• 21 de outubro de 2020

O rio triste

 O rio triste

O rio triste

Uma morte misteriosa de um homem comum na Lisboa dos anos 60 dá início à narrativa de O rio triste, do escritor português Fernando Namora. André, um escritor em busca de inspiração para um novo livro, acaba se envolvendo na busca por Rodrigo dos Santos Abrantes, o homem que desaparece misteriosamente:

No dia 14 de novembro de 1965, nesta cidade de Lisboa, um homem saiu cedo de casa e já não voltou. Nesse dia e nos que se seguiram. Também não o viram mais no emprego. Chamava-se, ou chama-se (pois há quem pense que o caso não foi suficientemente deslindado), Rodrigo dos Santos Abrantes. (NAMORA, 1982, pg. 5).

A esposa, Teresa, demora a chamar a polícia, temendo escândalo. Mas Rodrigo não reaparece, e ela toma tal decisão. Os jornais começam a procurá-la para comentar o estranho caso. André, narrador e personagem, mostra como a imprensa cria histórias e heróis:

Os jornais não pegaram no caso às primeiras. Por desconhecimento dos fatos e, mesmo que assim não fosse, porque Rodrigo não era ninguém. Nessas circunstâncias, seria preciso que a própria imprensa criasse a notícia e criasse o herói. (Idem, pg. 23). 

A narrativa vem aos pedaços, da memória de André, muitos anos depois do sumiço inexplicável de Rodrigo. Na Lisboa dos anos 60, em meio ao regime de Salazar, intelectuais em geral sofriam perseguição do regime. A imprensa sofria grandes restrições. Muitas pessoas migravam para outros países da Europa, como Marta, jovem com quem André vivia um romance de idas e vindas, mesmo sendo casado com Dorita. 

É através do círculo de intelectuais e jornalistas que frequenta que André toma conhecimento do misterioso sumiço de Rodrigo. Resolve então acompanhar o jornalista que investiga o caso. Conhece Teresa, a esposa, que descreve em detalhes a roupa que o marido usava, uma gabardine, detalhe fundamental para a solução. Teresa, sabendo que ele é um escritor de certo renome, mostra-lhe os diários de Cecília, a filha adolescente, com quem tem uma difícil convivência. 

O rio triste

A matéria sobre o desaparecimento de Rodrigo é publicada. André continua a visitar Teresa, em busca de uma história para um provável livro. Teresa perde as esperanças de que o marido esteja vivo. 

Na Judiciária o interrogatório teve as mesmas praxes, quase a mesma sequência, embora os pormenores fossem mais esmiuçados, às vezes com uma artimanha de permeio, fazendo-a sentir-se cúmplice de um obscuro delito. No fim, Teresa achou-se desnuda, a vida dela e de Rodrigo deixara e lhes pertencer. (Idem, pg. 53).

Quando a Polícia encontra a gabardina usada por Rodrigo e está é reconhecida pela esposa, os jornais entram em disputa para cobrir a história. Ferreirinha, conhecido de André e primeiro jornalista a dar atenção aos fatos, vive seus dias de estrela. Naquele pequeno círculo de escritores, jornalistas e intelectuais frequentado por André, havia mais rivalidade do que amizade. Ferreirinha vive então seus dias de glória. 

Em poucos dias, o mistério chega ao fim. Mas antes, André se choca com a morte de Farias Gomes, um de seus poucos amigos, que estava em uma doença terminal. Sua companheira, Bia, suicida-se em seguida. Como amigo leal, André é chamado a reconhecer os corpos. 

Então, dois corpos são encontrados no rio Tejo no mesmo dia da morte de Farias Gomes, em 25 de novembro de 1965. Um deles é reconhecido depois de uma autópsia como o de Rodrigo.

E então, nem os jornais, nem a esposa Teresa, nem André, nem a Polícia, tem um panorama completo do que houve. A morte fora por afogamento. Não havia qualquer razão para suicídio. Rodrigo, homem comum, de poucos amigos, vivia de casa para o trabalho. Quem o mataria? Tampouco estava envolvido em grupos oposicionistas ao Governo.

Então o caso é encerrado pela Polícia, sem solução. André não se conforma com a falta de respostas. Duvida das conclusões da Polícia. Ele, André, em muitas entrevistas com Teresa, sabia que Rodrigo sempre fazia a travessia do Tejo nas carreiras do Barreiro, e não nas carreiras de Cacilhas, o ponto em que o corpo fora encontrado.

A polícia errou? Justo naquele dia Rodrigo pegou um caminho diferente? André sabe que a polícia fizera uma investigação superficial, mas todos perdem interesse na história. Teresa chama o relatório policial de “palhaçada”, mas já não há o que fazer. Rodrigo está morto, e ninguém, nem a polícia nem os jornais, sabe dos porquês. 

André tenta escrever um romance com a história de Rodrigo, de Teresa, mas não sai do lugar. Dali a muitos anos, ele ainda quer uma resposta:

Querem que visitemos as instalações da Pide, último reduto do salazarismo, donde os secretas fugiram por galerias subterrâneas, (…).

– Desculpe, afinal estou interessado num certo dossier. Se ele existir, claro.

– O nome, eu procuro.

– Rodrigo dos Santos Abrantes.

Lisboa, 1 de novembro de 1981.


REFERÊNCIAS

NAMORA, Fernando. O RIO TRISTE. Editora Círculo do Livro. São Paulo: 1982.


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Maria Carolina de Jesus Ramos

Especialista em Ciências Penais. Advogada.