• 30 de outubro de 2020

Os crimes do absinto e sua proibição (II)

 Os crimes do absinto e sua proibição (II)

Por Vitor da Matta Vivolo


Conforme discussão iniciada semana passada, na primeira parte do presente artigo, o Brasil foi um dos primeiros países a banir e criminalizar o comércio de absinto. Em trinta de dezembro de 1905, todas as bebidas que contivessem quaisquer substâncias “nocivas”, como “absintho”, eram proibidas em terras nacionais. No entanto, a discussão sobre o imaginário pecaminoso da famosa fada verde datava, pelo menos, uma década antes.

Em 1895, o Correio Paulistano (Kaleidoscópio – O absintho na França, 25 Abr. 1895) curiosamente analisa o absintismo – doença dos consumidores de absinto – ao lado de mazelas como morfinismo, “éterismo” (vício em éter), alcoolismo e degenerescência hereditária. Sua categoria dentre os vícios alcóolicos parece ser tão peculiar que lhe garante uma condição própria de doença análoga (mas não sinônima) ao alcoolismo, sendo inclusive muitas vezes citado como diagnóstico patológico em hospitais. O colunista baseia-se em certo Dr. Lancereaux, membro da Faculdade Médica de Paris, e seus estudos que – aparentemente – comprovam que bebedores de absinto produzem proles portadoras de sequelas: os filhos e netos de absintheurs são mais propensos a adquirir paralisia, epilepsia e tuberculose. Sardonicamente ou não, prossegue aconselhando aos moradores dos trópicos que adotem o costume de consumir cerveja em detrimento dos hábitos franceses.

(…) digo eu a vocês que gostam de virar o copo – que a cerveja é que deve ser preferida, pois é, para nós, gente dos trópicos, a mais inocente de todas as bebidas e, ao mesmo tempo, a que tem mais elementos de nutrição.

Os povos bebedores de cerveja (lúpulo e cevada) são povos alegres, sadios, sossegados e prolíficos. Os povos bebedores de bebidas propriamente alcoólicas (vinhos fortes, genebras, aguardentes, cognacs, licores [lembremos que absinto é um licor] etc) não suportam comparação com outros povos. Não há confronto entre os resultados de um abuso de cerveja e os de um abuso de qualquer daquelas bebidas.

Aceitem meu conselho e verão que prole de arromba vão vocês deixar neste mundo.

Chupem, mas não abusem.

Os males do álcool parecem ser a principal preocupação da virada do século em territórios nacionais ou internacionais. O sentimento de decadentismo unido à virada do século fez com que os conflitos entre moralidade e comportamento se agravassem. Pesquisas que relacionam os efeitos do consumo de álcool nas “proles de arromba” aparecem ao lado de notícias que diretamente estabelecem analogias entre o consumo e a criminalidade. Visto que “o excesso do consumo do álcool acentua o progresso deplorável do pauperismo, de criminalidade, de mortalidade e loucura” (O Alcool, 27 Jun. 1896).

Cerca de uma década depois, o Correio Paulistano insiste em discutir novamente a temática, nos alertando que muito se tem falado do “perigo amarelo” (febre amarela) mas, na França há o que se chama de “perigo verde”, ao lado do alcoolismo. Este último seria justamente um dos “perigos maiores para povos civilizados” (De Paris…, 14 Jul. 1904). Corrobora suas afirmações com um alarmante dado: o consumo de absinto nas terras francesas em 1903 foi de 22 milhões de litros.

No ano seguinte, a lei de proibição brasileira foi aprovada. Podemos refletir os motivos de tais medidas, espelhando a influência do absinto no consumo brasileiro de bebidas alcóolicas. Em países cuja sua ingestão era extremamente maior e já estava enraizada nos campos do quotidiano e cultural, uma gritante resistência por parte de comerciantes e consumidores foi sentida. Por aqui, sua presença nos cardápios de bar e adegas parece ser nada mais que mero detalhe.

Curiosamente ou, talvez, controversamente, a virada da década revela uma presença do absinto ainda existente no Brasil. Nos mesmos anos da crise dos vinhos franceses e do aumento de consumo de absinto na Europa, O Paiz publica uma breve nota satírica (aparentemente baseada em fatos reais) sobre um marido cujo casamento estaria em apuros, pois saía diariamente para beber “seu absintozinho” às tardes em companhia de um amigo francês. Com a chegada de uma trupe de artistas de Paris, a esposa do absintista pode ver numa esquete teatral o preparo da tal bebida… E então surgiu o problema.

No 1o ato, correu tudo às mil maravilhas. Mme. Pinto riu-se a fartar e, quando caiu o pano, já tinha feito com que o marido se comprometesse a levá-la a todas as primeiras apresentações da companhia.

Mas, no fim do 2o ato, santo Deus! A mulherzinha, quando ouviu a encantadora Barral ensinar ao major como se prepara o absinto… Aí é que foram elas!

– Agora compreendo… pôs-se a dizer mordendo os lábios.

– Compreendes quê?

– Agora compreendo como se prepara o absinto que o senhor toma fora de casa, e que o obriga a chegar tão tarde para o jantar…

– Não digas isso, nem por brinquedo, minha velha…

– Agora compreendo… Vamo-nos embora!

(…) Há mais de oito dias que dura a zanga. Carlos Pinto tem-se visto doido. E não tem tomado mais absinto de espécie alguma, nem em casa do Casedamont, porque a mulher não quer que lá ponha os pés, – nem em sua própria casa, porque a mulher se recusa terminantemente a prepará-lo.

(O Absinto – Um Marido em Apuros, 18 Jul. 1908)

O erotismo ritualizado do preparo do absinto, aliado às faceirices estereotípicas das atrizes francesas nas notas satíricas da Belle Époque, revelam fragmentos da reputação adquirida pelo licor nos âmbitos de mentalidade popular. Além disso, a Lei aparentemente não era aplicada com muito rigor ou constância, isso segundo repórter da Gazeta de Notícias de 1909 (Acolá, 10 Jul. 1909) que, ao comentar sobre a crise de alcoolismo francês, dizia que “em todo caso, a França pensa na proibição da venda do absinto, já realizada na Suíça, na Bélgica e… teoricamente, no Brasil [onde] há, de fato a lei, mas falta apenas esta coisa simplíssima: sua execução”. Em uma sensação agridoce de orgulho pelo pioneirismo e vergonha pela ineficácia do policiamento, a Gazeta traz mais um interessante exemplo da incoerência entre legalidade e prática (fantasma que ainda ulula na história do país).

A dramaticidade do absinto atinge seu ápice na proibição suíça, aprovada em 1908, com o caso de Jean Lanfray. Camponês alcóolatra, Lanfray, segundo fontes da época, bebeu dois copos de absinto e em seguida atirou com um fuzil na cabeça da mulher grávida e no seu casal de filhos. Possuído pela diabólica fada verde, seu instinto homicida floresceu e fez com que autoridades suíças admitissem o perigo do consumo da bebida. Descobriu-se posteriormente que, no mesmo dia, o assassino havia consumido, além das duas doses de absinto antes de sair para o trabalho, “um crème de menthe, um conhaque, seis taças de vinho no almoço, outra taça antes de sair do trabalho, uma xícara de café com brandy, um litro de vinho chegando em casa e mais um café com aguardente” (Baker, 2010, p. 11-12). Absintismo e alcoolismo continuaram a nutrir uma cada vez pior simbiose no imaginário popular.

O combate à Feiticeira Verde chegou aos Estados Unidos da América em 1912 e à receptiva anfitriã de outrora, a França, em 1914 (com parcelas de culpa a serem atribuídas aos temores da Guerra). Dinamarca, Espanha, Inglaterra e Portugal jamais baniram o absinto.

Atualmente, vivemos épocas do chamado revival do absinto, com a abertura de Praga aos ocidentais após o desmoronamento da Cortina de Ferro e da posterior Revolução de Veludo (deposição não agressiva do governo comunista na Checoslováquia em 1989). Ambos eventos fizeram com que a circulação de turistas e de bebidas alcóolicas no país entrassem em convergência. A destilaria Hill’s, fundada em 1920 na região, era uma das principais produtoras de absinto no início do século XX. Havia, à época, um racionamento alcóolico em volume líquido, ou seja, não pelo teor de álcool na bebida, mas sim por sua quantidade em litros, fazendo com que fosse muito mais vantajosa a produção de licores que pudessem ser diluídos para maior duração. O absinto, devido à sua graduação alcóolica alta, era perfeito para a tarefa. O advento comunista na Checoslováquia, no entanto, fez com que a destilaria fosse confiscada em 1948 e toda sua produção parasse. A volta na fabricação se deu somente em 1990, quando o filho do antigo fundador pôde retomar os negócios da família.

Desde a volta à fabricação, turistas como o inglês John Moore – redator da revista The Idler em 1997 – provaram a tal bebida “proibida” e divulgaram em diversas mídias impressas suas fantasiosas impressões. O “absinto boêmio”, como é chamada a variação tcheca do licor, apesar de mesmo nome, nada tem a ver com o antigo elixir francês. Similar a um bitter de losna, é consumido ateando-se fogo num cubo de açúcar e bebericado alternadamente com água gelada. É essa versão repaginada (e anacrônica) da bebida que vemos em filmes como Drácula de Bram Stoker (1992), Do Inferno (2001) – Johnny Depp protagoniza a cena de consumo – ou Moulin Rouge (2001).

Lalo Zanini, empresário, proprietário então dos restaurantes paulistanos Limone, Sprazza e Jotaka, foi o responsável por convidar novamente a bebida a terras brasileiras. Por volta dos anos 2000, conheceu o absinto in persona através de uma garrafa portuguesa do licor trazida por um amigo que voltara de viagem. Com o vencimento das antigas legislações, não mais era proibida a presença da bebida no Brasil mas, devido à graduação alcóolica que superava os 54% atualmente permitidos na Lei, adaptações tiveram que ser feitas para que sua importação e produção pudessem ser executadas por aqui. Aos curiosos, busquem nas adegas de sua preferência uma marca particular cujo emblema é um homem de cartola.

O misticismo da bebida persiste no quotidiano. Rostos enchem-se de terror ou fascínio ao serem informados que alguém está consumindo absinto, como se algum tipo de droga estivesse sendo deslizada pela manga. Coquetéis em baladas famosas tem o licor como ingrediente base de sua composição e são charmosamente batizados de “Van Gogh”.  Shots verdes e flamejantes são virados por amigos curiosos, ou desejosos de uma ebriedade veloz. Perderam-se as práticas de um ritual antigo, mas criaram-se outras, assim como associações relacionadas aos “fins” de consumo da Fada Verde – não mais embriagar-se como Baudelaire aconselhava, mas algo mais próximo do famoso “porre” – e transmutou-se um consumo de elegante para excêntrico.


REFERÊNCIAS

ACOLÁ. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, p. 2, 10. Jul. 1909. Chamada no texto: (Acolá, 10 Jul. 1909).

BAKER, Phil. Absinto – Uma história cultural. São Paulo: Nova Alexandria, 2010. Chamada no texto: (BAKER, 2010)

DE PARIS PARA O CORREIO PAULISTANO. Correio Paulistano, São Paulo, p. 6, 14 Jul. 1904. Chamada no texto: (De Paris…, 14 Jul. 1904).

CORREIO PAULISTANO. Correio Paulistano, São Paulo, p. 1, 29 Jul. 1909. Chamada no texto: (Correio Paulistano, 29 Jul. 1909).

O ABSINTO – UM MARIDO EM APUROS. O Paiz, Rio de Janeiro, p. 2, 18 Jul. 1908. Chamada no texto: (O Absinto – Um Marido em Apuros, 18 Jul. 1908).

O ALCOOL. Gazeta da Tarde, Capital Federal, p. 1, 27 Jun. 1896. Chamada no texto: (O Alcool, 27 Jun. 1896).

_Colunistas-VitorMatta

Vitor da Matta Vivolo

Historiador. Mestrando em História. Pesquisador com ênfase no Século XIX e Belle Époque.