• 28 de setembro de 2020

“O Poço”, a sociedade e a pandemia: lições de um ambiente prisional

 “O Poço”, a sociedade e a pandemia: lições de um ambiente prisional

“O Poço”, a sociedade e a pandemia: lições de um ambiente prisional

I – “O Poço”

É difícil não ter alguma espécie de desconforto ao assistir o filme “O Poço” disponível na Netflix, na qual se narra a história de uma prisão vertical de 333 andares (ou níveis) com dois presos cada uma.

O funcionamento da prisão é simples: cada nível é composto por uma cela totalmente fechada por concreto em que no centro há um fosso por onde passa, de cima para baixo, uma plataforma retangular flutuante com farta quantidade de alimentos uma vez por dia ocasião em que fica parada durante dois minutos. Além disso, a cada mês os presos são trocados de níveis de forma aleatória. 

A única regra é a proibição de guardar qualquer comida após a plataforma descer, sob pena da cela aumentar ou reduzir a temperatura a níveis extremos para matar os reclusos daquele andar.

Essa situação provoca um consumo irracional dos alimentos, com as camadas superiores consumindo o tanto quanto possível, de modo que a cada nível abaixo as possibilidades dos presos se alimentarem são reduzidas drasticamente.

Tanto que já no nível 48, em que Goreng inicia o cumprimento de sua prisão, chegam apenas restos que lembram lixo acumulado e no nível 147, para o qual foi encaminhado no mês seguinte, a plataforma chega sem qualquer resquício de comida, de tal modo que nas camadas inferiores a única chance de sobrevivência é o canibalismo.

II – Os personagens principais

Goreng, personagem principal, foi para a prisão por vontade própria para lá permanecer por seis meses, com o objetivo de parar de fumar, terminar de ler o livro Dom Quixote de la Mancha (já que cada recluso poderia levar um item de sua escolha) e ganhar um certificado. Inclusive, ele passa por uma entrevista para ser aceito no “Poço”. A questão é que Goreng é um sujeito ingênuo que achou que iria cumprir “sua pena” e sair melhor do que entrou. 

Trimagasi, primeiro colega de cela de Goreng, odeia tanto os presos que estão acima – já que terão maiores oportunidades de desfrutar os alimentos, demonstrando inveja – e os que estão abaixo, já que seriam inferiores, demonstrando desprezo.  Da mesma forma demonstra egoísmo e ganância ao consumir tudo o que for possível dos alimentos e total desrespeito e imoralidade para com os inferiores (situação demonstrada ao jogar a garrafa de vinho e urinar na plataforma). Quando é encaminhado para nível 147, no qual não chegam mais alimentos, Trimagasi imobiliza Goreng para matá-lo e se alimentar dele, sem demonstrar qualquer compaixão.

Imoguiri, que passa a ser a companheira de Goring no nível 33 no seu 3º mês de prisão, é uma ex funcionária da administração do Poço que recrutava pessoas para ficarem lá reclusas, inclusive foi ela quem realizou a entrevista de aceitação de Goreng. Arrependida e prestes a morrer em decorrência de um câncer, ela vai para o Poço para tentar, sem sucesso, convencer os reclusos a serem cooperativos uns com os outros, de modo a racionarem a comida para que chegue nas camadas mais inferiores da prisão. Ela tenta instituir uma “solidariedade espontânea”, na qual cada preso iria consumir apenas o prato preparado por quem está no nível superior. A ideia foi inicialmente ridicularizada, porém, Goreng ameaçou defecar nos alimentos caso os presos da camada abaixo não aderissem à proposta, o que surtiu efeito. Porém, no 4º mês, ambos foram encaminhados para a cela 202 (na qual não haveria qualquer possibilidade de chegar algum resquício de alimento) e Imoguiri se suicida permitindo assim que Goreng se alimente de sua carne para sobreviver.

Baharat é o companheiro de cela no 5º mês de Goreng, que agora está no 7º nível, o mais alto que chegou, na qual a plataforma chegava farta de comida. Baharat, diante da oportunidade única, objetiva subir até o nível 0, mediante a ajuda dos presos que estão nos andares superiores. Inicialmente o casal que está acima afirma que irá prestar ajuda, então Baharat joga sua corda (item que levou para a prisão) e começa a ser puxado, porém quando está quase chegando no 6º nível defecam em sua cabeça e largam a corda, quase provocando sua morte com a queda no fosso, o que não ocorre porque Goreng o salva.

Juntos, Goreng e Baharat, resolvem fazer justiça com as próprias mãos se portando na plataforma para que impor suas regras, possibilitando que todos os presos pudessem se alimentar, o que envolveria um jejum dos que estavam nas camadas superiores e o racionamento dos demais. Poucos foram os que lhes deram ouvidos, o que os obrigou a impor à força seus ideais, matando diversos reclusos para isso.

No nível mais baixo, o 333, eles encontram uma menina e a oferecem a porção de panna cotta que estavam guardando como mensagem para o nível 0. Baharat vem a falecer decorrente dos ferimentos que sofreu, e Goreng decide que a menina deveria ser a mensagem, que seria levada pela subida da plataforma.    

III – A sociedade

Como sociedade vivemos numa estrutura de estratos sociais, em que se consome de forma desenfreada e irracional todos os bens, serviços e recursos disponíveis no planeta (petróleo, água, flora, fauna e alimentos). Quanto mais alto o nível socioeconômico maior é o consumo.

Tal como ocorre no filme, as pessoas que estão nas camadas mais baixas, se estivessem no topo, provavelmente fariam o mesmo.

A maioria das pessoas possuem traços fortes de Trimagasi, seja na inveja de quem está acima e desprezo por quem está embaixo na esfera econômica e social. A maioria das pessoas age de forma gananciosa e egoísta, numa sociedade que você é o que seu dinheiro é capaz de comprar e o que é capaz de mostrar.

É claro que há Goreng’s (ingênuos, bondosos, idealistas), Imoguiris (arrependidos, conscientes e altruístas) e Baharat’s (crentes, otimistas e dispostos ao sacrifício para promover a mudança). Porém a resistência à mudança de mentalidade e a adoção de valores como o altruísmo, empatia e compaixão é forte principalmente porque, em regra, não promovem qualquer ganho ou possibilidade de perda naquele que as adota e a cooperação, na prática, só existe quando os dois lados se beneficiam.

Inclusive, muitas condutas originadas de boa vontade se revelam perigosas quando relacionadas a impor uma forma de pensar (característica dos regimes autoritários). Goreng e Baharat mataram diversos outros presos para que aderissem ao seu projeto, o que também está presente em praticamente todas as guerras da história e disputas políticas.

O capitalismo precisa de uma grande massa consumidora, de tal modo que a irracionalidade na aquisição de bens e serviços é um elemento que gera lucro e o fortalece, mesmo diante de uma escassez de recursos, motivo pelo qual a irracionalidade deve ser incentivada. 

Mesmo que esteja ocorrendo o esgotamento de muitos dos recursos do planeta, não há qualquer sinal de que o sistema capitalista demonstre preocupação ou alternativas viáveis.

Até porque, tal como em “O Poço” só há uma solução, a mudança de mentalidade, o que só pode ocorrer com a mudança de uma geração inteira, na qual se deposita toda a esperança. 

A menininha escondida no último nível do Poço simboliza a esperança num ambiente cruel e desumano, e que mesmo nesses ambientes existem a pureza das crianças, as maiores vítimas da atual sociedade.

IV – A pandemia causada pela COVID-19: uma mudança de mentalidade?

Eis que somos atingidos fortemente por uma pandemia que nos coloca em prisões nas nossas próprias residências e, principalmente, atinge o maior bem do capitalismo que é a economia global, paralisando a maioria das atividades econômicas e o consumo.

Somos compelidos a reduzir obrigatoriamente o consumo desenfreado e obrigados a adotar costumes espartanos e a frugalidade que caracteriza uma vida moderada e a simplicidade.

Entretanto, essas posturas são fruto de uma possibilidade de perda, já que sair de casa passou a ser considerado um risco relevante.

Mesmo diante do risco, no Brasil, foram comuns cenas em que pessoas se aglomeravam para comprar tudo o quanto possível, sem qualquer razão lógica, de forma absolutamente irracional, prejudicando os menos favorecidos, já que causou escassez de determinados bens e aumento no preço de outros.

A verdade é que tão logo a normalidade seja restabelecida a sociedade voltará a ser exatamente como sempre foi. É bem verdade que estão ocorrendo profundas mudanças em diversos setores, principalmente relacionadas a vida digital, mas que em nada alterarão a mentalidade da sociedade, sempre egoísta e gananciosa.

Há esperança, nas crianças. Mas para isso precisamos da determinação dos Baharat’s, da persistência das Imoguiris e, principalmente, do idealismo dos Goreng’s, sem violência, sem ódio, sem se igualar aos Trimagasis, para a mudança de mentalidade e adoção de valores virtuosos pela sociedade. 

Será um processo doloroso, árduo, difícil, em que haverá a necessidade de sacrifícios, mas que é possível. 

Precisamos mandar a mensagem, não para o nível 0, mas para o coração das pessoas, pelos nossos filhos, nossos netos e pela existência da própria vida humana.


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Wiliam Shinzato