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O sétimo filho do sétimo filho: crenças mortais

o sétimo filho do sétimo filho

O sétimo filho do sétimo filho: crenças mortais

Montaigne afirmava que o medo do desconhecido é o maior de todos os males que assombram a humanidade.

Esse pavor se posiciona e se corporifica ganhando vida em forma de um monstro, decadente, abominável; porém completo em seus essenciais propósitos de perversidade.

A literatura pintou esse mal com maestria, demonstrando todas as suas características ofensivas à vida que se habitua, em sociedade. Através de seus esboços representativos do mal que assombra a humanidade, sempre associado às figuras monstruosas cobertas de visgo, simulou um semblante do mal, mas nunca apresentou sua carapuça mais autentica.

Isso pelo simples motivo de que essa perdurante e diabólica perversidade está diretamente associada ao tempo em que se vive, pode-se ter um esboço do mal através da deformidade, mas não obtém sua mais incontestável reprodução.

Desse modo, o mal representado pode ter a forma de um maligno monstro, ou ser, de toda maneira, a corporificação de um determinado período cultural que se assoma aos medos mais substanciais do homem.

O monstro é a metáfora daquilo que não é conhecido, do precipício ou da escuridão que reina em determinado ambiente. Mas pode ser também a representação da ignorância, do não saber e do desconhecido.

E foi dessa forma que algumas crenças na Idade Média tomaram proporções inflexíveis e irreparáveis. A partir de uma convicção moldada pelo pavor e pelo medo vivente em um período cultural, a força excludente do poder estabelecido vigorou por suas crenças contra determinados “monstros” pré-moldados e fabricados.

Essas “criaturas” foram caçadas impiedosamente, esfoladas, queimadas vivas, crucificadas e empaladas, tendo a flagelação um fator pedagógico: distanciem-se dos homens de bem e de boa qualidade, vocês, estranhos de toda ordem.

Bruxas, magos, lobisomens, filhos com poderes mediúnicos, invocadores do demônio, todos que caminhavam contrários à religião dominante estavam fadados a um desses lancinantes fins.

A criação de monstros parte da diferença, quando o outro abominável ou o gerador dos medos daquilo que não é conhecido, por aquele também desconhecido, é tão voraz e capaz de engendrar regras de condutas bem como, manuais para identificação do maligno e do malfeitor.

Em Malleus Maleficarum, de 1487, Kramer e Sprenger conseguiram, engendrando o poder do medo, desenvolver uma tese muito bem aceita em sua época, de como identificar e matar bruxas, em crenças mortais aceitas como legitimas.

Da mesma forma, na Idade Média, na Inglaterra e na Irlanda, uma outra crença passou a identificar um mal que teria suas origens em diversas estruturas de corporificações do medo alheio. Uma delas, a crença mortal de que a licantropia (transformação de pessoa em lobo), poderia levar a sociedade dos homens ao desastre e ao iminente fim.

O sétimo filho do sétimo filho

Assim nasce a lenda do sétimo filho do sétimo filho. A banda britânica Iron Maiden lançou em 1988 um álbum inteiro de estúdio com esse nome, para tratar da lenda.

Filmes também retratam o mito em um salvador ou destruidor, isso dependerá da conveniência do momento e do tempo vivido.

Em uma época onde contraceptivos e anticoncepcionais não existiam, pois prevalecia o conhecimento mínimo acerca das aptidões da ciência, uma mulher ter sete filhos era algo comum. Reza a lenda britânica que o sétimo filho do sétimo filho teria poderes extraordinários, para o bem ou para o mal.

Nesse sentido, a busca do lado ao qual deveria seguir seria aleatória; ou o filho seria seduzido pelo mal, ou teria poderes mediúnicos, de cura e de filantropia.

A caça pelo sétimo filho do sétimo filho tornou-se algo comum na Inglaterra do século XVI e XVII, quando o medo e o pavor moldaram toda a estrutura em oposição a esses desafortunados. As crianças eram caçadas, retiradas de seu lar e mortas.

O crescimento da força da Igreja Católica demonizava as lendas sobre lobisomens e pragas pagãs, depreciando o mito do homem mágico, o filho do sétimo filho, das bruxas, bem como, dos pobres e desvalidos.

Na Idade Média, as pessoas que sofriam com as crises econômicas cometiam feitos bárbaros, como devorar o outro, em atos de canibalismo, para saciar a fome.

Tais pessoas eram referidas pelo poder e pela igreja como portadoras de uma peste, uma praga da alma cuja maldade se revelaria em determinada fase da lua, e que por sua indomesticável natureza, deveriam ser pulverizados da terra, pelas armas determinadas pela santa igreja. A conveniência em livrar-se desse tipo de miserável era maior do que qualquer outra resolução possível.

Dessa forma, a fome, a escassez, a conveniência, a ignorância e o medo do outro determinaram, em um período de tempo especifico, quem deveria morrer em nome de um bem maior.


REFERÊNCIAS

DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos, e os outros episódios da história cultural francesa. Tradução de Sonia Coutinho. Rio de Janeiro: Graal, 1986.

DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente 1300 – 1800: uma cidade sitiada. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Ed. Unicamp, 1994.

MEDEIROS, Elita de. Imaginários em diálogo: a lenda do lobisomem em uma perspectiva bakhtiniana como resgate de narrativas folclóricas. 2006. 149 f. Monografia. Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL, 2006.


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Autor

Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.
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