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Os brutos também amam: a herança da violência

Os brutos também amam: a herança da violência

O clássico de faroeste “Os brutos também amam”, ou simplesmente “Shane”, de 1953, com direção de George Stevens e interpretação de Allan Ladd como o misterioso pistoleiro, traz alguns dilemas interessantes.

O filme “Os brutos também amam”, da Paramount Pictures, se sustenta no 45º lugar na lista das melhores produções do American Film Institute, trazendo como vilão os primeiros passos do mítico Jack Palance.

Os brutos também amam

A história se repete em um período regido pela demarcação de territórios sem dono, na vasta planície em um vale do Wyoming, onde a força bélica de alguns fazendeiros poderosos se faz presente para confiscar qualquer terra que lhes interesse, pela violência.

E no meio desse massacre, um pistoleiro em busca de paz e remissão, encontra-se mais uma vez envolvido na opressão e no julgo que causam as armas em hábeis e perversas mãos, precisando decidir qual o seu lado na história.

Na busca por mais pastos para seus gados, criadores afugentam e matam por intermédio de seus capangas, aqueles que ficam em seu caminho.

Nesse ponto, quem ousar desafiar as vontades da busca do lucro pelo mafioso da região tem um encontro agendado com a morte, que aparece na forma de um pistoleiro; sem máscaras, sem receio de ser identificado e sem escrúpulos.

Shane, personagem principal, procura um repouso para seus dias violentos, mas encontra mais morte no local escolhido para sua remissão.

E num convincente discurso demonstra que o único caminho escolhido pelo assassino é aquele que o acompanhará para sempre, pois “não se pode fugir de um homicídio”. Para o ex-pistoleiro, a marca e estrutural e edificante da ação do homem, que transforma vidas e ao atirá-las ao ermo, também morre lentamente.

O dilema demonstrado condiz com o discurso de um matador arrependido, que entende não importar seus atos futuros em busca de remissão, mas as faces dos que foram mortos o acompanharão, eternamente.

E numa busca pela absolvição, mesmo ainda que parca, parte em defesa dos necessitados contra os barões do gado, peleando e matando seus assassinos mais renomados. Aqui, a busca por uma justiça, seja ela uma procura particular ou altruísta, demonstra que nada mais existe quando surge a violência; a não ser mais violência.

Nesse ciclo vicioso, que acaba por si mesmo da mesma forma como se inicia, em atos irascíveis, não há absolvição; mas sim aquilo que Shane já havia descoberto: não há como se esconder do passado, a morte sempre estará à espreita.

Mas ainda há um outro dilema. O olhar de um garoto de pouco mais de nove anos acompanha o caubói durante toda sua jornada, desde sua chagada ao vale, sabe-se de onde, até o desfecho final. E durante a estadia de heróis e vilões em sua curta vida, o que por ele é presenciado traz a configuração em seu imaginário, do que o homem deve ser feito.

Assim, o garoto cresce acompanhando atos de coragem e covardia, brigas, lutas e tiroteios. No meio dessas aventuras está o forasteiro, hábil, forte e corajoso.

Morrem os homens, os capangas dizimados pelo ex-pistoleiro em busca de uma paz não encontrada; pois em um vale de violência somente a força pode perdurar.

E para aquele menino acostumado com histórias de caubóis e de bravura, essa vida torna-se normal, e até mesmo, desejada, pois esse é o estilo de vida ideal: vivido por seus heróis de infância.

E é assim que a violência se torna a herança.


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Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.

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