• 15 de dezembro de 2019

O que o parricídio dos Lannisters tem a nos dizer?

 O que o parricídio dos Lannisters tem a nos dizer?

O que o parricídio dos Lannisters tem a nos dizer?

Caros amigos e amigas, de antemão saibam que a leitura e compreensão desse texto não exige que você seja um expert na série Game Of Thrones. Na verdade, se você nunca tiver ouvido falar, não terás prejuízo nenhum na absorção dessas linhas.

Pois bem, o fato é que a obra (seriado e livros) nos dá diversas oportunidades de debater sociologia e crimes. No entanto, escolhi a citada no título, visto que, além de ser uma passagem bastante marcante ao meu ver, trata-se de um viés infelizmente corriqueiro no Brasil atual, qual seja, os crimes onde a vítima e o agressor são sangue do mesmo sangue.

A história da referida saga, de forma bastante resumida, ocorre num contexto medieval e gira em torno de famílias que reinam em suas regiões, na busca pelo poder máximo de controle dos “Sete Reinos”, materializado no anseio de ocupar o famoso Trono de Ferro. Nesse diapasão, a história é recheada de entraves políticos, guerras, problemas sociais e crimes das mais diversas naturezas.

Parrícidio dos Lannisters

Em meio a essa imensidão literária, tem-se a família Lannister, a qual dois de seus membros são Twin (pai) e Tyrion (filho). Em determinado momento da série, ocorre um crime de homicídio envolvendo esses dois indivíduos, onde o filho acaba por matar seu pai. Ou seja, trata-se de um parricídio ou patricídio, como preferirem.

Agora vem o que realmente interessa: qual a motivação do crime e o que isso tem a ver com a sociedade brasileira atual?

O porquê como um todo desse triste fato na série é bastante amplo e exige entender sobre a história, mas o fato é que o algoz é um anão e por toda a sua vida sofreu preconceito tanto na sociedade quanto em seu próprio seio familiar, pura e simplesmente por ter baixa estatura e não ser fisicamente “igual aos outros”.

Portanto, o foco central deste artigo é mostrar, por meio do exemplo, que a intolerância, o preconceito e a exclusão social são grandes incentivadores da violência, e que, num contexto sociológico onde elementos como esses assolam a mentalidade e as atitudes do povo, julgar somente com base no papel e na canetada fica bastante complicado… E é exatamente esse um dos maiores problemas que enfrentamos todos os dias em nosso país.

Por aqui (Brasil), criou-se o péssimo hábito de separar as pessoas por tudo. E aqui falo de separar não no sentido de organizar, mas sim de segregar.  Padrões sociais foram impostos de forma deturbada e hoje se pode ver que no Brasil se discrimina desenfreadamente.

É o João que eu não vou chamar para compor minha equipe de trabalho porque ele ama o Márcio e não a Maria; é a Cássia que não pode jogar bola porque é menina; tem no Brasil também o André, que só porque tem sobrepeso ninguém senta ao lado dele no ônibus para conversar, a não ser para caçoar e ir embora, é claro. É o Gabriel, egresso, que nenhum empresário vai contratar, pois é preferível mantê-lo sem emprego e julgá-lo se ele voltar a transgredir a ordem.

Enfim, é o Tyrion Lannister, que, por ser anão, sempre foi só mais uma vítima do preconceito e da exclusão social, até mesmo pelo seu próprio pai.

O que é preciso refletir aqui é que, antes de se tornarem agressores da ordem, de outrem ou do que quer que seja, quantas mil vezes, todo santo dia, João, Cássia, André, Gabriel e Tyrion foram agredidos?

Pois é, infelizmente a sociedade encontra-se em uma zona de conforto que é extremamente desconfortável aos que nela não são aceitos, onde se tem a ideia infeliz de “vamos segregar cada vez mais e se precisar, a gente põe na cadeia”.

E está errado apenar alguém que tenha cometido um crime? De forma alguma. Porém, é preciso entender que toda atitude separatista, intolerante e preconceituosa que alguém pratica enquanto membro da sociedade certamente contribui com o crescimento da violência.

Por isso, entendam, amigos e amigas: o caráter punitivo, repressivo, encarcerador e segregacionista não deve ser visto aos olhos do povo como remédio para os problemas sociais. Muitas vezes uma mudança de hábitos, um aceitar melhor das diferenças, um pouco de compaixão e inclusão com o próximo são capazes de contribuir muito mais com a paz social e com a justiça.

Assim como eu e como você que está lendo, o praticante de um crime é um ser humano e tem uma história por trás muito maior e mais complexa do que qualquer pena. Inclusive, amanhã ou depois um ente querido nosso pode se tornar um deles, ou até mesmo nós, pois o amanhã não nos pertence.

Enfim, que fique claro que a ideia não é justificar condutas criminosas por conta de outros problemas, até porque todo ser humano tem obstáculos desde seu nascimento, e se cada um de nós fossemos cometer um crime por isso, o mundo certamente não existiria mais.

No entanto, é fato que existe uma série de fatores que resulta na prática de um crime e enseja o cerceamento da liberdade de quem o pratica; e entre esses fatores está a missão social e a consciência que cada um de nós devemos ter para incluir, aceitar e respeitar o próximo.

Em um Estado de Direito o encarceramento sempre será exceção, e, em nenhuma hipótese, a cultura da sociedade e os hábitos individuais podem contribuir para torná-lo corriqueiro. O que se mudam são os maus costumes e não as garantias do cidadão.

Com isso fica o anseio para que, de uma vez por todas, compreendamos enquanto povo que a segregação não é o caminho e tampouco  a solução, e que é possível combater a criminalidade por meio de políticas inclusivas, ao invés de contribuir com ela e aumentar a dosagem da política do encarceramento.

Só assim poderemos ter mais histórias de pais e filhos como na canção de Renato, e cada vez menos Tyrions e Twins.


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Reno Bezerra