• 31 de outubro de 2020

O relógio na cadeia “anda” em câmera lenta

 O relógio na cadeia “anda” em câmera lenta

O relógio na cadeia “anda” em câmera lenta

Iniciamos com uma pequena parte musical – diário de um detento – RACIONAIS MC’s:

Tirei um dia a menos ou um dia a mais, sei lá tanto faz, os dias são iguais;

Acendo um cigarro, e vejo o dia passar Mato o tempo pra ele não me matar.

Nossos antepassados já conheciam as horas do dia muito antes de o relógio ser inventado.

O relógio mecânico é uma invenção do século 14, enquanto que a divisão do dia em 24 horas surgiu por volta de 5000 a.C., na Babilônia.

O ponto-chave desse sistema numérico foi a definição do meio-dia.

Observando o movimento da sombra provocada pelo sol, os babilônios descobriram que havia um momento em que a estrela ficava a pino no céu, sem projetar sombras para os lados.

Esse momento ficou conhecido como meio-dia. Os babilônios então dividiram o restante da trajetória da sombra em 12 partes: seis antes do meio-dia (manhã) e seis depois (tarde).

Estava criada a divisão do dia em 24 partes (horas) – a outra metade, claro, era a noite. Para fazer essa marcação da trajetória da sombra, os babilônios criaram o relógio de sol.

Mas e o tempo no sistema prisional? Será que os detentos cercados por grades e personalidades desconhecidas, com vestimentas uniformes, rotinas homogêneas, possuem a noção de tempo?

O lapso temporal dentro do cárcere possui a mesma rotatividade que fora dele?

Historicamente as prisões surgiram com o objetivo de domesticar os corpos; foram idealizadas como casas de correção com a finalidade explícita de regeneração, de acabar com a decadência moral.

Inegável a vulnerabilidade das prisões que provoca um comprovado fenômeno de envelhecimento no cárcere.

Sabe-se que o tempo perde sua unicidade e que ele age multifacetadamente na sociedade, todos aqueles que se acham inseridos nela sofrem sua intervenção.

Porém, o efeito sofrido por quem se encontra livre nesse tempo social não é o mesmo daquele que se encontra privado de sua liberdade.

Parece óbvio, mas não é percebido que o tempo objetivo passa igual para os que vivem fora dos muros e para os que estão atrás dos muros. Porém o tempo subjetivo para ambos se mostra incompatível.

Temos um tempo social para os que estão do lado de fora das muralhas, o qual se mostra progressivo, criador, cheio, enquanto temos um tempo encarcerado, que tem características diametralmente opostas, pois se mostra um tempo regressivo, improdutivo e vazio.

Ou seja, o tempo do cárcere sem dúvidas não é o tempo do mundo, não se conta pela divisão de 24 (vinte e quatro) horas do relógio mecânico e as vezes tampouco pelo relógio solar, não se mede pelo calendário gregoriano com 12 (doze) meses por ano.

O tempo objetivo ou seja, aquele que podemos medir, tal como o utilizado pela física e que precede a matéria bem como obedece à lei da entropia, já o subjetivo, o qual não medimos, é o tempo que sentimos e esse sem dúvidas é sentido com olhar de choro pelos detentos.

A marcação do tempo é uma construção humana e a prisão é uma construção que consegue captar essas duas formas do tempo, sendo que a parte objetiva é a medição da pena, a duração do cumprimento, enquanto que a subjetiva é a forma como o indivíduo encarcerado percebe o passar do tempo.

O apenado ao ingressar no cárcere pára no tempo – esta é sua pena – mas não se isola da sociedade e, em especial, não se isola do mundo criminoso. O sistema carcerário não é suficientemente seguro para evitar que o desviante continue a interagir com seus companheiros de empreitada criminosa, assim como a política de segurança pública brasileira ainda não encontrou uma forma de (re) socializar aqueles que não fazem questão de serem (re) inseridos na sociedade.

Já dizia Messuti,” os muros da prisão não marcam apenas a ruptura no espaço, senão também uma ruptura do tempo”.

O tempo é elemento constitutivo inafastável do nascimento, e conclusão do processo, mas também na gravidade com que serão aplicadas as penas processuais, potencializadas pela (de) mora jurisdicional injustificada.

O Estado tido como penitenciarias/encarceramento já tomou, ao longo da história, o corpo e a vida, os bens e a dignidade do homem. Agora, não havendo mais nada a retirar, apossa-se do tempo, para outros a escória social – dos teoricamente inocentes ou não laçados.

A prisão se transforma num templo (redoma) para proteger o preso da sociedade ou a sociedade do preso?

Certamente esta última assertiva é a mais difundida e propositadamente a mais aceita.

Do ponto de vista do preso, a pena temporaliza o sujeito em uma carga diária de repetição (rotina, ócio), fruto da quebra da liberdade que a pena impõe, sem discussão dos seus termos.

O preso, nessa dedução, inevitavelmente tende a refletir sobre o futuro, porque já perdeu parte do seu passado e o presente para ele inexiste. Já o tempo, nessa escala, acaba por afetar o preso, não no tempo objetivo (reprimenda jurisdicional), mas sim no tempo subjetivo (consciência) na medida em que os anos serão longos e a inquietude da sombra da pena, neste ambiente de segregação, será seu tormento.

O tempo na prisão se resumem em grades a fio. É uma corrida cuja a linha de chegada é o sol no fim do túnel.

Subjetivamente, o tempo pode ser distendido, vivido como muito lento ou muito rápido, dependendo da situação. Por exemplo: numa partida de basquetebol, ele parece se esgotar muito depressa para o time que está perdendo por uma diferença mínima, e muito lentamente para o que está vencendo sob forte pressão do adversário.

Um ano numa prisão tem um sabor temporal diverso de um ano vivido no livre exercício da cidadania, no trabalho e no lazer.

Quem não sonhou paralisar ou eternizar um momento de êxtase amoroso, de suposta felicidade? Ou quem não desejou apressá-lo, para escapar de uma situação cuja sequência se tornaria insuportável?

Fato é, o tempo na cadeia anda em câmera lenta, todavia, o tempo também pode ser a única esperança de quem já perdeu os sonhos.

REFERÊNCIAS

MESSUTI, ANA. O tempo como pena. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2003.

DUMONT, J. P. Elementos de história da filosofia antiga. Brasília: EdUnB, 2005.

GHIGGHI, Marina Portella. Envelhecimento e cárcere: vulnerabilidade etária e políticas públicas. In: Mais 60. Estudos sobre envelhecimento. Vol. 29, nº 71, agosto 2018.


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