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Olhos que condenam: quando a perversidade humana se manifesta através das instituições

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Olhos que condenam: quando a perversidade humana se manifesta através das instituições

‘Olhos que condenam’ foi a série mais vista durante 12 dias, segundo informação da Netflix.

A história retrata um caso real, considerado o maior erro do judiciário norte-americano, ao condenar 5 adolescentes pelo estupro de uma executiva, que corria no Central Park na noite de 19 de abril de 1989.

Embora o julgamento dos adolescentes só ocorra nos dois últimos capítulos, o nome da série já é um spoiler do resultado. 

O veredito condenatório é só a consequência da perversão humana manifestada através das instituições, no caso a Polícia e a Promotoria de Nova York, que se valem de violência psicológica e coerção para forçar os cinco adolescentes a confessarem o crime, sob a promessa de que só assim iriam para casa.

A Polícia, de forma maliciosa, enfia versões e detalhes do crime goela a baixo dos adolescentes e os faz confirmá-las, assumindo a autoria do crime. 

No julgamento, a promiscuidade da instituição acusadora, na pessoa da Promotora-chefe do caso, é uma extensão do mal feito da polícia: as confissões são exibidas aos jurados como prova fatal de autoria, mesmo sem quaisquer indícios materiais que os coloquem na cena do crime.

Pior: em dado momento do julgamento uma testemunha confirma que os DNA encontrados nos pertences da vítima não correspondem ao de nenhum dos réus. Porém, diante do apelo acusatório, esse fato se torna coadjuvante do protagonismo que maliciosamente é dado às confissões.

A série retrata um grande erro judiciário norte-americano consumado a partir do racismo incontestável que permeia as instituições. 


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Mas o que choca ainda mais é que o erro é intencional: fica claro que a Promotora-chefe sabia da fragilidade e inconsistência da versão acusatória que apresentava; contudo, contaminada pelo racismo enraizado (traduzido na crença de que vidas negras não importam ou importam menos) somado a vaidades pessoais e ao anseio de reafirmar perante a sociedade a relevância da instituição da qual faz parte, leva a cabo uma acusação da qual ela própria desacreditava. 

O que choca ainda mais é que, apesar de toda a ilegalidade das confissões plantadas e a completa inexistência de provas materiais que ligassem os menores ao crime, a tardia absolvição deles não se deu por qualquer reanálise por parte das Instituições, mas unicamente porque o verdadeiro autor do crime resolveu confessar a autoria. 

Não fosse isso, os adolescentes carregariam a responsabilidade até hoje.

Paralelamente às nefastas consequências de uma condenação injusta (que jamais se restringe à pessoa do acusado, mas atinge amigos e familiares), o que fica muito claro ao se deparar com esse caso é o quanto a perversidade humana se potencializa quando manifestada através das instituições, pela óbvia força que essas ostentam frente aos indivíduos. 

Martin Luther King disse que tinha o sonho de que um dia seus filhos vivessem em uma nação em que não fossem julgados por sua cor da pele. Passado meio século de sua morte, esse sonho ainda não se concretizou.

Justamente por sua cor da pele, negros são julgados – em todas as acepções que esse verbo pode assumir. 

Olhos que condenam

Os desfechos do caso do Central Park são os seguintes (e esse spoiler é da vida real):

  1. Indenização milionária nenhum pagará anos roubados da vida de pessoas injustamente condenadas;
  2. Negros são os grandes alvos de um sistema penal ineficiente e seletivo;
  3. A perversidade humana se potencializa quando manifestada no âmbito das instituições;
  4. O sonho de Martin Luther King não se concretizou;
  5. Vidas negras importam.

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