• 28 de novembro de 2020

O que aprendi no primeiro ano de Advocacia Criminal

 O que aprendi no primeiro ano de Advocacia Criminal

O que aprendi no primeiro ano de Advocacia Criminal

Recordo-me que ainda no primeiro dia de aula na Faculdade de Direito, como de praxe, os noviços discentes foram questionados sobre a profissão que desejavam alcançar após o término da graduação.

98% da turma respondeu, sem hesitação, que desejavam conquistar um cargo público mediante aprovação em concursos públicos.

Entre a parcela minoritária, que optaram por vislumbrar a profissão de Advogado, incluí-me.

Ao longo da jornada de um estudante é certo que sofremos questionamentos ferozes oriundos de nossa própria consciência. Dúvidas, medos, vontade quase incontrolável de desistir são cenários comuns a quase todos os estudantes.

Obviamente não deixei de sofrer com tais angústias, de modo que a medida em que ia avançando na graduação, a ideia dos concursos pareceu ser a mais sensata.

No entanto, após a experiência de estágios nos órgãos públicos pude perceber que a realidade de um servidor público estava milhas distante do que eu almejava para minha vida. Como tudo na vida, ser servidor público demanda vocação para servir. Vai muito além de ser aprovado em dificílimos certames.

Superados os conflitos vocacionais, ainda no fim da graduação, pude vislumbrar meu futuro: “- Serei, portanto, um Advogado Criminalista!”

O início de qualquer Advocacia parece, ao meu julgamento, tarefa árdua que demanda, além de conhecimentos jurídicos afiados, exige noções de planejamento de carreira, estratégias de negócio, networking, diálogo, parcerias e muita, mas muita paciência e sobretudo resiliência.

A Advocacia Criminal não mostrou-se diferente. Conquistar, sendo “tão novo” e inexperiente, a confiança de clientes que estão na iminência de perder a liberdade (isso quando já não a perderam) é uma tarefa deveras complexa.

No último ano entendi que somente argumentos técnicos não são suficientes para conquistar um provimento judicial, é necessário uma verdadeira batalha contra praticamente tudo e todos.

Entendi, igualmente, que Juiz não é bicho de sete cabeças, como muitos pintam por aí. Em verdade, Magistrados, assim como Promotores de Justiça, Delegados de Polícia, Assessores, Escrivães Judiciais etc, possuem certo poder mas, defronte de uma postura firme e escorreita, tendem a apresentar uma postura similar: demonstram respeito!

Advogado, sobretudo o Criminalista, não suplica ou implora um favor para as autoridades. Do contrário, apresenta um requerimento que, fundamentado, será deferido ou indeferido. Ao indeferimento, possuímos a via recursal que deve ser utilizada até o esgotamento, sem hesitação.

Não obstante, vivenciei o que notórios Advogados Criminalistas denunciam há tempo: A Magistratura e o Ministério Público, em muitos casos, tornam-se em uma coisa só, imbuídos em um falso senso de aplicação de “justiça”, convertem-se em uma equipe que busca, sobremaneira, coletar aqui e ali elementos que possam lastrear a condenação. Parece-me, nesses casos, que Juiz e Promotor de Justiça unem-se, por simbiose, em uma verdadeira cruzada a fim de condenar o “denunciado”, o qual já estava pré-condenado, restando somente identificar os elementos que conduzem a tal convicção pretérita.

Ainda, tem-se que a falta de empatia, cordialidade e mesmo um certo senso de compaixão, por parte de causídicos já consolidados, para com os advogados iniciantes também mostra-se um retrato cruel. Considero, particularmente, que nunca perdemos ao ajudar o próximo. Em certas circunstâncias, pequenos atos de solidariedade tornam-se em verdadeiro marco referencial na vida de jovens profissionais que, por inexperiência, podem ver-se presos em dificuldades que aos olhos dos experientes constituem verdadeiras efemeridades cotidianas.

Todavia, tive a oportunidade de deparar-me com profissionais sublimes, públicos e privados, que verdadeiramente mostram-se vocacionados para exercerem o espaço em que ocupam. Felizmente, assim como na vida cotidiana, nem tudo são lamúrias na vida do Advogado Criminalista iniciante.

Por fim, a principal lição que aprendi neste primeiro ano pode ser resumida em uma única palavra: resiliência. O jovem Advogado Criminalista precisa ser resiliente e compreender o mundo como ele é: despido de idealismos (sabe aquela regra da presunção de inocência que aprendemos exaustivamente na faculdade? Pois é, na vida real você vai aprender que ela não existe para a esmagadora maioria das pessoas!).

No dia a dia da Advocacia Criminal temos de ser pragmáticos como se jogássemos um jogo no qual a vitória nem sempre significa absolvição.

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Gleydson Andrade