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O Leopardo

O Leopardo

O príncipe teve uma das suas costumeiras e inesperadas visões: uma cena cruel de guerrilhas, descargas no meio dos bosques, e o seu Tancredi por terra, de tripas à mostra como aquele desgraçado soldado. 

– Estás louco, meu filho! Meter-se com aquela gente; são todos uma corja de bandidos e trapaceiros, um Falconeri deve estar conosco, do lado do rei.

Os olhos voltaram a sorrir.

– Do lado do rei, com certeza, mas de que rei?

O rapaz teve um daqueles seus acessos de serenidade que o tornavam impenetrável e querido.

– Se nós não estivermos lá, eles fazem uma república. Se quisermos que tudo fique como está é preciso que tudo mude. Expliquei-me bem?. (LAMPEDUSA, 1958, p. 42). (grifos nossos).

Obra-prima de Giuseppe Tomasi de Lampedusa, o Leopardo (título original: Il Gattopardo) narra a decadência inevitável da aristocracia italiana e a também inevitável ascensão de uma burguesia como nova classe dominante. O leopardo do título é o símbolo da família Salina, liderada pelo austero príncipe Fabrizio. 

Tendo a política como pano de fundo, a obra acompanha a vida do príncipe e sua numerosa família, bem como os costumes de uma aristocracia inerte e falida, mas orgulhosa de seus títulos de papel:

Ele era, numa família que, pelos séculos afora, não aprendera sequer a fazer a soma das despesas e a subtração das dívidas, o primeiro (e último) a possuir uma forte e real inclinação para as matemáticas. (Idem, pg. 22). 

(…) o pobre Príncipe Fabrizio vivia, sob a carranca de Zeus, em perpétuo descontentamento: entregava-se à contemplação da ruína de sua estirpe e de seu patrimônio sem dar mostras de qualquer atividade e, o que é mais, sem tentar por-lhe um termo. (Idem, pgs. 22-23).

Pai de sete filhos, casado com a princesa Stella, o príncipe os amava profundamente, mas era um pai tão rigoroso que sua família tinha verdadeiro pavor dele. Então, ironicamente, era mais próximo e mais afetuoso com seu sobrinho Tancredi, aristocrata falido, que vivia jogando cartas e colecionando casos com mulheres. É Tancredi, jovem e pragmático, quem diz a frase mais emblemática da obra: é preciso que tudo mude para que tudo fique como está. 

A ideia apresentada por Lampedusa encontra ecos em Orwell e na Revolução Francesa: na dança das cadeiras das revoluções, muda o topo da pirâmide, a base continua a mesma. 

Em 1984, Orwell dispôs:

Dos três grupos, apenas os Baixos jamais conseguem, nem temporariamente, sucesso na conquista de seus objetivos. Seria exagero dizer que ao longo da história nunca houve progresso material. Mesmo hoje, num período de declínio, o ser humano médio está fisicamente em melhor condição do que há alguns séculos. Mas nenhum progresso na área da riqueza, nenhum refinamento da educação, nenhuma reforma ou revolução jamais serviram para que a igualdade entre os homens avançasse um milímetro que fosse. Do ponto de vista dos Baixos, nenhuma mudança histórica chegou a significar muito mais que uma alteração no nome dos seus senhores. (ORWELL, 1949, pgs. 238-239).

Na obra de Lampedusa, amor, política e casamento estão interligados. Tancredi tinha uma breve e ingênua ligação com a prima Concetta, uma das meninas de seu tio Fabrizio. Concetta era profundamente tradicional, assim como seu pai.

Porém, em um dado momento, Angélica, a filha de um rico burguês, sem nenhum título de nobreza, conhece a família Salina e decide que Tancredi é o marido ideal. Logo a esperta jovem conquista um noivo, sob a aprovação do príncipe. É uma união de interesses: Tancredi era um aristocrata falido, a ambiciosa Angélica tinha fortuna e não tinha classe:

– Contei pelos dedos; os rendimentos de don Calogero serão dentro em pouco iguais aos de Vossa Excelência aqui em Donnafugata.

Juntamente com a riqueza crescia também a influência política: tornara-se chefe dos liberais na povoação e até nos lugares vizinhos; quando se fizessem as eleições tinha a certeza de que seria feito deputado em Turim.

(…) O príncipe calava-se. Sim, a filha, aquela Angélica que viria jantar, naquela noite; seria curioso voltar a ver aquela pastora toda empenachada. Afinal não era bem verdade que tudo estivesse na mesma. Don Calogero tão rico como ele! Mas no fundo estas coisas eram de prever; era o preço que se tinha de pagar. (LAMPEDUSA, pgs. 76-77).

O príncipe morre já idoso, e sente no leito de morte que sua linhagem, sua nobreza, sua classe morrem com ele, como sinais de um tempo que ficou para trás:

E dele subsistiria tão só a recordação de um velho e colérico avô que tinha batido as botas numa tarde de julho, (…). Não fora ele mesmo quem dissera que os Salina seriam sempre os Salina? Enganara-se. O último era ele. (Idem, pg. 252). 

Concetta jamais se casa. Ela própria, assim como seu pai, vira o símbolo de uma época que ficou para trás.


REFERÊNCIAS

LAMPEDUSA, Giuseppe Tomasi Di. O leopardo. São Paulo: Editora Abril, 1974.

ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.


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Autor
Especialista em Ciências Penais. Advogada.
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