• 27 de setembro de 2020

O tempo e o vento – O continente

 O tempo e o vento – O continente

O tempo e o vento – O continente

Obra mais famosa do gaúcho Érico Veríssimo, a trilogia “O tempo e o vento” segue relevante. A colonização brasileira, o papel da mulher, o machismo atribuído como marca do homem gaúcho, a civilização indígena, nenhuma questão da história e política nacionais fica de fora da análise imperiosa de Veríssimo.

Ao longo de duzentos anos, a estória acompanha toda uma família, Terra/Cambará, com uma galeria inesquecível de personagens, e um punhal de prata que vai passando de geração a geração, entranha herança que une todos os membros da narrativa. A estória não linear vai e volta no tempo, diferentes vozes se somam a fim de formar um todo coeso.

O marco zero da narração é abril de 1745, quando padre Alonzo, um jovem padre espanhol da Companhia de Jesus, de uma missão no Rio Grande, acolhe uma jovem índia grávida. Fica subentendido que a moça foi vítima de violência. A moça morre, deixando o bebê para ser criado pelos padres da Missão. Esse jovem índio será Pedro, pai do filho da matriarca Ana Terra.

O pano de fundo da narrativa do jovem Pedro e de seu salvador Padre Alonzo é o papel ambíguo exercido pela Companhia de Jesus na questão indígena, questão também abordada por Freyre em Casa Grande & Senzala.

Ao mesmo tempo que a Companhia de Jesus atuava como um escudo protetor, protegendo os indígenas de ataques e guerras contra os colonizadores portugueses e espanhóis, a catequização forçada tirou dos indígenas a fórceps sua própria cultura.

O fato dos índios adultos trabalharem nas missões também não ficava muito longe do trabalho escravo dos africanos nas estâncias e fazendas, desmistificando a generalização de que o povo índio não sofreu com os males do trabalho forçado:

Às oito horas os índios que trabalhavam nas plantações e na estância reuniram-se como de costume na frente da igreja e padre Alonzo fez-lhes uma pequena preleção. Disse-lhes que se colhessem muito trigo, teriam muita farinha; se tivessem muita farinha dariam serviço ao moinho; se o moinho trabalhasse, os padeiros poderiam fazer muito pão; e se todos tivessem muito pão, ficariam bem alimentados; e se ficassem bem alimentados Deus ficaria feliz.” (O tempo e o vento – O continente, pg. 45).

Criado pelos padres, Pedro aprende latim, a ler e a escrever, num tempo em que muitos brasileiros brancos e livres não tinham qualquer instrução. Um dia, cansado da vida na Missão, foge, e depois de muitas andanças vai parar na estância do pai de Ana Terra.

Matriarca da família Terra, Ana Terra é quase um símbolo, um retrato do que significava ser mulher naqueles tempos. Veríssimo é visto como um dos escritores que abordou com mais ênfase o papel reservado à mulher na sociedade brasileira, uma sociedade patriarcal e machista desde o Brasil Colônia.

Morando com a família numa estância perdida nos confins de Rio Grande, sob o manto de um pai autoritário e uma mãe benevolente, porém submissa, Ana não tem vida. Sua rotina desde a adolescência é trabalhar e obedecer, mesmo que ela discorde.


Acordava e pulava da cama, mal raiava o dia. Ia aquentar a água para o chimarrão dos homens, depois começava a faina diária: ajudar a mãe na cozinha, fazer pão, cuidar dos bichos no quintal, lavar a roupa. Por ocasião das colheitas ia com o resto da família para a lavoura e lá ficava mourejando de sol a sol. (Idem, pg. 103.)


Naquela casa nunca entrava nenhuma alegria, nunca se ouvia uma música, e ninguém pensava em divertimento. Era só trabalhar o quanto dava o dia. E a noite – dizia Maneco – tinha sido feita para dormir. Que ia ser de Ana, uma moça, metida naquele cafundó? Como é que ia arranjar marido? Nem ao Rio Pardo o Maneco consentia que ela fosse. Dizia que mulher era pra ficar em casa, pois moça solta dá o que falar. (Idem, pg. 109).


A esperança de mãe e filha era o casamento de Ana, nem tanto pelo aspecto romântico, mas como única forma aceitável de uma jovem deixar a casa dos pais e, quem sabe, ter uma vida melhor. Essa saída deixa de existir quando Ana engravida de Pedro, o jovem índio.

Em nome da “honra”, Pedro é assassinado, deixando para Ana o simbólico punhal de prata, que ganhara quando menino de padre Alonzo. Ana fica na estância aos cuidados da mãe, sofrendo maus tratos dos pais e irmãos pelo seu “crime”. Depois da morte da mãe, Ana fica desamparada, tendo como único consolo o filho.

Pedrinho nasce, herdando o nome do pai que nunca conheceu. Mas a maior tragédia ainda estava por vir. Atacados por bandidos castelhanos, os homens da família são assassinados. Ana é violentada pelo grupo de bandoleiros, tragédia que marcará para sempre sua vida e a sua visão de mundo. Pedrinho, a cunhada Eulália e a filhinha desta se salvam ao correr para o mato.

Ainda jovem quando da tragédia, Ana entende que morreu para sempre. Nunca irá se casar, nunca irá amar e ser amada, nunca mais vai ser feliz. Tanto com a gravidez fora do casamento e o tratamento que recebeu de sua família, como depois da violência sofrida, entende o quão limitado e triste é o papel reservado à mulher em sua sociedade.

Após a tragédia, os sobreviventes acompanham um grupo de viajantes até o povoado de Santa Fé. Ali se estabelecem. Pedro cresce e se torna um homem respeitado, pai de família. Ana é respeitada pela sua comunidade, pela sua força moral e coragem. Ela nunca se casou, nunca contou a ninguém sua dor. Pedro pouco ou nada sabe de seu pai, e evita tocar no assunto. Entende, de maneira intuitiva, que o passado de sua mãe era doloroso.

Pedro Terra é um homem, no fundo de sua reserva, tão triste quanto a mãe:

Pensava na vida que a mãe levara e agora ali em sua casa repetia para si mesmo a pergunta que se fizera no cemitério diante do túmulo materno. Valia a pena lutar, sofrer, trabalhar como um animal para depois ir servir de comida aos vermes da terra? (Idem, pg. 250).

Pedro Terra tem dois filhos, Juvenal e Bibiana. Quando Ana Terra vê a neta, murmura: “Mais uma escrava” (Idem, pg. 198). Pedro se torna um homem bondoso, porém extremamente reservado, marca da família Terra.

O tempo passa. Ana morre, deixando todos desamparados, especialmente a jovem Bibiana. Através de Bibiana, mais uma vez o papel da mulher naquela sociedade patriarcal será posto em questão. Sem frequentar colégio, com uma instrução limitada às prendas domésticas, numa sociedade de homens rudes, havia poucas possibilidades para uma menina:

Criar filho homem era mais fácil e menos arriscado. Juvenal estava casado, vivia a sua vida: tratava-se duma questão resolvida. Mas com Bibiana a coisa era diferente. Estava com vinte e dois anos numa terra em que as moças se casavam às vezes com quatorze ou quinze.

Bibiana recusa um pretendente rico e arrogante, o jovem Bento Amaral, porque se apaixona pelo recém-chegado capitão Rodrigo. A oposição do pai, a reserva do irmão, o sensato Juvenal, de nada adiantam. A moça insiste no casamento.

Capitão Rodrigo é o retrato do homem gaúcho. Sua chegada vira o povoado de cabeça para baixo. Fanfarrão, bom de copo e de briga, colecionador de estórias e de mulheres. Juvenal Terra se torna um de seus grandes amigos. Sua paixão por Bibiana é sincera, mas não dura. O casamento é um desastre.

Rodrigo é negligente com a mulher, com os filhos do casal, com a loja de secos e molhados que abriu em sociedade com Juvenal. Trai a moça a torto e a direito, coleciona casos e mais casos. Vive bebendo com os amigos. Bibiana entende que seu papel é suportar a situação com o máximo de dignidade e decoro.

Rodrigo morre na Guerra dos Farrapos, acontecimento histórico marcante do Rio Grande. Forte como sua avó, Bibiana cria seus dois filhos sozinha, e nunca torna a se casar.

Um salto temporal encontra uma Bibiana transformada em matriarca. Seu filho Bolívar se casa com uma moça rica, recém-chegada à Santa Fé, Luzia Silva. Um dos personagens mais interessantes da estória, o alemão dr. Winter, entra em cena. Médico da família, grande amigo da velha Bibiana, as reflexões de Winter se tornam o fio condutor da narrativa. Seu olhar de homem culto e estrangeiro sobre aquela sociedade atrasada e patriarcal é extremamente crítico:

De que feitos espirituais se podia gabar aquela áspera sociedade pastoril que florescia – se é que se podia no caso usar este verbo – no tão gabado “Continente” de dona Bibiana? Onde estavam seus artistas, seus cientistas, seus pensadores? Até aquela data Winter não vira um único livro impresso na província. (Idem, pg. 506).

A ignorância da elite é demonstrada pelo personagem dr. Nepomuceno, o juiz de Direito:

Finalmente o juiz conseguiu uma frase que lhe pareceu à altura do assunto, do momento e do interlocutor.

– Pois digam o que quiserem, eu cá acho que um povo latino como o nosso deve…

O médico soltou uma risada e avançou para o juiz:

– Latinos os homens desta província?  – exclamou. – Ach, mein lieber Got! Acha então o doutor que os gaúchos descendem dos romanos?

– Ora! – fez o dr. Nepomuceno, que estava muito vermelho e agitado. – Ora! (Idem, pg. 506).

Nesse cenário de mulheres fortes, porém restritas ao papel de matriarcas, Luzia Silva vem destoar completamente. Rica, estudada, criada na corte, mimada, entra em pé de guerra com a sogra Bibiana. Embora suas atitudes com o marido e a sogra sejam profundamente questionáveis, Luzia é inteligente e tem consciência do papel da mulher naquele povoado:

– Mas é verdade, Bolívar! – replicou Luzia. – Veja bem, doutor, a ideia dos gaúchos em geral é a de que o cavalo e a mulher foram feitos para servir os homens. E nós nem podemos ficar ofendidas, porque os rio-grandenses dão muito valor aos seus cavalos…

Winter no fundo estava disposto a concordar com Luzia, mas achou melhor dizer:

– Vosmecê está exagerando um pouco. (Idem, pg. 536).

O casamento de Luzia e Bolívar é curto e tumultuoso. A jovem é mimada, arrogante com os escravos e, sabendo que é o dinheiro de sua herança que mantém a casa, deixa bem claro que todos vivem às suas custas. Foi o dinheiro da moça que fez a sensata Bibiana incentivar o casamento, embora a paixão do filho fosse sincera. Juvenal Terra, convertido em um idoso tão sábio e correto quanto seu pai, sem a melancolia daquele, assiste a esse desastre com incredulidade:

– Sou um homem muito ignorante.

O alemão sorriu:

– Não diga isso, seu Juvenal. Eu queria saber a metade do que vosmecê sabe. (…)  É tão bom doutor que mesmo de longe percebeu que havia alguma coisa errada naquele casamento. (idem, pg. 522).

Bolívar é assassinado por capangas de Bento Amaral, o chefe político da cidade. Amaral nunca esqueceu a recusa de Bibiana na juventude, e odiava o filho do seu antigo desafeto.

Luzia recolhe-se à sua viuvez. Diante da frieza da nora, o neto é criado inteiramente por Bibiana. Luzia morre de câncer, ainda jovem.

Licurgo, o neto, vira um homem reservado e inteligente, bastante interessado em política. Ele e seus amigos fundam um jornal com ideias republicanas, entrando em conflito com a família Amaral, a oligarquia mais antiga de Santa Fé. Casa-se com a prima Alice, a filha de Florêncio, que por sua vez era o herdeiro do sábio Juvenal. Juvenal e sua esposa morrem de uma terrível doença, restando apenas Bibiana e Winter do antigo círculo.

O casamento de Licurgo era apenas para agradar sua avó, a quem amava como sua verdadeira mãe. Todos sabiam, inclusive a esposa, que ele mantinha a jovem Ismália, sua paixão de juventude, numa casa na cidade.

Depois de tantos anos, Bibiana e Winter continuam grandes amigos. Testemunhas da passagem do tempo, guardam os segredos do passado:

Lado a lado e silenciosos, os dois amigos voltaram a passo lento para a festa. (Idem, pg. 834).

Homens e mulheres, ricos ou pobres, a questão central da obra é se viver vale a pena, num mundo com tantas limitações à felicidade. Nas palavras do velho Fandango, um dos empregados da família Terra/Cambará:

O mundo é mesmo um circo, dona. Tem de tudo. Burlantins que viram cambota, equilibristas, os que fazem pirueta em riba de um cavalo, os palhaços. E quem nasce pra palhaço, como eu, morre palhaço e nunca endireita. – Neste ponto o dr. Winter, que observava o velho, julgou perceber-lhe no tom da voz uma pontinha de tristeza. (Ou estaria fantasiando?). (Idem, pg. 795).


 REFERÊNCIAS

VERÍSSIMO, Érico. O tempo e o vento – O continente. Círculo do Livro LTDA. 1978.

Redação

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