• 30 de outubro de 2020

O médico e o monstro

 O médico e o monstro

O médico e o monstro

Desde a escola clássica de Beccaria, passando por Lombroso e Freud, muitos pensadores se voltaram para a grande questão: o que leva um homem qualquer a cometer um crime?

Em ‘O médico e o monstro’, Robert Louis Stevenson se debruça sobre a questão da dualidade do bem e do mal, da virtude e do pecado. Para Stevenson, o bem e mal habitam todos os seres; às vezes um se sobressai, às vezes o outro.

A narrativa acompanha três amigos de juventude, o advogado Utterson e os médicos Dr. Hastie Lanyon e Dr. Henry Jekyll. Em uma caminhada com um amigo pelas ruas de Londres, o austero advogado Utterson escuta pela primeira vez o nome do estranho Sr. Hyde, um homem rude, de hábitos estranhos, que moraria em um beco escuro de Londres. Utterson já havia escutado aquele nome e, chegando em sua casa, confirma suas suspeitas: Edward Hyde havia sido nomeado herdeiro do célebre e respeitado Dr. Henry Jekyll.

Utterson se divide entre a ética de advogado, a reserva e a curiosidade. Começa a espreitar à porta da casa de Hyde. Um dia o encontra frente a frente. A breve conversa o deixa mais curioso do que antes. Utterson pensa que Hyde estaria de posse de segredos que pudessem destruir a reputação de Jekyll, exigindo dinheiro em troca de silêncio.

Na alta sociedade de Londres, o crime mais comum era o de chantagem; o importante era manter as aparências, não necessariamente agir o tempo todo dentro dos padrões rígidos de decoro e moral:

Mas todo cavalheiro prefere evitar uma cena’, continuou. ‘Digam qual é a quantia. (STEVENSON, 1886, pg. 65).

Determinado a ter respostas, Utterson resolve questionar Dr. Jekyll. Jekyll prefere não falar no assunto e garante que o sr. Hyde não mais irá incomodá-los. De fato, passa-se um ano sem que ninguém em Londres tenha notícias de Hyde, até o assassinato de Sir Danvers Carew, nobre membro do Parlamento. A descrição do assassino feita por uma testemunha coincidia com a de Hyde.

Utterson se revolta. Vai com a polícia à casa de Hyde, mas só encontra uma velha criada. Hyde aparecia e desaparecia misteriosamente. Utterson volta a confrontar Jekyll em busca de respostas; Jekyll garante que não tem notícias de Hyde e mostra uma suposta carta do mesmo. Utterson leva a carta de Hyde a seu assistente no escritório, um especialista em grafologia; o homem garante que as caligrafias de Hyde e Jekyll são idênticas.

Não há mais como negar a ligação entre Hyde e dr. Jekyll. Aflito, Utterson questiona seu velho amigo Lanyon. O velho médico lhe garante que nunca mais quer ouvir os nomes de Jekyll ou de Hyde. Diz a Utterson que lhe deixará uma carta contando tudo que sabe. Pouco depois dessa breve conversa, Dr. Lanyon morre. A carta deixada por Lanyon a Utterson está lacrada, com o aviso para somente ser aberta após a morte de Henry Jekyll. A ética de Utterson é sempre mais forte do que a curiosidade; ele resolve aguardar os fatos.

Um dia, em seu costumeiro passeio pelas ruas de Londres, Utterson repara que a suposta casa de Hyde correspondia aos fundos da residência de Jekyll. A visão de Jekyll à janela provoca-lhe terror.

Em breve, a verdade seria revelada. Tarde da noite, um dos criados de Jekyll procura Utterson, dizendo que o patrão estaria desaparecido e havia outro homem nos aposentos dele. Para os assustados criados, Hyde assassinara o patrão e continuava escondido na casa.

Utterson e os criados decidem arrombar a porta. No laboratório de Jekyll, um corpo jazia no chão. Era Hyde, que havia cometido suicídio. Não havia sinal de Jekyll. Na mesa do médico, havia mais uma carta, desta vez para Utterson.

De posse dos documentos, Utterson enfim descobre a verdade: Hyde e Jekyll eram a mesma pessoa. Jekyll revelou a verdade a Lanyon; o choque da revelação causou a doença e a morte do velho e honrado amigo.

Um relato escrito de Jekyll revela como ele se transformou em Hyde. O Dr. Jekyll estava obcecado em buscar um experimento científico que separaria o bem e o mal que coexistem dentro do homem. A poção, no entanto, transformou-o em Hyde, um homem vil, capaz das maiores atrocidades. Jekyll sempre sentira essa dualidade entre o bem e o mal dentro de si, mas levara toda uma vida reprimindo seu lado torpe, escondendo de todos seus pecados.

Como Hyde, Jekyll cometia crimes e depravações e saía impune. Bastava um gole da poção para ele se transformar novamente em Jekyll. Mas a situação logo sai de controle. Hyde cada vez mais domina Jekyll. O lado vil de sua natureza ganha cada vez mais força:

 Assim, tudo apontava para o fato de eu estar lentamente perdendo o controle de minha personalidade original e mais digna e lentamente me incorporando à segunda e mais torpe personalidade. (Idem, pg. 133).

Já nos últimos meses de sua triste vida, Jekyll se metamorfoseia em Hyde sem precisar da poção; cada vez ele é mais Hyde e menos Jekyll. Ele tenta comprar ingredientes novos, mas a poção não tem mais efeito. Agoniado, Hyde/Jekyll se suicida.

A questão do duplo, abordada com maestria por Stevenson, seria depois estudada pela psicanálise e abordada por outros pensadores. A influência de Lombroso se nota na descrição da aparência de Hyde: seu rosto provoca asco nas pessoas, enquanto Dr. Jekyll é um homem belo. O retrato de Dorian Gray, de Wilde, abordará com mais profundidade a questão da vida dupla de um cavalheiro e também da hipocrisia da sociedade vitoriana.


REFERÊNCIAS

STEVENSON, Robert Louis. O MÉDICO E O MONSTRO- O ESTRANHO CASO DO DR. JEKYLL E SR. HYDE. Publicado pela 1ª vez em 1886. Tradução de Jorio Dauster. São Paulo- Penguin Classics Companhia das Letras, 2015.

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Maria Carolina de Jesus Ramos

Especialista em Ciências Penais. Advogada.