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Paulina: um debate imprescindível

Canal Ciências Criminais

Na semana passada recebi um convite muito especial da Sala de Cinema Ulysses Geremia, a qual integra o Centro Municipal de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho, localizado na cidade em que resido (Caxias do Sul/RS): participar de uma sessão comentada do filme argentino Paulina, dirigido por Santiago Mitre. Mal li a sinopse e já senti uma necessidade extrema de assistir ao filme, pois me identifiquei muito com a atitude da personagem, que decide largar a advocacia para mergulhar de cabeça na docência. Como eu contei recentemente aos caros leitores, em que pese eu ame a advocacia, sobretudo a criminal, há alguns meses me tornei professora e sem dúvidas é algo encantador e que nos desafia tanto quanto a advocacia. E ainda mais egrégio é o papel que assumimos quando educadores.

Bom, é uma tarefa árdua e (quase) impossível escrever sobre Paulina sem dar alguns spoilers sobre a história em si… No entanto, prometo me esforçar. Até porque mesmo sabendo de toda a narrativa o filme pode ser capaz de surpreender qualquer um. Aliás, qualquer um que esteja minimamente disposto a efetivamente pensar fora da caixa no que tange às teorias punitivistas (e já ultrapassadas, putrefatas, etc) do senso comum.

Inicialmente, preciso dizer que Paulina nos joga para cima e para baixo durante todos os momentos, pois não é possível escolher um lado certo e errado, como costumamos automaticamente fazer. Mesmo quem já tem um desses posicionamentos imutáveis consegue ser profundamente tocado (nem que seja para gerar a conhecida revolta contra os direitos humanos). O filme retrata a história dessa moça incrível, Paulina, que enfrenta todas as situações que lhe são postas para lutar em prol de sua ideologia, abandonando uma “carreira brilhante na advocacia” para se tornar uma “professorinha rural”, como destaca seu próprio pai, um famoso juiz.

Logo no começo da obra cinematográfica há um valioso embate entre Paulina e seu pai, que apesar de demonstrarem ter os mesmos posicionamentos, trazem à tona duas posições antagônicas: a de quem ainda possui esperança e aposta tudo nela e a de quem já está vencido pelo sistema. Nesse momento, quando enfrentada pelo pai sobre sua carreira como advogada e seu doutorado, Paulina me conquista ao dizer que brilhante ela será quando mudar a vida de alguém, e é por isso que quer apostar na educação. Aos colegas advogados, sabemos o quão desmotivadora pode ser nossa profissão em alguns momentos… E isso se traduz nas palavras de Paulina.

Apesar de apostar todas as fichas na educação, Paulina é inserida em um contexto muito diferente daquele que está acostumada, indo lecionar em uma comunidade carente, localizada em uma região problemática da Argentina. O que ocorre é que tudo que ensina, pensa e luta é colocado em xeque quando acaba sendo abusada sexualmente por alguns meninos da região que, inclusive, fazem parte de seu grupo de alunos.

Paulina nos faz refletir sobre feminismo, sobre criminologia, sobre ideologias… E, o mais importante, reforça algo há muito esquecido: o nosso dever de respeitar a decisão do outro, o que me faz recordar de uma frase que percorria as redes sociais um dia desses, intitulada “regra de ouro”, a qual sugeria “não opine em opressão que tu não sofres”. Assim, o fato de ser mulher, de ser feminista, de ser militante, ou qualquer coisa que o valha, me permite apontar o dedo para a decisão da outra. E isso, sabemos, é um desafio para qualquer um.

Ora, garanto a vocês que não é simples entender a posição da Paulina (a qual não vou contar aqui, é claro), mesmo para mim, que me posiciono em diversos momentos exatamente da mesma maneira que ela. É muito mais fácil compreender a postura do pai dela, personagem que o filme mescla entre a relação pai e filha e um juiz nada imparcial, tema igualmente atual em nossos sombrios dias atuais. Contudo, traz uma reflexão muito profunda sobre a posição da vítima nesses delitos (e podemos expandir para outros, imagino). Nossas reações sempre são no sentido de “o que fulano deve fazer”, “o que eu faria”, “como eu faria”…. mas, e se fulano não quer fazer exatamente como todo mundo faria? E se essa não é uma opção permitida nem mesmo pelo Estado? Uma questão bastante abordada pelo filme também é a da revitimização, lembrando que apesar de ficar claro o papel ainda culturalmente machista e opressor dos órgãos públicos, trata-se da filha de um juiz. E se fosse alguém daquela comunidade no papel de vítima, e não de réu? Aliás, como a personagem Paulina refere em alguma das esplêndidas cenas, o problema é que quando se tratam de pobres, a justiça não quer a verdade, quer culpados.

Enfim, o que pretendo é fazer com que todos os leitores se sintam convidados a prestigiar a mencionada obra cinematográfica, desde que o façam desnudados dos nossos preconceitos diários… O brilhantismo do filme, no meu ver, é justamente a impossibilidade de obter conclusões. E são os questionamentos que nos fazem ir além e não desistir de nossos sonhos, pois como disse outrora Eduardo Galeano, a utopia serve exatamente para que nunca deixemos de caminhar… Bom filme, excelente reflexão e aguardo a opinião dos caros leitores!

Autor
Advogada (RS)
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