• 10 de agosto de 2020

O idiota

 O idiota

O idiota

Uma das muitas obras fundamentais de Fiódor Dostoiévski, O idiota, romance soberbo dividido em quatro partes, é tido como uma estória que gira em torno de um eixo fundamental: neste mundo caótico, mesquinho, vale a pena ser um homem bom, e pagar pelos pecados de todos?

O idiota do título se refere ao personagem principal, o príncipe Liev Nikoláievitch Míchkin. O próprio Dostoiévski o definiu como uma mistura de Jesus Cristo e Dom Quixote.

O título de príncipe é apenas um título: o jovem de 27 anos é um órfão sem quaisquer recursos e fora criado por pura bondade de um tutor. Portador de epilepsia, o príncipe passou quase toda a vida em um sanatório na Suíça. Como parte do preconceito da sociedade da época pela sua doença, o jovem é tido como um verdadeiro idiota, tratado por todos como o bobo da corte.

Sua doença, sua pureza, sua total falta de malícia e sem o hábito do convívio em sociedade, tudo contribui para que seja ridicularizado constantemente. Embora tenha lido livros e se expresse de maneira perfeitamente clara, o príncipe é tratado como um verdadeiro imbecil. Dostoiévski questiona o que é ser “inteligente” para uma sociedade hedonista, que só se importa com a vida nas altas rodas, dinheiro e poder:

Os inventores e os gênios, no início de sua trajetória (e muito amiúde também no final), não eram vistos quase sempre pela sociedade senão como imbecis- essa era a observação mais rotineira, por todos conhecida demais. (DOSTOIÉVSKI, 1868, pg. 368).

 O príncipe resolve voltar à Rússia, pois seu tutor havia morrido, deixando-o sem recursos. Ele tem alguns nomes de parentes seus, que decide procurar em busca de apoio. Já no trem o jovem conhece o pérfido Rogójin, jovem da mesma idade que o príncipe. Rico, mundano, Rogójin é obcecado por uma bela jovem chamada Nastácia Filíppovna. Falastrão, conta toda sua estória ao príncipe durante a longa viagem.

Toda a alta sociedade russa parece conhecer a triste estória de Nastácia. Órfã, de beleza extraordinária, a jovem fora seduzida em plena adolescência pelo seu tutor. Transformada em amante, fora abandonada depois de alguns anos, quando seu tutor Tótski resolve procurar uma noiva na alta sociedade russa. Enlouquecida, a jovem vai atrás dele em São Petersburgo, instalando-se em um apartamento e vivendo de maneira luxuosa às custas de seu antigo sedutor.

Logo o escândalo se espalha e muitos homens interessados aparecem, alguns dispostos ao casamento, outros querendo mais uma aventura com a moça. A alta sociedade não ignora o crime de que ela fora vítima quando ainda muito jovem; mesmo assim o preço do escândalo é pago apenas pela mulher. A fim de remediar a situação, seu antigo sedutor resolve casá-la, pagando ao noivo um alto valor de dote, e também para se livrar de qualquer culpa perante a moça e a sociedade. Rogójin é apenas um de seus muitos pretendentes.

Já na cidade, o príncipe procura o general Ivan Iepántchin. Este é casado com uma parente distante do príncipe, a generala Lisavieta Prokófievna. O general é um homem que oscila entre a bondade e os vícios de quem está acostumado com a vida na alta sociedade. Resolve, então, por puro dever de parente distante, auxiliar o príncipe, levando-o ao seu apartamento a fim de conhecer a generala e as três filhas do casal. Antes, apresenta o príncipe a um de seus assessores, Gánia, outro jovem interessado em Nastácia, não por amor, mas pelo dote que a moça vale. Gánia mostra um retrato de Nastácia ao príncipe; o impacto que a jovem causa nele é imediato.

A generala Lisavieta é uma grande matriarca russa. De gênio forte, orgulhosa, é muito preocupada com as regras da alta sociedade. A matriarca pensa que o príncipe é um verdadeiro idiota, alguém sem o mínimo conhecimento das regras da vida, um ingênuo. Mesmo assim, toma o jovem à sua proteção.

A maior preocupação da generala é casar bem suas três lindas filhas: Aglaia, Adelaida e Alieksandra. Mesmo sendo uma mulher “moderna” para os padrões da época, Lisavieta sabe que o único caminho para uma mulher é um bom casamento. O fato da família ser rica é mais uma dor de cabeça para a protetora mãe, que não ignora que muitos aventureiros querem apenas o dote de uma jovem. Através das preocupações de Lisavieta, Dostoiévski aborda a “questão feminina”: mesmo em uma sociedade que tentava se modernizar, copiando os livros e as ideias da Europa, o único objetivo de uma mulher ainda era o casamento.

No mesmo dia da chegada do príncipe, Nastácia visita Gánia, com quem considerava se casar. A moça estava dividida entre o casamento com o rico e violento Rogójin e o casamento com Gánia. Este último é mostrado pelo narrador como o verdadeiro homem mediano: incapaz tanto de grande bondade como de grande vilania. Gánia, como a grande maioria das pessoas, oscila entre pequenos pecados e a tentativa de ser bom, mas era incapaz de cometer um crime.

No pequeno apartamento de Gánia, viviam ele, seu irmão Kólia, jovem de profunda bondade que se afeiçoa ao príncipe como a um irmão mais velho, sua mãe, sua irmã e seu pai, um velho militar que passa os dias a se embebedar. Gánia ainda recebe o príncipe, por ordem de seu chefe, o general. Único responsável por sustentar sua família, o jovem vê no dote de Nastácia uma oportunidade ímpar de mudar de vida.

Nessa visita, tudo dá errado. A família de Gánia destrata Nastácia, pois ela é uma mulher “desonrada”. Também não ignoram que o dinheiro é o único motivo de Gánia.  O príncipe e Nastácia se veem pela primeira vez. O príncipe encanta-se pela beleza da moça e também pela sua triste estória. Ele é o único que a vê como a vítima de um devasso, não como a mulher indigna e desonrada.

Nastácia é mostrada pelo narrador como uma mulher desequilibrada. Parece acreditar que a culpada pela sua desonra é ela mesma, e não Tótski. Vive de maneira luxuosa, escandalosa, convivendo com aventureiros como Rogójin. A moça crê firmemente que ela não merece a vida de uma mulher honrada, daí a maneira como age. Inteligente, não ignora que Rogójin é um homem violento e que corre risco ao lado dele. Mesmo assim, ela foge com Rogójin para Moscou, deixando o príncipe desolado. Nesse meio tempo, o príncipe recebe uma vistosa herança, tornando-se um homem rico.

O príncipe vai atrás de Nastácia em Moscou. Os dois chegam a conviver, mas Rogójin está sempre por perto com sua presença ameaçadora. Nastácia foge mais uma vez.

O príncipe volta a São Petersburgo. Encontra-se com Rogójin. Após uma longa conversa, o príncipe se convence de que ele e Rogójin estão em paz, mas engana-se.  Rogójin vai atrás dele e tenta assassiná-lo nas escadarias do hotel. O pânico do ataque desencadeia uma crise de epilepsia. O príncipe não se fere mortalmente, mas leva semanas para se recuperar do ataque.

A fim de restaurar a saúde, o príncipe aceita o convite do interesseiro e mexeriqueiro Liébediev para permanecer em sua chácara (datcha), nos arredores de Petersburgo. Os Iepántchin tem uma propriedade nas vizinhanças e visitas são feitas. A generala se preocupa com a recuperação do príncipe e as visitas se tornam constantes.

A matriarca está radiante com o noivado de uma de suas filhas com o rico, inteligente e generoso príncipe Sch. Não esconde a pressa de que as outras duas filhas também encontrem noivos, mas Míchkin está longe de ser um pretendente razoável para as Iepántchin.

Não obstante, Aglaia, a filha mais jovem, apaixona-se pelo príncipe e é correspondida. Os pais desaprovam o noivo, mais pela sua doença do que pela sua “idiotice”. Sem sucesso no noivado com a jovem, o príncipe volta com Nastácia, que nunca deixa de lhe escrever e procurar por ele. O casamento é marcado.

O príncipe confidencia a seu amigo, Ieviguiéni Pávlovitch que ama Aglaia e não Nastácia, mas sente que tem um dever moral de se casar com a última. Todos os amigos desaprovam o casamento. Nastácia cada vez mais dava sinais de desequilíbrio mental. Via-se que uma tragédia se avizinhava.

A tragédia, por fim, acontece. Nastácia foge com Rogójin no dia de seu casamento com o príncipe. Rogójin estava na porta da igreja. O príncipe vai atrás dos dois em Petersburgo, mas já é tarde. Ele já encontra Nastácia morta, assassinada por Rogójin.

Rogójin é preso e condenado, dando claros sinais de que estava mais perto da loucura do que da razão. O príncipe é internado por seu fiel amigo Ieviguiéni em um sanatório na Suíça, em estado catatônico. Aglaia se casa com um aventureiro, que só estava interessado em seu dote. O tempo passa e o príncipe continua no mesmo triste estado. A generala e Ieviguiéni permanecem fieis ao príncipe até o fim:

Lisavieta Prokófievna, ao ver o príncipe em seu estado de doente e humilhado, chorou de todo coração. (Idem, pg. 682).

Muitos são os aspectos dignos de nota em O idiota. Com uma grande análise psicológica de seus personagens, Dostoiévski mostra que há muitas facetas humanas: entre o homem profundamente bom representado por Míchkin e o criminoso violento representado por Rogójin, há espaço para homens medianos, sem grandes traços de bondade, mas sem grandes pecados. O que determina a ação dos personagens em sua maioria é sempre o desejo: por dinheiro, por alguém, por uma posição na alta sociedade.

Na Rússia de Dostoiévski, um cargo público, assim como hoje, era sinônimo de status, além da garantia de bons salários. O acesso poderia ser via concurso ou a boa e velha bajulação:

De fato: depois de passar com mediocridade em um concurso e servir trinta e cinco anos, quem entre nós não seria capaz de se tornar general e juntar uma certa quantia na cada de penhor? (Idem, pgs. 368/369).

Parece que há tantas repartições no serviço público que dá até medo pensar; todo mundo foi servidor, todo mundo é servidor, todo mundo quer ser servidor (…). (Idem, pg. 367).

A questão feminina abordada através da triste estória de Nastácia mostra que, assim como em Madame Bovary, que fez muito sucesso à época e influenciou muitos escritores russos, a mulher é sempre julgada com mais peso. Ninguém ignora que ela fora seduzida pelo seu tutor devasso ainda na adolescência, mesmo assim ela se torna uma “mulher desonrada” e paga o preço com sua própria vida.

A obsessão da matriarca Lisavieta em arrumar maridos para suas filhas mostra claramente que o casamento era o único fim de uma jovem honrada:

A propósito, quanto a mais velha, Alieksandra, a própria Lisavieta Prokófievna não sabia como agir. Temer ou não por ela? Ou lhe parecia que definitivamente ‘a moça não tem mais jeito’, ‘vinte e cinco anos, então vai ficar solteirona. E com uma beleza como essa?’… Lisavieta Prokófievna chegava até a chorar por ela durante as noites, ao passo que nessas mesmas noites Alieksandra Ivánovna dormia o mais tranquilo dos sonos. (Idem, pg. 371).

O triste fim do príncipe parece a amarga conclusão do autor que pessoas boas, em uma sociedade corrompida e obcecada por status e dinheiro, serão ridicularizadas e destinadas ao fracasso.

REFERÊNCIAS

DOSTOIÉVSKI, Fiódor, 1821-1881. O idiota. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34. 2002.


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Maria Carolina de Jesus Ramos

Especialista em Ciências Penais. Advogada.