O grito contra a corrupção e a renúncia da alteridade


Por Felipe Faoro Bertoni


Os últimos dias têm sido curiosos. As redes sociais denunciam a iminência de uma guerra virtual, refletindo a tensão política vivenciada na tessitura social. Cidadãos detentores pontos de vistas distintos realizam verdadeiras digladiações intelectuais, de forma absolutamente desrespeitosa, leviana e sem qualquer alteridade. Os comportamentos são vexatórios. Sujeitos com trajetória acadêmica de respeito às diferenças apontam e atiram ofensas gratuitas.

É impossível deixar de notar a violência e a virulência na argumentação – de parte a parte –, o maniqueísmo na manipulação discursiva e a intolerância quanto às adversidades.

Em uma primeira vista, a impressão que se tem é de que se está a defender interesses flagrantemente distintos. Parece uma guerra do bem contra o mal, do certo contra o errado, do céu contra o inferno. Todavia, a despeito de eventuais diferenças ideológicas, não é crível conceber que inexistem pontos de contato no almejo a uma sociedade melhor.

Com efeito, a mim não parece ser criticável a demonstração de insatisfação com a endêmica corrupção simbioticamente vinculada ao nosso Estado.

É salutar que a consciência social atinja um nível de repulsa quanto a atos de corrupção – seja lá por quem tenham sido praticados. Críticas partidárias e apaixonadas à parte, é evidente que a maior parte da população quer caminhar para o mesmo lugar, para uma sociedade mais igualitária e mais justa, onde a corrupção seja um fantasma do passado. Sim, existem diferenças sobre a crença no remédio mais adequado para combater essa enfermidade. Contudo, ridicularizar expressões nesse sentido é absurdo e insustentável.

A expressão popular, aliás, não vem sozinha, e reflete igual tendência no âmbito do cenário jurídico nacional e internacional. A tendência normativa é cada vez maior no sentido de estabelecer políticas de prevenção e repressão à corrupção. Essa orientação, aliás, reflete efeitos na iniciativa privada, inclusive com o desenvolvimento e fortalecimento do compliance.

Recentes escândalos de corrupção deram azo para a criação de sistemas de controle cada vez mais intensos, completos e robustos, impondo deveres de obrigação e de ação a diversos setores da sociedade.

A manifestação da sociedade civil deveria vir para somar e ampliar esse contexto, demonstrando, efetivamente, um rompimento com uma lógica de tolerância e com a cultura das vantagens.

Se diversas diferenças existem nas crenças e no caminho a ser percorrido para uma sociedade melhor para todos, nenhuma destas diferenças reside no combate contra a corrupção.

Desta forma, levantar a bandeira contra a corrupção deveria ser unanimidade, enveredando esforços conjuntos para que esse mal seja extirpado. É preciso reconhecer que se há algo errado, deve ser apurado, investigado e, uma vez comprovada a culpa, responsabilizado, tenhamos ou não identificação ou afeição por quem realizou o ato.

Por fim, em momentos de tensão, no qual os nervos e os sentimentos estão à flor da pele, o diálogo, a argumentação e a alteridade parecem ficar comprometidos, dando espaço para violenta e flagrante abnegação do altruísmo e da adversidade. Contudo, em uma sociedade plural e democrática, todos devem ser ouvidos e respeitados.

Afinal, “posso não concordar com uma palavra do que dizes, mas lutarei até a morte para que tenhas o Direito de dizê-lo”.

_Colunistas-FelipeFaoro

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