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6 obras filosóficas e literárias fundamentais ao estudo inicial da Criminologia (Parte 2)

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Continuando as indicações de obras filosóficas, literárias e sociológicas fundamentais ao estudo inicial da criminologia (leia a parte 1), as próximas sugestões seguem o estilo das primeiras. Mas revelam a arte da literatura e a arte de viver a vida em transformações que podem ocorrer na aventura da existência de cada um de nós.

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Podemos observar que, quando causalidades ou imprevistos acontecem, inúmeras maneiras de interpretar/reinterpretar a vida são validadas por aquilo que está ocorrendo. Assim é a vida; assim é o Direito. E, dessa forma, também o é a literatura.

1) O Cortiço (Aluísio Azevedo)

Fundamental obra da literatura brasileira, Aluísio Azevedo consegue captar de maneira única a formação de uma comunidade dentro da sociedade, onde os trejeitos, as manias, vícios e cultura próprias passam a marcar tal agrupamento de pessoas como as reais moradoras do cortiço. Importante salientar que a obra gira em torno das pesquisas da Escola de Chicago, em sua segunda geração, quando os estudos acerca o interacionismo simbólico surgiram. O estigma (Goffman) que recai sobre os moradores do local e ainda, as diferenças que são apontadas entre esses e os outros viventes ao redor, mas que não perfazem as linhas do cortiço, são exímios aparatos de seleção e classificação de que versam as pesquisas da criminologia moderna. Vale ainda ressaltar, a criação das comunidades do Rio de Janeiro, em sua mais pura raiz, pelos olhos do Cortiço.

2) Memórias do Cárcere (Graciliano Ramos)

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Preso em 1936 por conta de suas influências políticas, quando do ápice da Intentona Comunista iniciada um ano antes, o autor sentiu o que é ser privado de suas liberdades totais quando foi levado de Maceió ao Rio de Janeiro, passando por diversas instituições prisionais. A acusação nunca fora formalizada, mesmo assim, a injustiça ocorreu à Graciliano Ramos como maneira de contar os acontecimentos dentro do cárcere aos outros. Assim, em uma de suas obras lançadas postumamente, o autor relata a vida na prisão, desde as companhias que com ele viveram naquele período de um ano de clausura como as misérias e imundícies, ficando sem alimentos durantes dias devido à insalubridade e falta de higiene das prisões em que ficava preso. Relato essencial e que nos move a compreender que mudanças não ocorreram, apenas a piora do setor carcerário, sempre precário e desumano o mais possível que pode ser.

3) Angústia (Graciliano Ramos)

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Muitos comparam a obra, ou o desenvolvimento de sua trama, com Crime e Castigo do escritor russo Dostoievsky. O próprio Graciliano Ramos, com veemência rebateu a comparação, tanto de escrita quanto da história que contava, asseverando que nunca foi seu intento se “comparar aos gigantes”. De fato, a obra do autor russo parte do crime para as angustias do personagem, em Ramos, o crime é o auge, todavia, até seu momento derradeiro, as angustias desolam o personagem principal. Escrito em 1936, quando ainda em cárcere, o autor narra a história de angústia de Luís da Silva, de devido aos acontecimentos de sua triste rotina, se vê sob os pensamentos de vingança contra seu desafeto, Julião Tavares. As apreensões, ansiedades e as angustias crescem no personagem, que busca livrar-se desses sentimentos com a vingança. No fim, Graciliano Ramos confirma que teve influencias dos grandes escritores russos em suas obras, todavia, Angústia é sem dúvidas nenhuma, uma obra de arte única e sem precedentes. Importante para desvendar e estudar os detalhes, concepções e motivações de um crime.

4) Édipo Rei (Sófocles)

Escrita na Grécia nos períodos de 427 a.C. a tragédia de Édipo nos leva a crer na artimanha do acaso, que sobrevém a todos. A vida é definida por escolhas e aquelas que marcam a pessoa são as realizadas em momento ímpar, único e precioso. Foi assim que Sófocles enxergou em Édipo uma forma de nos avisar que nossas escolhas permanecem para sempre. Aquele que planta chuva certamente irá semear tempestades. Todavia, Édipo não semeou o mal, mas desde o início está determinado aos eventos a seguir, tomando o mesmo caminho o qual tentava evitar. Freud, ao estudar a obra, criou o Complexo de Édipo, que define as relações de poder entre pais e filhos, descrita em seu estudo Totem e Tabu, de 1913. Michael Foucault, a partir de Édipo Rei analisou as estruturas judiciais da Grécia antiga em seus estudos sobre A verdade e as formas jurídicas. Por tudo isso e por seu envolvente enredo, faço Édipo Rei fundamental nestas listas que proponho.

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5) O Mercador de Veneza (William Shakespeare)

Impossível, numa lista que pretende relatar obras que incitem ao estudo da criminologia, deixar de lado as intempéries de Bassânio, Pórcia e Antônio. A interpretação “do doutor em direito” na obra sobre o contrato inicialmente firmado por Bassânio e o judeu Shylock é uma das mais famigeradas que se tem notícia na história da literatura. Tal exegese em nada revela fatos ou atos jurídicos em si, mas o puro entender de um contrato que se envolve com as leis do local. Assim, o próprio contrato torna-se nulo devido ao costume e leis de Veneza, “o sangue não poderia ser derramado”. Não serei vil a contar a história, que deve, por sua sabedoria e por sua arguta trama lida por todos aqueles envolvidos nas artes jurídicas. Um prato cheio para estudos que evidenciam as validades dos contratos, a desumanidade dos contratos e a pura interpretação das palavras de um contrato.

6) O Senhor das Moscas (William Golding)

A maior jogada do autor norte americano para sua obra publicada em 1954 foi simbolizar, de uma forma mitigada, todos os personagens e todos os acontecimentos que ocorrem na paradisíaca ilha onde foram parar um grupo de crianças após a queda do avião que as levaria para longe dos conflitos de uma guerra iminente. Aqui podemos acompanhar a formação das estruturas de uma pequena sociedade, mesmo que ainda de forma a engatinhar sobre suas próprias vontades e rumos, mas com fortes tendências de sobrevivência em um mundo onde a natureza do mal pode estar escondida em cada um de nós. Essencial para estudos da formação de um pequeno agrupamento de pessoas que decidem, mesmo em sua tenra idade, buscar o melhor caminho a ser tomado. O senhor das moscas é a imagem do Mal que vive no homem e que pode ser desencadeado dependendo de inúmeras situações que o deflagre.


Espero mesmo que estas listas de indicações possam auxiliar ao proveito do estudo da criminologia, trazendo cada vez mais adeptos à reflexão dos acontecimentos do nosso tempo, com os atributos da percepção e os cabedais da experiência, o que somente os estudos e análises de obras diversas podem dar. Boa leitura!

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