ArtigosCriminologia Penitenciária

PCC: Terceira Geração (Parte 5)

pcc

PCC: Terceira Geração (Parte 5)

Mister se faz lembrar o leitor que, para que não “pegue o bonde andando”, leia obrigatoriamente as partes anteriores do artigo (Parte 1Parte 2Parte 3 e Parte 4) para, então, ler o texto de hoje. Prossigamos agora com o estudo da problemática da Terceira Geração do Primeiro Comando da Capital.

pcc 01

Mais uma vez vejo aqui a advertência muito séria aos membros do Partido, o que me faz lembrar de uma frase que escutei de um membro do PCC:

Eu sou do crime e não do creme!

No mundo do crime não se admite a palavra “faça curva” (cujo significado consiste em dizer alguma coisa, combinar algo, assumir um compromisso e depois voltar atrás). Isso é muito mal visto na criminalidade. Mas por que mencionei isso? Explico.

Dentro do PCC, não se admite que uma pessoa que aceitou ser batizada na organização criminosa peça para sair sob a justificativa de não querer mais se envolver, com medo, por exemplo, de “pegar mais cadeia” ou de ter um benefício indeferido pela prática de uma falta disciplinar[1].

Esse fato que o artigo menciona do integrante usufruir de benefícios (que é a “cara dele”, direito dele; no cárcere se usa a frase “é minha cara”, que significa “meu direito”) que foram gerados pelo Sindicato do Crime e alegar ou descobrirem que ele quer sair do PCC porque sua cadeia está acabando ou que foi para a rua e “abandonou” ou “esqueceu” a família, isso pode ser considerado como traição ou covardia e a punição é a pena capital.

Essa punição será feita pelo Disciplina (da cadeia, caso ele esteja preso, ou da rua, caso ele esteja em liberdade). Vi centenas de vezes presos pedindo para sair de tal Pavilhão (ou Raio) e ser transferidos para outro, por acreditarem que poderiam ser prejudicados naquele que habitavam antes.

O mesmo raciocínio é utilizado quando o preso pede para ser transferido para uma cadeia neutra ou de alguma outra facção dissidente. A organização não aceita tais práticas.

pcc 02

pcc 03

Importante informar que posteriormente foi criada a CHEFIA GERAL (ou CIDADE PROIBIDA) que hierarquicamente é superior a Sintonia Final. Na próxima semana darei continuidade ao tema, me comprometendo em uma outra oportunidade falar um pouco sobre a hierarquia do PCC e as funções dos membros dessa sistemática hierarquia criminal.


NOTAS

[1] Falta essa gerada por ordem da CHEFIA-GERAL, da FINAL, da GERAL DOS ESTADOS, do RESUMO ou GERAL DO SISTEMA, que são repassadas ao GERAL DO PRÉDIO, que repassa ao JET, que informa o DISCIPLINA caso o irmão não queira cumprir a missão dada. Nesse caso, tal informação será lançada no LIVRO NEGRO ou no LIVRO DO PRAZO.


GLOSSÁRIO

CHEFIA-GERAL – é a mais alta graduação de hierarquia no PCC, composta por alguns dos fundadores da facção.

GERAL DOS ESTADOS (OU SINTONIA GERAL DOS ESTADOS – formado por cinco pessoas (há um que é superior aos outros). Tem por objetivo a comunicação com os “GERAIS” (tanto dos presídios quanto os da rua). Fora essa incumbência de se comunicar com os Gerais e transmitir as informações, também tem por finalidade criar normas, procedimentos e controlar a disciplina dos irmãos (tantos os presos como os que se encontram na rua).

RESUMO – formado por irmãos de outros Estados, que tem a função de opinar nas decisões da facção (inclusive àquelas referentes a “punições/exclusões”, ratificando ou retificando as decisões de outras “instâncias” do Partido.

GERAL DO SISTEMA – mesmo sistema de integrantes do Geral do Estado (cinco membros, sendo um superior aos demais). Tem a função de controlar os irmãos presos, inclusive quanto a disciplina.

GERAL DO PRÉDIO – mesma função do Geral do Sistema quanto ao controle e disciplina das pessoas presas, só que limitado a partes da cadeia (Raio, Ala e etc.)

JET – responsável pelos membros que estão no Pavilhão ou Raio onde habitam. Recebe as alterações do “DISCIPLINA” e faz uma análise para encaminhamento à “GERAL DO SISTEMA”.

DISCIPLINA – há disciplinas nas ruas e nas cadeias. Dentro das unidades penais são subordinados ao JET, já na rua são subordinados aos Gerais da Rua.

LIVRO NEGRO – na hierarquia, é abaixo da GERAL DOS CADASTROS, sendo responsável por exclusões, punições, registros e salvaguardar as informações de membros do PCC.

LIVRO DO PRAZO – abaixo da GERAL DOS CADASTROS, sendo responsável por registrar e salvaguardar as informações sobre as punições dos membros, assim como registrar as dívidas.

Autor

Agente Penitenciário. Porta-voz da LEAP.
Continue lendo
ArtigosCrime, Arte e Literatura

A Morte de Sócrates: do conhecimento à iniquidade

ArtigosDireito Penal

O Martelo das Feiticeiras e a busca da verdade real no processo penal

ArtigosDireito Penal

Será que os punitivistas são terraplanistas?

ArtigosPolítica Criminal

A relação entre a violência e o racismo

Receba novidades em seu e-mail