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Os 5 passos para iniciar na advocacia criminal

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Os 5 passos para iniciar na advocacia criminal

Qual é a melhor forma de se iniciar? Qual seria a forma que eu recomendaria? Um pergunta bastante difícil, pois é extremamente subjetiva. Porém, tentarei respondê-la da forma mais altruísta possível.

O primeiro passo

Primeiramente, uma longa caminhada sempre começa com o primeiro passo (Lao-Tsé). Ou seja, dê o primeiro passo. Mas o que seria o primeiro passo? É dizer para você mesmo: eu quero ser um advogado criminalista. Eu sou um advogado criminalista. Não deve haver espaços para dúvidas.

Você decidiu que é isso, então o primeiro passo foi dado.

“Recomendo que vocês tenham foco. Vocês têm que escolher em algum momento. Escolham aquilo que vocês são bons e que vocês gostem, porque aí vocês vão conseguir fazer bem. Todas as pessoas de sucesso que conheci eram fanáticos de foco" (Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do Brasil e dono da maior cervejaria do mundo).

O segundo passo

Estude a teoria, especialmente jurisprudência, mas dê valor demasiadamente ao conhecimento prático. Conhecer o funcionamento de um presídio, de uma delegacia de polícia, de como promotores/procuradores atuam, conhecer o estilo de cada promotor de sua comarca, de cada juiz, de como as Turmas do Tribunal do seu Estado se comportam. Isso não se aprende em livros. Isso é prática.

“Tem coisas que você não aprende indo para a escola, indo para um business school, só aprende tendo participado, e tendo apanhado” (Jorge Paulo Lemann).

Eu me lembro de que mesmo depois de formado, fui ser colaborador criminal de um núcleo muito bom da Defensoria Pública aqui em Brasília. Trabalhava voluntariamente (leia-se: de graça), mas não tinha vergonha alguma disso. Pelo contrário, estava não apenas aprendendo, mas também sistematizando o conhecimento. Tratava toda semana de um caso de roubo/furto/homicídio, etc. Isso deixou meu conhecimento sistematizado, afiado.

Ou seja, ser especialista e capacitado é o segundo passo mais importante.

Terceiro passo

Hora de escolher: quer ser dono do seu próprio Escritório ou quer advogar em uma banca já firmada? Acredito que a maioria dos advogados prefere a primeira alternativa. Qual advogado que não sonha em ter sua própria banca? Ter seu próprio Escritório? Para ser dono do seu próprio Escritório há três caminhos principais:

a) Entrar em um Escritório já firmado e trabalhar lá por alguns anos. Isso vai te garantir experiência, confiança, musculatura, um dinheirinho inicial, não irá ter diretamente responsabilidade com processo, visto que quem assume a maior parte é o Sócio que comanda o Escritório e também terá tempo para se concentrar em atividades de qualificação, tais como especializações, mestrado, etc.

b) Entrar no serviço público em uma área voltada para o Direito Criminal (Delegado, promotor, defensor público, juiz). Novamente, isso te dará experiência, confiança, musculatura, um dinheirinho inicial, um bom NETWORKING, um “selo” de qualidade e também terá tempo para se concentrar em atividades de qualificação, tais como especializações, mestrado, etc. É um bom preparo para desembarcar na advocacia. O único problema será ter coragem para deixar de lado a estabilidade do serviço público.

c) Montar seu próprio Escritório desde logo. Esse com absoluta certeza é o caminho mais árduo. É necessário muitas vezes ir contra tudo e contra todos. Lembrem-se: sair da inércia é o que demanda a maior energia. Administrar um Escritório é algo extremamente complexo e não pode sobrar muito tempo para qualificações.

Então o terceiro passo é planejar uma carreira. Perguntar a si mesmo: onde me vejo daqui a 5 anos? Qual é a sua estratégia para ter seu próprio Escritório? Trabalhar em um Escritório já reconhecido? Construir uma carreira na Administração Pública? Montar diretamente seu próprio Escritório?

Quarto passo

Tenho meu Escritório e agora? Pense como empresário. O quê? É isso mesmo. No atual mercado extremamente competitivo da advocacia, você tem que administrar seu próprio escritório em termos de gestão de bens e gestão também de pessoas, tem que captar clientes, tem que saber como lidar com clientes, tem que precificar seu trabalho, tem que fazer marketing, tem que fazer networking, tem que saber como diminuir os custos de produção de peças, de diligências, etc. Tais práticas são, a meu ver, predominantemente empresariais. E se não souber fazê-las com habilidade, seu Escritório pode falir.

Você pode ter um conhecimento estupendo, ser a reencarnação de Rui Barbosa, porém, sem clientes, não conseguirá colocar esse conhecimento em prática. E como captar clientes e administrá-los? Existem diversas técnicas específicas. É claro que os advogados mais experientes não gostam de passar esse tipo de conhecimento para frente, afinal, tiveram que aprender no método de “tentativa e erro” e esse tipo de conhecimento custa dinheiro. Portanto, você terá que aprender através da observação, da tentativa e do erro e da imaginação.

Quinto passo

Tenha princípios, paciência e saiba dizer “não”.

Para um advogado iniciante, às vezes, o dinheiro reluz e reluz muito. Cuidado, estamos na esfera criminal. A linha que separa o legal e o ilegal é tênue. Propostas de corrupção surgirão, propostas de lavagem de dinheiro surgirão, propostas de integrar uma organização criminosa surgirão. E não queira ser conhecido como esse tipo de advogado. Não manche sua carreira. Sua vida está acima disso. Infelizmente, os frutos demoram mais tempo para surgir sem atalhos escuros, de forma que não caia em tentação.

Tenha princípios. Existe também um mercado negro dentro da justiça. Um dia vai surgir uma operação policial em Tribunal de Justiça de algum Estado. É questão de tempo. Não participe desse mundo. Lembro-me um dia que estava entrando em uma parte do presídio e ocorreu algum fato que o agente relativizou os procedimentos de segurança. Eu perguntei se ele gostaria que eu repetisse o ato solicitado que deu errado, ele falou que não tinha necessidade, pois os maus advogados já são conhecidos.

Saiba dizer não. Lidamos muitas vezes com pessoas malucas, destemperadas, descontroladas. Esse tipo de cliente eu não aceito. Já tive uma péssima experiência com isso. Não vale a pena. Saiba dizer não para um cliente. Imponha-se.

Seja honesto com um cliente. E nunca diga que ele vai ser absolvido. O trabalho do advogado é de meio e não de resultado. Um dia me ligou um amigo de um traficante chefe responsável por movimentar, de acordo com as investigações policiais, milhões de reais por mês. Ele me disse: “Doutor, preciso que o fulano seja solto. Pago o quanto for preciso”. O Escritório como um todo estudou o caso, todavia, sequer chegamos a apresentar uma proposta de honorários advocatícios. Conversei e expliquei para o cliente que, naquele momento, seria praticamente impossível, processualmente, “conseguir um HC”. (O advogado é o primeiro juiz da causa). Cada um tem sua ética, a minha, nas especificidades desse caso, nas quais não irei entrar em detalhes, foi essa: a da transparência.

Tenha paciência. Uma carreira não se constrói do dia para a noite. Os primeiros cinco anos serão de muito trabalho e pouco retorno. Como exemplo, cito que alguns dos melhores advogados criminalistas de Brasília da nova geração, tais como Pedro Ivo Rodrigues Velloso Cordeiro e Rodrigo Mudrovitsch, os quais despontaram nessa última década, tiveram uma labuta árdua e o reconhecimento nacional veio após 10 anos de advocacia.

Conclusão

Lembro que depois do 1º ano que abri meu Escritório, encontrei um grande amigo advogado e que foi meu professor. Conversa pra lá, conversa pra cá, ele me perguntou como estava o faturamento do Escritório. Eu disse para ele as cifras e ele me disse algo que é imensamente verdadeiro e que repasso carinhosamente para vocês:

“Se você cuidar do seu nome e da sua qualificação, seu Escritório de advocacia nunca vai regredir. A cada ano que passar, fica melhor $$$. O “x” da questão é o bendito tempo e a tal da resiliência”.

Ei, amigos! “Toda conquista começa com a decisão de tentar” (Gail Devers). E sempre “Lute com determinação, abrace a vida com paixão, perca com classe e vença com ousadia, porque o mundo pertence a quem se atreve e a vida é muito bela para ser insignificante.” (Sir Charlie Chaplin)

Amigos, para dúvidas sobre o artigo, eu estou no Facebook como Ivan Morais.

Forte abraço diretamente de Brasília a todos os cantos do País.


Ps.: esse artigo não é indicado para filhos de ministros, de políticos, juristas, de grandes empresários e de advogados, visto que, para tais pessoas, o caminho já está pavimentado. O início já se deu na geração passada.

Autor

Advogado. Especialista em Ciências Criminais. Membro da Comissão de Direito Constitucional da OAB/DF.
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