• 18 de janeiro de 2020

Para ler: Crime e Castigo

 Para ler: Crime e Castigo

Por André Peixoto de Souza


Não havia um segundo a perder. Tirou o machado de sob o capote, levantando-o com as duas mãos e, com um gesto seco, quase mecânico, deixou-o cair na cabeça da velha. Suas mãos pareciam-lhe não ter mais forças. Entretanto, readquiriu-as assim que vibrou o primeiro golpe. (…) Então Raskólnikov malhou-a com toda a força, mais duas vezes. O sangue corria como se jorrasse de um copo caído.

Dostoiévski brindou a humanidade com uma das obras mais ricas e completas sobre a própria humanidade. Objeto de milhares ou milhões de teses, debates, resenhas, artigos, referências e citações, Crime e castigo conquistou o imaginário popular e científico, e perturbou as estruturas de conforto sobre as possibilidades do homem perante o seu próximo. Afinal, é essa – a perturbação, a perplexidade – uma das metas da literatura. Dostoiévski cumpriu a meta com especialíssimo destaque.

Ficou inevitável falar, aqui no Canal Ciências Criminais, da grandiosa alegoria sobre homicídio, [ficticiamente] intuída e executada por um estudante de Direito: o “direito” livre e irrestrito de matar.

Na obra, Raskólnikov escreveu um texto acadêmico que vislumbrava as possibilidades éticas e materiais do morticínio alheio, pautado na extrema liberdade de ação. Dizia ele que alguns seres, considerados indivíduos extraordinários, pelo simples fato de serem extraordinários, tinham o direito de cometer quaisquer crimes e de violar todas as leis. A liberdade, aqui, é ao mesmo tempo ponto de chegada e ponto de partida: chega-se ao crime de homicídio pela liberdade de superioridade (sou livre para matar); parte-se do homicídio para a (rumo à) liberdade da superioridade (depois de matar, tudo, absolutamente tudo posso). O jovem estudante chegou ao homicídio, mas não saiu dele. Ao menos não tão simplesmente, como imaginava. Apesar da final redenção, o castigo foi intenso. (Sempre me chamou à atenção o fato do crime ser descrito em um sétimo do livro, e o castigo, nos outros seis sétimos).

O palco da trama também é denso. Pensar na São Petersburgo do séc. XIX é pensar, sem meias palavras, em luta de classes. De um lado, a burguesia russa ligada ao Czar; de outro, os miseráveis urbanos e suburbanos. Na vigorosa estética do autor, a cidade é inteiramente projetada para o quarto de Raskólnikov: pequeno, velho, sujo, úmido, desordenado. É possível forçar e dizer que a projeção também se faz ao próprio anti-herói: magro, pálido, pobre, faminto, doente… gênio: acirrado e indomável crítico oculto do regime. Não há uma única linha sobre isso no livro, mas o comportamento e a tese do estudante é a crítica da “sagrada justiça”, personificada no Czar, contra uma “exceção” à humanidade, a quem seria facultada uma “exceção às regras” da humanidade. Raskólnikov se permite matar, e aniquila a velha usurária – e sua irmã – a machadadas. O dinheiro assume alguma relevância, talvez na justificativa, no propósito do crime ou de toda a tese para o crime, mas é secundário. É muito óbvio que não se trata de latrocínio, no literal intuito do ato.

Há quem diga que Raskólnikov é o super-homem ou o senhor reconhecido ou o gênio maligno (tem Nietzsche, tem Hegel, tem Descartes para todos os gostos); e há quem diga que ele é “um frouxo”: melindrado e apavorado com o que fizera; delirante, angustiado. Mas o seu ato decorria de uma tese na qual ele depositava o seu martírio, por se considerar (ou tentar experimentar) a pretensa exceção de superioridade, de extraordinariedade. Ora, segundo ele mesmo: “Por que é um crime? Que quer dizer a palavra ‘crime’? Minha consciência está tranquila. Cometi sem dúvida um ato ilícito, infringi a lei e derramei sangue. Pois bem, por essa lei violada, fiquem com a minha cabeça e está tudo liquidado. Decerto, neste caso, inúmeros benfeitores da humanidade que se apossaram do poder em vez de o herdarem desde o início de sua carreira deveriam ter sido entregues ao suplício. Mas esses homens realizaram os planos: foram até o fim do caminho e seu êxito justifica-lhes os atos, ao passo que eu não soube prosseguir no meu, o que prova que não tinha o direito de empenhar-me nele?”.

O ato está justificado!

Não obstante a inversão psicanalítica – quando Freud analisa a necessidade do castigo, para o que o crime seria condição primária –, a vertigem causada ao leitor, na metade do castigo, exatamente no momento de febre e delírio de Raskólnikov (aquela vertigem “cartesiana” que faz o leitor, por um instante, imaginar que TUDO não havia passado de um sonho do jovem estudante), culmina com a apoteose da culpa, do inexorável sentimento de culpa que consome inteiramente o assassino, ao afirmar, singelo e implacável: “― Eu assassinei a mim mesmo e não a ela, perdendo-me para sempre…”.

A redenção do criminoso está no amor de Sônia. O castigo-psiquê levou o criminoso a se entregar. O castigo-corpo o levou à Sibéria. Mas a essa altura isso menos importava. A redenção sublima a culpa; a remissão purga o pecado. O amor se sobrepõe ao crime e à pena. “Ambos estavam magros e pálidos, mas, nas pobres faces transtornadas, cintilava a aurora de uma vida nova, de uma ressurreição. Era o amor que os ressuscitava. O coração de um continha uma fonte de vida inesgotável para o outro”.

Com o amor de Sônia, a última leitura de Raskólnikov é o evangelho. O amor de Cristo preenche o resquício de ausência (de reconhecimento) do anti-herói, e sua inevitável conversão representa a única VERDADE de toda sua existência. (Sempre me recordo dos finales carneluttianos). Afinal, ficou provado que Raskólnikov não era um Deus: não matarás. Devolve o trono divino!

Se a obra, afinal, é fruto da neurose de Dostoiévski (segundo Freud), se retrata uma tese puramente psicopata (ao leitor desavisado), ou ainda se revela a elevação da alma humana através da expiação da culpa (do castigo e da pena até o amor), menos importa. Importa, sim, que estamos aqui diante de um dos grandes monumentos da literatura universal, que não esgotará ainda por muitos séculos todo o suco que dele podemos beber – e nos embriagar.

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André Peixoto de Souza

Doutor em Direito. Professor. Advogado.