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Os “crimes” homossexuais de Oscar Wilde

Canal Ciências Criminais

Por Vitor da Matta Vivolo


“Definir é limitar-se”, já dizia a famosa frase cunhada por Oscar Wilde em O Retrato de Dorian Gray, hoje utilizada largamente em redes sociais e perfis de aplicativos de encontro. Um exemplo de como uma mensagem é propagada através dos tempos, perdendo-se sua autoria conforme seus usos. Curiosamente, em tempos de alargamento das definições e práticas sexuais, pouco foi a visibilidade dada ao caso “criminoso” do autor nessas últimas semanas de eventos LGBT (ou, ainda, LGBTTT).

Segundo Tom Ambrose, em seu estudo Heróis e Exílios: Ícones gays através dos tempos (Belo Horizonte: Editora Gutenberg, 2011), as últimas décadas do século XIX transformaram Paris em um pólo de exilados e artistas, graças às leis liberais concernindo a sexualidade em terras francesas (introduzidas com o Código Napoleônico). Não à toa, esta foi a cidade escolhida por Wilde após sua saída da prisão em 1897. A região efervescia com Arte e seus adeptos, os exilados sociais.

O autor inglês, de origem irlandesa, desde seus tempos juvenis chocara a sociedade britânica: vestia-se, quando estudante, com roupas típicas do fim do século passado. Perambulava pelas terras da Rainha vestindo-se de meias-calças brancas, sapatos típicos do Antigo Regime, proferindo seus aforismos e cinismo frente às hipócritas figuras do século XIX. O pesquisador Ambrose ainda nos rememora que “o clima moral na Inglaterra estava mudando, e o Criminal Law Amendment Act de 1885 (Ato da Emenda do Direito Penal) marcou o triunfo de vários grupos de pressão que haviam se empenhado contra o que viam como a degeneração moral do país”. O ato, cujo enfoque inicial era combater as casas de prostituição, incluiu, de última hora, cláusulas propostas pelo radical Henry Labouchere, sugerindo o “controle da homossexualidade”.

Ao contrário da França, em que quaisquer atos sexuais concedidos entre cidadãos do mesmo sexo foram descriminalizados, a retrógrada comunidade inglesa decidira que atos homossexuais públicos e privados (incluindo a “masturbação mútua”) passassem a ser considerados delitos legais. Figura que perambulava pouco desapercebida por seu dandismo e extravagância, Oscar Wilde era alvo inevitável dos “olhos da Lei”.

Wilde era casado (com uma mulher, diga-se de passagem) e pai de dois meninos, vivendo, tecnicamente, os ditames adequados a qualquer homem de seu tempo. No entanto, relacionamentos com garotos mais jovens vieram à tona quase simultaneamente à publicação de O Retrato de Dorian Gray. Já conhecido por suas peças teatrais satíricas, o romance chocou leitores conforme transparecia explicitamente relações de atração entre o pintor Basil e seu juvenil (e virginal) modelo Dorian. Lorde Henry, personagem sarcástica, também proferia belas frases de efeito a fim de fazer com que o rapazote aproveitasse os prazeres da vida e entregasse suas tentações à realização. Publicado inicialmente em pequenas partes num jornal inglês, a narrativa fora fortemente editada e censurada ao ser compilada em livro. O autor, furioso, chegou a escrever que “não existe livro moral ou imoral, os livros são bem escritos ou mal escritos”.

Os afetos de Wilde complicaram-se ao se apaixonar quase obsessivamente por Lorde Alfred Douglas (cerca de vinte anos mais novo que ele), filho de um marquês conservador, esportista desejoso em ser viril, e anti-sodomia. Alfred, também conhecido como “Bosie”, era abertamente público e expressivo em relação à sua sexualidade. Seu pai, eventualmente descobrindo o relacionamento entre ambos, mais de uma vez atentou violentamente contra Oscar Wilde, deixando-lhe, inclusive, um famoso bilhete endereçado àquele que “posa de somdomita” (ortografia não parecia ser seu forte). O erro do orgulhoso autor fora confiar em sua fama como ferramenta de impunidade, processando o pai de seu amante por difamação. As acusações degringolaram, fazendo com que o marquês conseguisse adentrar o submundo homossexual vitoriano, através de detetives, e angariar testemunhas (ex-amantes), além de cartas incriminatórias, contra Wilde.

Após já intimado à corte, seu advogado de defesa encontrou dificuldade ao lidar com a personalidade expansiva e performática de Oscar, mais preocupado em proferir frases de efeito que ater-se à negação de suas acusações. Questionado sobre uma testemunha, chegou até a dizer que “não é verdade que eu tenha marcado um encontro com ele em uma noite e o tenha levado para Lancing, beijando-o e me permitindo familiaridades no caminho”… Sendo que nenhuma dessas informações haviam sido sequer mencionadas anteriormente na pergunta feita.

Sua esposa, Constance, insistentemente buscou convencê-lo a fugir do país enquanto podia. Wilde, no entanto, optou por resistir, defendendo seu ponto de vista de que o adorável Amor Grego (encanto compartilhado por vários homens da Belle Époque, na qual um rapaz mais velho poderia amar platonicamente um rapaz mais novo, a fim de torná-lo seu aprendiz) não deveria ser condenado. Acusado de “atos de grave indecência com outras pessoas do sexo masculino”, “conspiração para cometer indecência grave e sodomia”, fora encaminhado à prisão em 25 de maio de 1895. Permanecendo encarcerado por quase dois anos.

O cárcere destruiu o espírito e vaidade do dândi, visível perturbação é retratada em De Profundis, obra na qual suas longuíssimas cartas a seu amante Bosie foram compiladas. Repletas de reflexões filosóficas, Wilde pudera contemplar a crueldade social que tornara-se estigma em sua vida presente e futura. O rapaz que antigamente chocava por suas vestes chamativas e o famoso cravo verde preso à lapela, agora tornara-se mártir e ícone da luta pela legalidade das práticas sexuais.

Imaginário este que ainda permanece, seu atual túmulo no Cemitério Père Lachaise, dentro de Paris, é constantemente visitado e, até recentemente, coberto de marcas de batom deixadas pelos beijos de admiradores do século XX e XXI. Autoridades locais tiveram de envolvê-lo em uma redoma de vidro… que ainda assim carrega as impressões labiais vermelhas dos visitantes.

O presente artigo, na realidade, tem como objetivo ilustrar o quão interessante o estudo de ícones passados pode ser aos atuais militantes e praticantes de causas julgadas como “minorias”. A obra de Ambrose é riquíssima em episódios, fazendo com que sintamos que problemáticas atuais não existem isoladas, mas são acompanhadas por um passado ainda recente e relevante. Lembrem-se que, mesmo ao pensarmos estar sozinhos, as vozes do passado ainda existem à nossa volta. Conheçam seus antigos mártires e conhecerão ainda melhor sua atual causa.

_Colunistas-VitorMatta

Autor
Historiador. Mestrando em História. Pesquisador com ênfase no Século XIX e Belle Époque.
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