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O papeleiro e o motivo fútil

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O papeleiro e o motivo fútil

Ele percorria as ruas da cidade recolhendo toda a sorte de materiais recicláveis, os quais ele vendia e, daí, retirava a renda que sustentava a si e sua família. Seu nome era José. Ele era casado com Sandra, com quem tinha três filhos.

A vida era dura para José. Ele acordava cedo e logo saía para o batente. José percorria as ruas da cidade, puxando uma pequena carroça que ele próprio fabricara, onde recolhia os materiais que ia encontrando pela rua (papelão, garrafas pet, vidros, metais e etc). A jornada ia da manhã à noite, com pequenos intervalos para algum lanche. José tinha de juntar muitos quilos de recicláveis para ganhar alguns trocados.

Um belo dia, ou melhor, sob a escuridão de uma certa noite, dois “amigos do alheio” entraram no quintal da humilde moradia de José e levaram tudo o que encontraram de materiais recicláveis. Era o resultado do trabalho de uma semana inteira.

Passam-se os dias e José descobre o paradeiro dos seus materiais e quem era o autor do furto. José vai em busca de reaver seus recicláveis. De uma discussão acalorada, a situação foi crescendo em exaltação. O desentendimento entre os dois homens acabou evoluindo para uma briga cerrada, até que José acabou acertando uma facada no autor do furto, que acabou morrendo em decorrência dos ferimentos.

Instaurado o processo, a acusação veio pesada, dura, inflexível: denúncia por homicídio qualificado pelo motivo fútil (sinônimo de motivo pequeno e desproporcional), porquanto José teria matado a vítima apenas por conta de um monte de lixo reciclável.

Ora, para alguém que sempre teve uma vida confortável e não tem a menor noção do que seja enfrentar as asperezas da existência, pode ser fácil dizer que o motivo do crime foi fútil. Essa pode ser a visão de quem ganha alguns milhares de reais, sentado em um ambiente confortável. Mas, certamente, não é a visão de quem se expõe às intempéries dos dias – e da vida – para juntar alguns míseros trocados.

Vejam que não se está a sustentar que o fato não seja considerado crime ou que não mereça uma punição. O que se argumenta é que, para aquele homem modesto, para quem a vida reservou pedras e espinhos, aquele monte de recicláveis representava o trabalho duro de uma semana inteira, com o qual levaria o alimento para sua família, e, portanto, não pode merecer a classificação de fútil, pequeno ou desproporcional.

Como quase tudo na vida, é questão de ponto de vista. Questão de saber ouvir. Ouvir primeiro a acusação. E reservar o outro ouvido para escutar a defesa. Ninguém pode falar sozinho. Um, fala. Outro, responde. E um terceiro, decide.

Autor

Advogado criminalista. Ex-Promotor de Justiça.
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