força concreta das fake news, capaz de mobilizar multidões “irracionais” para perpetrar linchamentos virtuais ou reais, bem como decidir o destino de eleições, coloca em pauta, de novo, uma questão relevante: como se opera a adesão das massas a informações que afrontam certos consensos científicos básicos, violam direitos e garantias fundamentais, ou mesmo criam cenários e narrativas que beiram o ridículo, quando não veiculam conteúdo burlesco e inverossímil? Seriam as fake news uma das formas contemporâneas de produção de ideologia em um sentido diverso daquele atribuído até então pela tradição crítica das ideologias?


Uma das notas centrais sobre a crise da teoria crítica da ideologia se baseia na seguinte constatação:  o que estaria verdadeiramente em disputa nos processos de sujeição contemporânea não seria mais a relação entre saber e engano, mas entre saber e desejo.  Ou seja, a tarefa de uma teoria crítica não seria tão somente “desvelar” algo oculto no plano das ideias, e que seria uma ferramenta da classe dominante em sua operação de convencimento e submissão dos oprimidos. Nessa noção de ideologia, o centro da operação social de dominação seria o engano, o simulacro, uma inversão do real em face de evidências racionais, uma mentira que serve para legitimar, na voz do próprio oprimido, sua opressão.

É importante demarcar que a interpretação dos processos sociais de dominação pela via da aceitação da sujeição pelo dominado, tema clássico da sociologia e da filosofia, perpassa uma série de autores, perspectivas e contextos distintos.  Assim, é possível, nessa trajetória, destacar várias démarches: a dialética do senhor e do escravo (Hegel), a servidão voluntária (La Boétie), a dominação carismática (Weber), a ideologia (Marx, Althusser), para citar alguns exemplos canônicos.

Todavia, após a crise do denominado “socialismo real” e o fenômeno etiquetado como pós-modernidade, essa questão passa a ser tematizada de forma mais alargada pelos teóricos frankfurtianos (em especial, Adorno). O rescaldo pós-fascismo europeu, e posteriormente o colapso do mundo bipolar, colocou perante os intérpretes sociais críticos questões inquietantes, particularmente as novas formas de dominação imagética do capitalismo de massas e uma nova subjetividade coletiva que se faz presente nesse contexto.

Com efeito, já na segunda metade do século XX, passam a ser difundidas leituras críticas, manifestas por leituras cruzadas entre sociologia e psicanálise, política e psicanálise, direito e psicanálise, inserindo a compreensão “psicológica” no campo da interpretação renovadora da crítica da ideologia. No Brasil, as leituras do fenômeno político a partir da psicanálise, e que iluminam o tema tratado aqui, possuem destaque nos trabalhos de Goldenberg, Dunker e Safatle para citar apenas três exemplos.

Ver: GOLDENBERG, Ricardo. Política e psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006; SAFATLE, Vladimir. Cinismo e Falência da Crítica. São Paulo: Boitempo, 2008; SAFATLE, Vladimir. Circuito dos Afetos: Corpos políticos, Desamparo, Fim do Indivíduo. São Paulo: Cosac Naify, 2015. E sobre a psicanálise como diagnóstica social, ver: DUNKER, Christian I. L. Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. São Paulo: Boitempo, 2018.

Contudo, ainda que essas aproximações da teoria social com aportes da psicanálise já ocorram de longa data, o problema da incapacidade heurística da teoria da ideologia em explicar o fenômeno de reprodução da dominação social no mundo contemporâneo ainda produz um certo mal-estar no pensamento crítico. Isso se dá por várias razões. Não sendo possível revisar esse processo de bricolagem de aportes marxistas e psicanalíticos, entendo que a compressão da ideologia feita por Žižek é digna de nota.

Žižek entende que a crise da teoria crítica da ideologia, em sua versão ortodoxa, ocorre pelo fato de essa abordagem estar circunscrita na relação entre “saber” e “verdade”. O salto qualitativo proposto nessa análise está em perceber que um dos lugares da ideologia, para além do saber e verdades baseadas na suposição de um sujeito consciente, é o campo da fantasia. Aqui, Žižek se utiliza da gramática lacaniana para apresentar sua noção de fantasia.

O processo fantasmático, libidinal e inconsciente é que estrutura o mecanismo da inversão ideológica na atualidade, e não mais a racionalidade capaz de garantir a coerência entre fins e meios da enunciação e da ação dos sujeitos (ŽIŽEK, 1996). Esse processo é assegurado a partir de sua leitura de SLOTERDJIK (2012), pela enunciação cínica da mensagem ideológica. O cinismo, como racionalidade discursiva contemporânea, propicia a não implicação subjetiva do emissor com a inveracidade de seu discurso, a qual não necessita mais ser ocultada sob a forma de simulacro.

Sendo válida a proposição Žižek sobre o lugar fantasmático da ideologia no capitalismo contemporâneo, uma teoria crítica que busque explicitar os processos de sujeição atuais não poderia se basear em sua antiga suposição de que “eles fazem, mas porque não sabem”. Ao contrário, a crítica efetiva deveria partir de um outro pressuposto: “eles sabem, e mesmo assim o fazem”.  Ou seja:

A ilusão, portanto, é dupla: consiste em passar por cima da ilusão que estrutura nossa relação real e efetiva com a realidade. E essa ilusão desconsiderada e inconsciente é o que se pode chamar de fantasia ideológica (ŽIŽEK, 1996, p. 316).


Obviamente, a difusão de mentiras para a formação da opinião pública não é algo novo.

Em sistemas políticos modernos de massa, baseados na pressuposição de uma vontade geral derivada de indivíduos conscientes e livres, o processo de convencimento e direcionamento da opinião pública passa a ser elemento central da vida social. Dessa constatação deriva a especial atenção que os dirigentes da real politik do século XX conferiram à propaganda, que passou a ser vista, doravante, como estrutura mesma da gestão política e de Estado (sobre esse tema, ver: MIGUEL, Luis Felipe.Os meios de comunicação e a prática política. Lua Nova [online]. 2002, n.55-56, pp.155-184. ISSN 1807-0175).

A bem da verdade, a lógica das aparências e a tomada de decisão política são assuntos centrais, desde Maquiavel, na estruturação dos fundamentos de nossa modernidade política.

Importante registrar que existem várias tradições interpretativas do pensamento político de Maquiavel, notadamente sobre o sentido histórico de sua obra O Príncipe, e a posição do autor em relação ao tema do Republicanismo. Todavia o que se pontua aqui, a pretexto de ilustração, é o tema da “virtù” (e não virtude) como elemento pessoal do governante e sua posição em relação ao problema das aparências e de falar a verdade para os súditos.  Ver: MACHIAVELLI, Nicoló, 1469-1527. O Príncipe I Nicolau Maquiavel; [tradução Maria Júlia Goldwasser]. 2;1 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996. (Os clássicos).

Mas o advento de novas tecnologias em rede, big data, realizando um processo de hiperconexão de pessoas e contextos, trouxe esse velho tema à baila de forma contundente. Compreender, portanto, o fenômeno das fake news passou, assim, a ser um tema crucial para os processos concretos de formação da opinião pública em vários países de capitalismo central e periférico.

Tão espantoso quanto a velocidade de disseminação de notícias falsas em redes sociais, atualmente, é sua eficácia, sua capacidade concreta de promover sólidas identificações e adesões subjetivas em larga escala. Como elemento central desse processo está a “retomada” (aspas propositais) das ideologias autoritárias ou fascistas em escala mundial, esgarçando a contradição sempre latente em democracias liberais constitucionais:  “liberdade de expressão” versus discurso de ódio.

Ademais, ainda que se comungue do adágio marxiano de que a história só se repete como farsa ou tragédia, não parece ser por acaso que, ao lado das fake news, temas importantes do debate político europeu dos anos 20 do século XX também voltem aos holofotes, tais como “democracia plebiscitária”, “morte das democracias”, “cesarismo”, “separação de poderes”, e o papel do executivo na esfera da legitimidade politica estatal.  Em vista desses “retornos”, mais uma vez a teoria social se volta a pensar mais agudamente a temática da “psicologia das massas”, questão que mobilizou intensamente o pensamento social e político dos séculos XIX e XX.

Nessa perspectiva, o elemento central das fake news parece partir da força da seguinte lógica interna: é assim porque desejo que seja assim, ainda que eu saiba que, na esfera dos fatos, não seja assim. Essa estrutura está na base da adesão subjetiva em massa às fake news, e estabelece um couraça protetiva em face de uma teoria crítica da ideologia operante na chave do critério de veracidade, uma vez que sua formulação cínica escapa ao escrutínio de critérios objetivos de validação racional.

É digno de nota que Freud, ao se referir à religião, em O futuro de uma ilusão, afirma que o mais essencial, em uma ilusão, não reside na possibilidade de que ela – a ilusão – possa, ou não, ser verificada no plano dos fatos, mas sim sua ligação com o desejo (FREUD, 2012). Uma ilusão, portanto, não subiste por ser verdadeira ou falsa, mas por ser capaz de criar afecções.

Para além da questão religiosa, a crise instaurada pela racionalidade cínica faz com que o tema do desejo, e suas ilusões correlatas, seja central na luta política. Isso aponta para duas direções. Uma, a possibilidade de renovação da teoria crítica das ideologias, aglutinando os contributos da psicanálise como ferramenta útil de diagnóstica social, sem cair nas trampas do psicologismo.

Nessa linha, tem-se em mente a leitura que propõe SAFATLE (2008), de se levar em consideração o papel central das afeções no campo político, percebendo as condições em que se formam redes, circuitos de afetos. Outra possibilidade indica que, para além da crise da teoria crítica, é preciso olhar um pouco para o espelho, e aplicar a crítica a nós mesmos, e reconhecer que a mobilização subjetiva causada pela fake news reflete, por outro lado, nossas próprias insuficiências em erotizar nossos discursos, ao lado, claro, da fundamentação racional.

Por fim, pode parecer paradoxal, mas o futuro das fake news e suas ilusões conservadoras depende também de nossa capacidade de gerar afetos emancipatórios capazes de circular e criar adesões de massa, ou ficaremos à deriva entre as correntezas da verdade, do cinismo e do desejo. Em épocas de grave crise social, a força de resistência emancipatória, em vários locais do globo, buscou nutrição em ilusões por vezes inverossímeis no horizonte da vida política concreta. Seria possível, hoje, constituir afetos renovadores na esfera política, não direcionadas ao gozo narcísico da sujeição, mas voltadas, ainda que sob a forma de projeção utópica, à emancipação como meta contínua? Em momentos de crise, como o atual, nossa capacidade de responder essa questão é vital.


REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. Porto Alegre: P&PM, 2012.

SAFATLE, Vladimir. Cinismo e Falência da Crítica. São Paulo: Boitempo, 2008.

SLOTERDJIK, Peter. Crítica da razão cínica. São Paulo: Estação liberdade, 2012.

ŽIŽEK, Slavoj. “O Espectro da Ideologia” in: Um mapa da ideologia / Theodor W. Adorno … et. al. Organização Slavoj Zitek; tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.


Leia também:

Exceção da fonte hipoteticamente independente e o esvaziamento do princípio da contaminação


Quer estar por dentro de todos os conteúdos do Canal Ciências Criminais?

Então, siga-nos no Facebook e no Instagram.

Disponibilizamos conteúdos diários para atualizar estudantes, juristas e atores judiciários.

Vladmir de Carvalho Luz

Professor da Universidade Federal Fluminense. Pesquisador do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos – InEAC/UFF.