• 25 de setembro de 2020

O preso que não queria ser solto

 O preso que não queria ser solto

Por Diorgeres de Assis Victorio


“Um preso folclórico na Detenção era o velho Lupércio Ferreira de Lima, o “Mala”. Ele acabara de completar 80 anos quando foi entrevistado por Caveirinha. Condenado por tráfico, Lupércio passou metade de sua vida na prisão. Na década de 1950, ele já era hóspede do extinto presídio Tiradentes, quando os presidiários vestiam o uniforme de listras pretas e brancas. Conviveu com criminosos famosos (como o Bandido da Luz Vermelha, Meneguetti, Promessinha, entre outros) e, na última década, viu o PCC se fortalecer na Detenção. Considerado “o detento mais antigo do Brasil”, Lupércio era querido no Carandiru, onde tinha acesso a todos os pavilhões. Sua cela às vezes ficava 24 horas aberta. Ex-massagista da Seleção Brasileira de Basquete e do São Paulo Futebol Clube, Lupércio acompanhou 11 Copas do Mundo na cadeia, de 1958 a 1998. Em julho de 1998, ele saiu em liberdade. Sem ter para onde ir, não quis ficar longe da cadeia. Dispensou mesmo a ajuda de antigos amigos comerciantes da Avenida Duque de Caxias, que insistiam em lhe pagar um hotel para dormir. Assim, todas as noites, Lupércio dormia na própria Detenção, em um Box destinado à revista de mulheres e parentes de detentos. Os próprios agentes penitenciários lhe serviam café, almoço e janta. Eles contam que, na década de 1980, Lupércio ganhou alvará de soltura. Mas, assim que chegou à Praça da República, ele comprou uma porção de maconha, telefonou como anônimo para a polícia e disse que havia um homem negro vendendo drogas no local. O homem negro era o próprio Lupércio, e assim ele foi levado de volta para a Detenção. Foi quando recebeu o apelido de Mala. Mas talvez o velho tivesse motivos para querer permanecer no presídio. Quando voltou às ruas, em 1998. Lupércio foi logo assaltado por dois homens na saída da Estação Armênia do metrô, no centro de São Paulo. Ficou sem R$ 10,00. Dias depois, no mesmo bairro, levaram-lhe mais R$ 10,00. Condenado por tráfico, ele se assustou com a crueldade de ladrões que atacavam idosos e também com o número de crianças viciadas em crack. Em plena “Cracolândia”, nas redondezas do prédio da estação da Luz, no Centro, onde morou nos anos 50, época em que a maconha era droga mais usada. Lupércio se dizia perplexo: – Hoje eu aqui sou um estrangeiro. Me sinto um amador nesse lugar. Livre, Lupércio continuou dormindo na Detenção até falecer em 2001.” (JOZINO, Josmar. Cobras e lagartos. Rio de Janeiro: 2005, p. 101-102)

Me recordo bem das vezes que eu compareci a Detenção e vi o velho Lupércio, sua história me intrigava muito e pensei que nunca iria presenciar algo dessa natureza nas prisões que já trabalhei. Mas infelizmente eu estava mais uma vez equivocado.

Eram meados da década de 90 e eu acabei por conhecer um preso de vulgo “Sapinho”. Sapinho era um preso de porte físico pequeno, tinha cútis morena, não era negro para ser mais preciso, não estudava, nem trabalhava na cadeia. Habitava o Raio I (Raio de homossexuais, seguros e presos que estavam por terminar seu cumprimento de pena na prisão). Sapinho morava em uma cela sozinho, sozinho não porque era muito bandido, e sim porque ninguém queria morar com ele porque ele não tomava banho e exalava um cheiro forte que incomodava as pessoas. Nós desconfiávamos que ele não tomava banho propositalmente para que assim não tivesse que morar com alguém e não se envolver em nada de errado na cadeia, muito menos ser “usado” por alguma facção criminosa.

Sapinho era um preso que não possuía um bom nível de escolaridade, inclusive estava abaixo do nível da massa carcerária. Muitos de nós agentes tentávamos ver o mesmo tocar bateria na cadeia. Isso mesmo que os senhores estão lendo. Sapinho era baterista, tinha montado uma espécie de bateria com potes de plástico e restos de metais e ali embaixo da escada tocava bateria escondido de nós agentes. Não se importava quando os presos o via tocando, mas quando nós agentes tentávamos vê-lo tocando ele parava de tocar.

Uma vez “a juíza da VEC” compareceu a Unidade e Sapinho foi até a sua presença e lhe fez uma pergunta: “A senhora é a juíza da cadeia?” Ela respondeu que sim e ele disse rapidamente: “Se a senhora me colocar em liberdade eu pego uma Tereza (corda) e volto para a cadeia!” Nós a princípio estranhamos muito quando ele disse isso e só depois é que entendemos.

Chegou o dia tão esperado por todos os presidiários do mundo, o dia da tão sonhada liberdade, mas não para Sapinho. Seu alvará de soltura estava sendo cumprido, ele já tinha sido avisado, mas notamos que em seu semblante não havia manifestação de alegria, pelo contrário.

Sapinho foi acompanhado por alguns funcionários e quando o mesmo chegou ao Setor de Portaria eu vi uma cena que até hoje não me sai da cabeça. Ele perguntava ao Diretor da Unidade porque ele estava fazendo isso com ele. Foi informado que ninguém estava fazendo nada de “mal” a ele, mas que ele já tinha “pago” o que devia à Justiça. Nisso começou a chorar e dizer que não queria ir embora, que nós não podíamos fazer isso com ele, implorou por diversas vezes para ficar na cadeia, disse que não tinha mais ninguém, não tinha onde morar. Ficamos comovidos com tal situação, mas não podíamos fazer nada ele tinha que ir embora e com muito sacrifício ele foi posto em liberdade.

Estranho, pois eu achava que nunca iria passar por uma situação mais ou menos idêntica a do velho Lupércio. Posteriormente esse fato se repetiu, um preso depois de posto em liberdade quando sentiu o frio do Inverno e “bateu” fome. Pediu para voltar e não deixamos, nisso pulou o portão e a polícia militar foi acionada para levá-lo. Não sei ainda se ele conseguiu de alguma forma retornar ao cárcere.

Entendo que muitos veem que a sociedade vai os discriminar e por isso não conseguirão empregos, o cárcere não lhes dá uma profissão ou lhes capacita para tal mister, a não ser para ser mais criminoso, não é mesmo?

É uma pena, mas não vejo que ocorrerá a extinção dos “Lupércios”.

_Colunistas-Diorgeres

Diorgeres de Assis Victorio

Agente Penitenciário. Penitenciarista. Pesquisador