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Aqueles que se afastam de Omelas: há proveito na tortura?

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Aqueles que se afastam de Omelas: há proveito na tortura?

Ursula Kroeber Le Guin jogou-nos uma questão influente: a felicidade de tantos poderia depender da desgraça de poucos? Num sentido atraente a união do pragmatismo e utilitarismo tomam conta de Omelas, uma cidade de conto de fadas que espalha perfeição por suas ruas repletas de beleza, bondade e magnificência.

Em 1973 a obra “As doze quadras do vento” trazia uma coletânea de doze contos que respaldavam o pensamento da autora referente diversos pontos de vistas que entravam em conflito em um mundo que se organizava no pós guerras, todavia, ainda temente de uma aludida guerra fria que aparentava até bem mais do que poderia vir a ser.

Formas de governo, democracia, liberdades e principalmente, o Anarquismo, foram debatidos em sua obra que trazia o conto em comento como destaque para os estudos que se referem ao direito, às liberdades e às possibilidades.

Anarquista convicta, Ursula trouxe a cidade de Omelas como mais um conveniente e convincente espectro de uma possibilidade.

Ao basear a felicidade de Omelas com o sofrimento de uma criança inocente, institucionaliza a tortura pelas bases mais falaciosas de nosso discurso pós-moderno: a fluidez de nossas percepções, a pouca durabilidade de nossas angustias, e a aceitação da aflição alheia conduzida por causa e efeito.

Omelas era uma cidade classicamente feliz, alegre e sitiada de prazeres incomensuráveis aos seus cidadãos. O simples andar pelas suas tranquilas calçadas fariam qualquer pessoa transbordar de uma felicidade inaudita, em tempos difíceis mundo afora.

Seus jardins eram lindos, não haviam impurezas em Omelas, todos se completavam com os encantos do paraíso na terra; não haviam políticos, reis, escravos ou comandantes. A alegria reinava e era uma das cidades mais ricas que existiam.

Só que existiam também termos num contrato, firmado há tempos atrás, por personagens invisíveis e que não são explicados no conto, até pela forma coloquial que um conto por si só toma, que tratava dos motivos dessa feliz vivencia, sua continuidade ou seu fim.

Para que houvesse prosperidade, uma criança existiria trancada em um calabouço, um quarto escuro, sem tratamentos, sofrendo abomináveis amarguras, sozinha, dilacerada por seus medos e amarga por suas feridas.

Cercada de seus próprios excrementos e tendo por alimento apenas um pouco de gordura e farinha de milho por dia, ninguém poderia ao menos tratar a criança por palavras doces, mas deveriam mostrar-lhe o desprezo.

Somente por seu sofrimento a cidade triunfaria e a harmonia e prosperidade coexistiriam em torno dos seus cidadãos.

Alguns se voltavam até a criança e ao retornar para o lar a vida já não era mais a mesma. O que batia no espirito feliz de poucos citadinos era diferente de tudo aquilo que já sentiram, uma vez que apenas a alegria conheciam.

E estes poucos alegres despertos após a temerosa visão da criança em frangalhos deixavam a cidade, para nunca mais voltar.

Eram esses os que se afastavam de Omelas.

Nem mesmo os mais cegos e menos sensatos utilitaristas concordariam com essa visão ou com essa possibilidade.

De toda forma, Jeremy Bentham, o pai do utilitarismo, em seu discurso em prol dos direitos humanos, jamais acharia conveniência numa situação como a da cidade de Omelas, ainda que disso dependa a felicidade da grande maioria das pessoas da vila.

Violar os direitos de uma criança inocente seria completamente errado mesmo que a felicidade abandonasse a cidade caso viesse a ser socorrida a pobre moribunda.

Nesse sentido, as pessoas que abandonaram Omelas para nunca mais voltar sentiram sua parte de culpa e sem poder ajudar, resiliram-se e sumiram mundo afora para não fazer parte dessa insanidade.

Por outro lado, aqueles que fecharam os olhos para o sofrer do infante calcularam e pesaram que deveria haver sensatez para cumprir o contrato em prol da felicidade de muitos, contra o sofrimento de apenas um.

E esse é o nosso mundo pós-moderno. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

Os discursos de humanidade e proteção ao indivíduo, ao humano e ao necessitado fazem bem parte do nosso mundo hodierno: a fluidez de nossas percepções, a pouca durabilidade de nossas angustias, e a aceitação da aflição alheia transformam os discursos e os pesares em ar, desmanchando-se para o bem de uma maioria silente.


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Autor

Mestre em Direito. Professor. Advogado.
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